Segunda-feira, 13 de Junho de 2011123º aniversário de Fernando Pessoa celebrado pelo Google
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011123º aniversário de Fernando Pessoa celebrado pelo Google
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Doodle evocativo do 123º aniversário de Fernando Pessoa utilizado pelo motor
de busca Google.
Publicado por Nova Casa Portuguesa a 13.6.11
segunda-feira, 13 de junho de 2011
quinta-feira, 2 de junho de 2011
SOBRE OS CONTOS DE FADAS
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»
A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)
Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.
Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»
Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».
Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».
Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”
António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, s.d., pág 100
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»
A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)
Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.
Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»
Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».
Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».
Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”
António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, s.d., pág 100
terça-feira, 17 de maio de 2011
A origem da Linguagem - Poema de Tito Lucrécio
A Origem da Linguagem
Enfim, o que existe de tão singular
no ser humano, tendo voz e língua fortes,
dar vários nomes às coisas, conforme as várias
sensações, como os mudos animais ou as feras
que costumam rugir com diferentes sons,
quando sentem temor, dor ou tem mais prazer?
Claro que se entende isso com fatos à mostra.
Quando irritado, o cão Molosso freme a mole
gengiva, ostentando assim seus duros dentes.
Um é o som com que a raiva ameaça e vai longe,
outro ao latir: completam tudo com latidos.
Ou quando, branco, tenta lamber os filhotes
lactantes, quando presos pelas patas - tenros,
sadios - fingem matá-los com leves dentadas,
é diverso o ganido com que os afaga;
ou quando late, só, em frente aos portões das casas
ou chora e foge à chuva, o rabo entre as pernas.
E o cavalo? Não tem relinchos diferentes
na flor da idade, entre éguas, a espora a enervá-lo,
tocado pelo Amor alado, aspira à luta
com narinas arfantes, ou quando relincha
por qualquer outra coisa, de um jeito abalado?
Assim, as várias raças de rápidas aves
(a de bico quebra-ossos, a ave de rapina
e o mergulhão, que nutre-se no mar salgado)
quando atacam a presa em busca de alimento,
lançam a cada instante pios diferentes.
Umas mudam seus cantos roucos quando vem
vendaval: as velhas gralhas e o bando
de corvos- dizem- pedem a água da chuva
enquanto cantam entre os ventos e as brisas.
Se as várias sensações levam os animais
a emitir muitas vozes, ainda que mudos,
á ainda mais justo que o homem pudesse
nomear muitas coisas com várias palavras.
Tradução de Mário Domingues
______________________________
Titus Lucretius Carus, ou Tito Lucrécio, nasce em Roma, em 98 a.C.
Sua única obra, o poema A Natureza das Coisas, é considerada, ainda hoje, a maior fonte de conhecimento da doutrina do filósofo grego Epicuro.
Enfim, o que existe de tão singular
no ser humano, tendo voz e língua fortes,
dar vários nomes às coisas, conforme as várias
sensações, como os mudos animais ou as feras
que costumam rugir com diferentes sons,
quando sentem temor, dor ou tem mais prazer?
Claro que se entende isso com fatos à mostra.
Quando irritado, o cão Molosso freme a mole
gengiva, ostentando assim seus duros dentes.
Um é o som com que a raiva ameaça e vai longe,
outro ao latir: completam tudo com latidos.
Ou quando, branco, tenta lamber os filhotes
lactantes, quando presos pelas patas - tenros,
sadios - fingem matá-los com leves dentadas,
é diverso o ganido com que os afaga;
ou quando late, só, em frente aos portões das casas
ou chora e foge à chuva, o rabo entre as pernas.
E o cavalo? Não tem relinchos diferentes
na flor da idade, entre éguas, a espora a enervá-lo,
tocado pelo Amor alado, aspira à luta
com narinas arfantes, ou quando relincha
por qualquer outra coisa, de um jeito abalado?
Assim, as várias raças de rápidas aves
(a de bico quebra-ossos, a ave de rapina
e o mergulhão, que nutre-se no mar salgado)
quando atacam a presa em busca de alimento,
lançam a cada instante pios diferentes.
Umas mudam seus cantos roucos quando vem
vendaval: as velhas gralhas e o bando
de corvos- dizem- pedem a água da chuva
enquanto cantam entre os ventos e as brisas.
Se as várias sensações levam os animais
a emitir muitas vozes, ainda que mudos,
á ainda mais justo que o homem pudesse
nomear muitas coisas com várias palavras.
Tradução de Mário Domingues
______________________________
Titus Lucretius Carus, ou Tito Lucrécio, nasce em Roma, em 98 a.C.
Sua única obra, o poema A Natureza das Coisas, é considerada, ainda hoje, a maior fonte de conhecimento da doutrina do filósofo grego Epicuro.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
A Festa das Maias
«É curioso o interesse e o sentimento com que quase todos os habitantes desta freguesia, grandes e pequenos, têm em colocar as maias nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos de gago e capoeiras.
Diz a crença popular que as maias, isto é, flores de giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Diz mais: na casa que não tenha maias colocadas ao entrar o mês de Maio, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
Antigamente cantavam-se as Maias como ainda hoje se cantam as Janeiras.
Diz Teófilo Braga, em Epopeias dos Povos Moçárabes, que este velhíssimo costume é o que resta do antiquíssimo culto do Odin (festa nocturna dos espíritos) dos povos do Norte, que Carlos Magno e os concílios católicos abafaram. O povo, porém, conservou vestígios desse antiquíssimo culto do paganismo.»
Joaquim Neves dos Santos em Guifões: notas Arqueológicas, Históricas e Etnográficas.
Gravura alusiva à Festa das Maias.
Disseminada por praticamente todo o território nacional, a velha tradição das maias parece milagrosamente resistir aos ventos do mundo moderno, mesmo