terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Aqui escreve-se e sempre se escreverá em Português!

Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011



«Eu, porém, não defendo - nem, presumo, defender alguém - o critério de que o Estado, onde tem ingerência, admita variações ortográficas. Como o indivíduo, o Estado - que em certo modo é também um indivíduo - adopta a - e uma só - ortografia, boa ou má, que entende, e impõe-a onde superintende.»

Fernando Pessoa em A Língua Portuguesa.


«Vamos desobedecer! Nunca foi tão fácil ignorar impunemente um acordo feito atrás das nossas costas, enquanto dormíamos, por quem estava sempre a acordar.»

Miguel Esteves Cardoso sobre o novo (des)acordo ortográfico.


«A elaboração, aprovação e aplicação do Acordo Ortográfico é um escândalo nacional. Um verdadeiro case study sobre a falta de transparência e democraticidade com que dossiers da Cultura, da Educação e da Ciência são sistematicamente tratados em Portugal.»

António Emiliano em Apologia do Desacordo Ortográfico.


Foi com uma sentida tristeza e um profundo pesar que recebemos hoje a confirmação da sentença de morte da língua portuguesa às mãos do novo (des)acordo ortográfico. A Presidência do Conselho de Ministros determinou a aplicação do novo (des)acordo ortográfico da língua portuguesa no sistema educativo já no próximo ano lectivo de 2011-2012. Este culturicídio estender-se-á ao Governo e a todos os serviços, organismos e entidades na sua dependência, bem como à publicação do Diário da República, a partir do dia 1 de Janeiro de 2012. Não obstante, a própria Rádio Televisão Portuguesa começou já a contaminar os seus espectadores, pelo que incitamos e apoiamos o seu boicote.

Ao longo do último ano fomos assistindo de uma forma lamentável à gradual adopção da nova ortografia por grande parte dos jornais e revistas portuguesas, com as notáveis excepções de publicações como Público e O Diabo, os únicos periódicos que a partir de hoje passarão a merecer o nosso carinho e respeito pela sua patriótica posição.

Aos que insistem em classificar esta mudança como irreversível e fruto do progresso, gostaríamos de lembrar que após perdermos todos os resquícios de soberania que ainda detínhamos, a língua era a única riqueza segura, um tesouro que não nos parecia alienável. Infelizmente, também ela foi vendida aos interesses económicos, por (des)governantes mercenários, incompetentes, vis, sem carácter, honra ou dignidade, gananciosos, abjectos, obtusos, ignorantes, analfabetos, cornudos, bastardos, brutos, feios, porcos e maus. A este grupo de criaturas inferiores, quase humanas, juntamos autores como Mia Couto ou a gentalha de movimentos como o MIL que, aproveitando-se da confusão, procuram conseguir alguma projecção ou razão de ser para as suas ignóbeis existências.

Jamais postulámos que o português era uma língua morta e inorgânica, pelo contrário. Sempre defendemos a língua lusíada como um organismo vivo e em constante mutação. Contudo, esta mutação processa-se de forma natural e não de um modo artificial, por decreto político-económico, completamente alheio aos princípios fundamentais da linguística.

É caso para pensar se institucionalmente fará algum sentido continuar-se a celebrar o 10 de Junho como dia de Portugal, em homenagem Luís Vaz de Camões. Quanto à Nossa Alma, desígnio maior desta Pátria mutilada, essa continuará para sempre orgulhosamente Portuguesa. De hoje em diante, mais do que nunca, ou connosco ou contra nós!


Publicado in Nova Casa Portuguesa

Isabel Silvestre

Aí senhor das furnas

Que escuro vai dentro de nós
Rezar o terço ao fim da tarde
Só para espantar a solidão
Rogar a Deus que nos guarde
Confiar-lhe o destino na mão

Que adianta saber as marés
Os frutos e as sementeiras
Tratar por tu os ofícios
Entender o suão e os animais
Falar o dialecto da terra
Conhecer-lhe o corpo pelos sinais

E do resto entender mal
Soletrar assinar em cruz
Não ver os vultos furtivos
Que nos tramam por trás da luz


Aí senhor das furnas
Que escuro vai dentro de nós
A gente morre logo ao nascer
Com olhos rasos de lezíria
De boca em boca passar o saber


Com os provérbios que ficam na gíria
De que nos vale esta pureza
Sem ler fica-se pederneira
Agita-se a solidão cá no fundo
Fica-se sentado à soleira
A ouvir os ruídos do mundo
E a entendê-los à nossa maneira

Carregar a superstição
De ser pequeno ser ninguém
Mas não quebrar a tradição
Que dos nossos avós já vem






segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A Obra e o Pensamento de António Telmo


«O acabar da história que consistirá em ser bruscamente engolida pelo nada que essencialmente é, vai seguido do Apocalipse, porquanto Apocalipse não significa como o vulgo julga. Significa Revelação. A Revelação que é, seguindo ainda Joaquim de Flora, a do Reino do Espírito Santo somente poderá acontecer fora da história e sem qualquer relação com a história, esse nada de si mesmo que foi como o sonho de um sonho em que não se deu qualquer síntese de comentários, mas sim uma sucessão de posições antitéticas no declive fatal para o abismo.»

António Telmo em Portugal dans la découverte d'au-delà de l'histoire.


Algumas personalidades pecam por deixar-nos demasiado cedo. Mesmo quando o fazem aos 83 anos. Foi o que aconteceu com o distinto pensador português António Telmo, discípulo de Álvaro Ribeiro e de José Marinho, falecido em finais de 2010, após uma vida bastante activa e rica intelectualmente, dedicando-se ao aprofundamento do sentido histórico, sagrado e esotérico da Portugalidade.

Em reconhecimento pelo seu esforço, trabalho e dedicação em prol do desvendamento dos mistérios e quimeras da Lusitanidade e Portugalidade, irá realizar-se nos próximos dias 14 e 15 de Fevereiro, no Palácio da Independência em Lisboa, um colóquio de homenagem a este filosofo, dedicado inteiramente à sua obra e pensamento.

Promovido pelo Instituto de Filosofia Luso-Brasileira, este encontro conta com a presença e participação de nomes como Pinharanda Gomes, António Braz Teixeira, Paulo Teixeira Pinto, Paulo Borges, Rui Lopo, Pedro Sinde, entre outros, sendo a entrada livre.

O vento mudou

Ouçam



Ouçam
O vento mudou
Ela não voltou
As aves partiram
As folhas caíram


Ela quis viver
E o mundo correr
Prometeu voltar
Se o vento mudar


E o vento mudou
E ela não voltou
Sei que ela mentiu
P'ra sempre fugiu


Vento por favor
Traz-me o seu amor
Vê que eu vou morrer
Sem não mais a ter


Nuvens tenham dó
Que eu estou tão só
Batam-lhe à janela
Chorem sobre ela
E as nuvens choraram
E quando voltaram
Soube que mentira
P'ra sempre fugira


Nuvens por favor
Cubram minha dor
Já que eu vou morrer
Sem não mais a ter


Ouçam Ouçam ouçam Ouçam ouçam

Letra de João Magalhães Pereira
Música de Nuno Nazareth Fernandes
Intérprete Eduardo Nascimento

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Vales de verdes pinos tão sozinhos

Barros de Beja



Ledos campos de Outrora! em plena festa.

Por onde a minha infância,

Ditosa, decorreu,

Entre fumos de cálida fragrância,

Deslumbramentos, extases do Céu.

Que resta

Desse inefável, em que tudo abria

Em flor e lumes siderais,

Desse inefável de algum dia ?

Vago, indistinto

Sorrir de pôr-do-sol -um sonho extinto...

Uma saudade a desfolhar-se em ais.



Pudesse eu regressar

A mim, volver

Ao intimo do ser,

Ao Anjo em que vivi transfigurado,

De longe em longe, como absorto, a errar...



Plainos de oiro de Beja do Passado,

Da minha clara infância e de outro Mundo,

Libertai-me do sono em que me afundo...

Que eu seja Luz, constelação sagrada,

O' voo para Deus duma «queimada»



Abril de 1960


MÁRIO BEIRÃO




Vales de verdes pinos tão sòzinhos



" Vales de verdes pinos tão sozinhos,

Alumiados da graça do Senhor;

E, em arroubos ao Céu, - jardins em flor

De enlaçadas roseiras sem espinhos...




Ermidas onde ajoelham pobrezinhos,

Sorrindo, como Cristo, à própria dor;

Planícies de enigmático torpor

Onde se escutam vagos murmurinhos...




Por ti, meu pensamento é mais profundo

E o meu canto mais alto se alevanta,

Ó Lusitânia, coração do Mundo!



O mar ergue o teu nome em seus delírios!

E, em tardes de milagre, - ó mais que santa,

Sobre o teu corpo o céu desfolha lírios!


MÁRIO BEIRÃO

palavras de leonardo

“O lirismo é a dignificação e a exaltação do indivíduo. O lirismo procura o verdadeiro, o original sentido de cada alma. O poeta lírico, que, para interpretar as almas, começa pelo que elas apresentam de mais imediatamente concreto, achará no indivíduo o amor que o une ao ente amado. E com esse amor ele o pode enredar e prender à família, à humanidade, ao Universo inteiro.


Originariamente individualista, o lirismo pode levar o homem, de entusiasmo em entusiasmo, a sentir-se bem mais concreto e real na universal sociedade dos seres do que encerrado nos seus sentimentos, que, isolados em si, perderiam a cor, o significado e a vida. Na obra de Camões temos a alma lusitana. Reencontraremos a nossa alma enquanto os nossos olhos souberem chorar de sofrimento e os nossos braços se souberem erguer em resgate. Nessas virtudes antigas devemos ir buscar a força para a obra de hoje. Ela não será um futuro de novas descobertas ou conquistas guerreiras. Mas aquela audácia mística que nos fez ir procurar os mundos desconhecidos empreguemo-la na descoberta dos ignorados mundos da nova justiça, mais humana, mais inquieta e mais amorosa. Aquela coragem e aquela lealdade bem precisas nos são para a obra de perfectibilidade moral e social que a consciência nos exige.”



 
Leonardo Coimbra in Dispersos, I. Poesia Portuguesa, Editorial Verbo, 1984, pág.206

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Portugal como reino independente é filho espiritual de São Bernardo

“Portugal como reino independente é filho espiritual de S. Bernardo, confundindo-se a primeira parte da nossa História com a da Ordem do Templo.


A segunda parte, que começa com D. Dinis, é a História do mito do Quinto Império, enquanto a História dos Descobrimentos é, em boa medida, a história da Demanda do Preste João; nos tempos recentes, a História da nossa Restauração é a História do reavivar do mito sebástico e do mito do Quinto Império, como o prova a obra do Padre António Vieira na “História do Futuro”.

Lima de Freitas; “Porto do Graal”; Ésquilo

(http://www.esquilo.com)

Portugal confundir-se-ia assim com os propósitos que levaram Bernardo de Claraval a criar a Ordem do Templo. E assim, os destinos, caminhos e objetivos de Portugal e da Ordem do Templo confundir-se-iam. Portugal seria uma criação para a Ordem do Templo, um “reino templário”, um conceito bem compatível com a defesa insistente feita em Portugal contra o mandato papal que exigia a extinção da Ordem. O projeto templário confundia-se com o projeto português e o grande motor da portugalidade que foi o processo dos Descobrimentos e da Expansão portuguesa. O mito do “Quinto Império” que hoje ainda sobrevive com tanta energia na cultura lusófona é uma persistência desse perdido projeto templário, que se tentou concretizar em Portugal e na sua Expansão e que ainda verá a luz do dia, é essa a nossa convicção, assim como um dos temas do MIL: Movimento Internacional Lusófono: Um novo tipo de organização social e política universalista, fraterna e verdadeira humana.



Publicado em http://movv.org/category/lima-de-freitas

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sabedoria persa


Água profunda dificilmente se perturba com a pedra que lhe arremessam; e quando a sabedoria
se irrita é porque não é profunda.

   Saadi de Shiraz

Nada está mais perto de ti do que tu mesmo; e sendo assim, como sem conhecimento
próprio queres conhecer os outros?
                                                                                                      Abu Hamid al-Ghasali

Perquirir a verdade sobre o Divino é procurar o fulgor do Sol
com o brilho das estrelas.
                                                                                                            Husain ibn Mansur al-Haladx

Um homem livre é aquele que suporta as ofensas, e um herói é aqueloutro
que não ofende nem aos que merecem ofensas.

                                                                                                         Djelaledin Rumi




sabedoria persa

A verdadeira vida é como um claro espelho; o corpo é a poeira depositada sobre esse espelho. Não conhecemos nossa beleza original, porque estamos ocultos sob o pó.
                                                                       Djelaledin Rumi

Amarra dois pássaros juntamente; eles não poderão voar, embora juntos em vez de duas tenham quatro asas.
                                                                       Djelaledin Rumi

O destino de um homem é o de uma criatura a quem no meio do caminho da vida deram um livro selado, que foi escrito antes do
seu nascimento. Ele traz consigo esse livro até morrer, e, enquanto
está submetido ao tempo, não sabe nada do seu conteúdo.

                                                                                     Abu´l-Madxd Madxud Sana´i

                                                      

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

QALB


Dedica-te mais a estudar o que tens no coração do que a aprender de cor o que está nos livros.

Khalil ibn Ahmed al-Faráhidi
É com o coração, e não com os olhos,
que aquele que ama vê.
Bachchar ibn Burd

Estive sempre sentado nesta pedra
escutando, por assim dizer, o silêncio.
Ou no lago cair um fiozinho de água.
O lago é o tanque daquela idade
em que não tinha o coração
magoado. (Porque o amor, perdoa dizê-lo,
dói tanto! Todo o amor. Até o nosso,
tão feito de privação.) Estou onde
sempre estive: à beira de ser água.
Envelhecendo no rumor da bica
por onde corre apenas o silêncio.

Eugénio de Andrade

Josué Pinharanda Gomes

Josué Pinharanda Gomes, nascido a 16 de Julho de 1939, na aldeia de Quadrazais é um dos mais ilustres pensadores e investigadores da Cultura Portuguesa Contemporânea.

Viveu a infância em Quadrazais, passou a adolescência na cidade da Guarda, frequentando inicialmente a Escola do Gaiatos e mais tarde o Colégio de São José.

Sentiu a vocação de escritor desde muito cedo, por forte influência de Nuno de Montemor, também ele Quadrazenho de nascença e coração.

No Liceu Francês, em Lisboa, frequenta cursos de latim e de grego, e passa a escrever prefácios e posfácios a par de traduções de Aristóteles, Descartes, Heidegger, José de Maistre, Platão, Porfírio e Tomás Morus.

Organiza edições, reedições e antologias de autores votados ao esquecimento, colabora em obras colectivas e tem participado em centenas de congressos e colóquios dedicados a temas religiosos e filosóficos.

É membro da Academia Luso-Brasileira de Filosofia, do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira (sócio-fundador) e da Sociedade de Língua Portuguesa.

Faz parte da Comissão de História da Causa da Canonização do Beato Nuno de Santa Maria mais conhecido por Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável. Passa, agora, muito do seu tempo na Biblioteca Nacional, numa incansável leitura de pesquisa de documentos canónicos desde o tempo de D. Duarte. O objectivo é pedir a canonização do Beato através dos documentos por si compilados no livro «A espiritualidade de Nuno de Santa Maria».

Publicou o primeiro livro, «Exercício da Morte», em 1964.



Texto adaptado de www.cincoquinas.com

S. Nuno de Santa Maria

Sta. Teresa do Menino Jesus

Orlando Vitorino, presente! (faleceu em Dezembro de 2003)

O recente falecimento de Orlando Vitorino obriga-me a que, aqui e agora, preste uma breve homenagem a um dos últimos representantes do movimento da "Filosofia Portuguesa". O autor de Introdução Filosófica à Filosofia do Direito de Hegel, Lisboa, Guimarães Editores, 1961, da Exaltação da Filosofia Derrotada, Lisboa, Guimarães Editores, 1976, e da Refutação da Filosofia Triunfante, Lisboa, Guimarães Editores, 1983, sempre olhado com desconfiança por certos universitários, cumpriu o seu dever de ter vivido como pensava e até teve a coragem de esboçar uma filosófica candidatura à presidência da república.
Coube-lhe a ousadia de lançar a primeira tradução portuguesa da Filosofia do Direito de Hegel, nos começos da década de sessenta do século XX, para, década e meia depois, também introduzir, entre nós, o pensamento de Hayek, O Caminho para a Servidão, Lisboa, Teoremas, 1977.
Bastavam estas duas iniciativas para lhe assegurarem um lugar perene na cultura portuguesa e para se compreender a razão do respectivo isolamento, e até da própria condenação ao silêncio.
Ele tinha compreendido que "os gregos chamaram cidade ao que nós chamamos Estado" e "chamaram política ao que nós chamamos Direito". Por isso, proclamou que "Portugal é simultaneamente um Estado e uma Pátria". Definindo a nação como "o conjunto das gerações ‑ passadas , presentes e futuras ‑ de portugueses", considerava a pátria como "a entidade espiritual de Portugal", que "exprime‑se, existe e perdura na língua, na arte e na história".
Como Orlando Vitorino, também assumimos a república como "a coisa pública que reúne o que é comum interesse, virtual ou manifestamente imediato, de todos os portugueses". E que o Estado não passa da " efectivação do Direito ‑ na Nação, na República e na Pátria ‑ segundo a Verdade, a Liberdade e a Justiça".
Logo, também subscrevemos que "a Nação, a Pátria e a república carecem de um poder real destinado a defender a sua perduração e a assegurar a positividade daquilo que, segundo a definição dos Princípios constitucionais, a cada uma delas é próprio. Esse poder é o Estado"
Como poucos, compreendeu que "o direito grego foi sistematizado por dedução do princípio da verdade". Que "o direito romano por dedução do princípio da justiça". E que "o direito moderno por dedução do princípio da liberdade".
Foi, por isso, um neoclássico, portuguesmente enraizado, e só dele poderia ter vindo o pioneirismo na recuperação da ideia liberal no último quartel do século XX da "pequena casa lusitana". Obrigado, Mestre!

(retirado de página pessoal)

RABI WOELFELE DE ZBORASCH

RABI Woelfele de Zborasch era um verdadeiro Tsaddik entre os Tsaddikim. Um só movimento da sua alma durante a oração era capaz de transportar montanhas. Ele era conhecido de toda a gente na Polónia. Os próprios cristãos não o ignoravam. Não havia senão um homem que não conhecia o Woelfele e era o próprio Rabi Woelfele. Não queria conhecer nada que não fosse o estudo sagrado e a oração, a oração feita em geral para os outros, raramente em seu benefício. Mesmo durante os seus curtos momentos de repouso, era ainda para a santa doutrina que dirigia os pensamentos. No entanto, acontecia-lhe por vezes sentir-se invadido por ideias profanas, quer dizer: tornava-se ele próprio objecto das suas meditações. Não podia explicar-se este milagre de pessoas que vinham de todos os cantos do mundo para se informarem da sua saúde, para lhe pedirem conselho em toda a espécie de assuntos e para obter a sua assistência pela oração. Porquê este respeito extraordinário que lhe testemunhavam? Chegava a pensar que tudo isto não podia ser mais do que o efeito dum profundo erro.
- Todas as crianças de Israel são igualmente kedoschim, santos, igualmente amados por Deus. Porquê então as suas atenções estão preferentemente voltadas para mim? Porque é que esta multidão aflui aqui nos dias do sabbat e de festa? O sabbat tem em toda a parte a mesma santidade e as festas também, mesmo se as celebrarmos num estábulo. Mas já que estas pessoas vêm procurar-me, importa que as receba com grandes honras, que partilhe com elas o pão que Deus nos deu para que o comamos em paz e em alegria com o nosso próximo. Aquele que se sente comprometido com os seus semelhantes é digno de viver. Todo o homem tem um valor aos olhos de Deus. Poderia ser por outra coisa já que ele foi criado à imagem do criador?
Assim meditava o Rabi de Zborasch.
Quando duas partes adversas vinham submeter-lhe um litígio, o Rabi Woelfele respondia, na sua modéstia:
- Quem sou eu para me permitir misturar-me nos assuntos de dois homens tão dignos como vós? Sabeis tão bem como eu que para os judeus a paz é o único vaso próprio para receber todas as bençãos.
Um dia, ouviu a mulher discutir com uma serva, porque esta, sem a prevenir, tinha arranjado emprego.
- Tu não te vais embora! gritou zangada a mulher do rabi.
- E eu digo-lhe que não ficarei em sua casa, respondeu num tom obstinado a serva. Vamos diante do juiz.
E como o rabi via que a sua mulher punha os melhores vestidos de sabbat e se preparava para ir ao tribunal, apressou-se a fazer outro tanto a fim de a acompanhar.
- Onde vais? perguntou a mulher espantada.
- a casa do juiz, querida, respondeu tranquilqmente o Rabi Woelfele.
- Mas este assunto não te diz respeito, não tenho necessidade da tua ajuda, sei muito bem fazer valer o meu direito.
- É verdade, querida, ouviste muito bem, mas não estou muito seguro que a serva se possa defender tão bem como tu.
- E isso que te importa? Tu não vais, suponho, tomar o seu partido?
- Porque não? respondeu o rabi surpreendido. Não diz no livro de Job: «Desprezei o direito do meu servo ou da minha serva, quando eles estavam em disputa comigo? Que devo fazer quando Deus se levanta? Que respondo quando ele castiga? O mesmo Deus não nos criou a todos?».
Eis aqui uma faceta do rabi Zborasch.
Era em pleno inverno. O frio era muito e um vento glacial fustigava os rostos. Chegou um mensageiro, enviado por um comerciante de uma aldeia vizinha para convidar o Rabi a vir assistir a um recém-nascido que no dia seguinte deveria ser recebido na aliança de Abraão. o Rabi Woelfele alegrou-se muito com esta notícia e, pela meia-noite, subiu para o seu carro e partiu a toda a pressa para saudar o novo filho do nosso santo patriarca e junto do berço montar a guarda de honra a quem a merecia. Chegado ao destino, o Rabi encontrou todos os judeus do sítio já reunidos num quarto bem aquecido e bem iluminado. A mesa estava magnificamente posta, e era com impaciência que aguardavam o venerado mestre. Mas o Rabi Woelfele vinha apenas sentar-se e aquecer-se um pouco porque depois ergueu-se e saiu. Ninguém estranhou: o Rabi iria certamente regressar dentro de alguns instantes. Mas os minutos e os quartos de hora escoaram-se; havia mais de uma hora que o rabi saíra e não regressara. Começaram então a ficar seriamente inquietos (...) Andaram de um lado para o outro, por entre as espessas trevas invocando o nome sagrado, quando chegando ao telheiro da casa ouviram passos. Aproximaram-se, procuraram na escuridão, e o rabi Woelfele respondeu tranquilamente. À luz de um fósoforo que o vento logo apagou, lobrigaram o rabi tremendo de frio e a barba coberta de flocos de neve.
- Que aconteceu, rabi? perguntou o comerciante. Não foste bem recebido em minha casa?
- Não brinques, respondeu o Rabi. Pelo contrário, o teu acolhimento penetrou no meu coração com um doce calor. Mas lembrei-me, de repente, de que deixara o meu cocheiro exposto ao frio e, para evitar, Deus o guarde, que ele ficasse doente, saí para o mandar para a cozinha a fim de que ele se aquecesse um pouco. Ainda não veio.
Dirigiram-se então à cozinha, onde encontraram o cocheiro profundamente adormecido junto do fogão (...) Nesse momento todos ficaram convictos de que o rabi Woelfele era o verdadeiro Tsaddik e valia mais do que o mundo inteiro. (...)
Um dia, um dos seus discípulos, levado pela curiosidade de ver um Tsaddik de grande reputação, pôs-se a caminho de Lublin, onde vivia um destes homens de Deus junto do qual se propunha passar o sabbat. Quando o Tsaddik se apercebeu, ralhou-lhe duramente:
- Vai-te embora, disse-lhe. Regressa a Zborasch. O menos inocente dos dias do teu mestre Rabi Woelfele é o dia de sabbat. Esse santo rabi não tem mais do que um pecado que comete todos os dias: mente!
- Como ousas dizer isso? gritou estupefacto o discípulo.
- É verdade, mente na sua oração diária: «Perdoai-me, ó Pai do Céu, porque pequei». Ora ele nada tem por que pedir perdão.

A. WEIL, Contos e lendas de Israel

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

UN HOME QUE DESPERTA

Algo así dirá Deus: Pastor, voute vestir de luz
a terra que asosegas coas túas ovellas pardas
vouna despertar
facéndolle volver o enrugado rostro
cara a onde nace o día.

A lúa dice adeus
termando das estrelas que foxen.
Mollas no fonte os ollos e polos teus soños
coas mans baleiras pregúntaste
como matinabas ter deitada unha muller ao teu cáron
tal un longo camiño ou un calado lume.
Ao traveso da porta aberta
volves nirar se aínda fica no leito
semellando un suave pano branco
agás a longa cabeleira
que é parte do tesouro da noite.
Alégrate porque o dia ten bosques
as hedras esfarélanse cando unha ollada de amor
pasa na sombra dos carballos
pro gastarás o día, a noite e maila morte
sen atopar endexamais no chan o anelo de ouro.
Quizabes pra esto non facía falla
que Deus te despertase e fixese a luz.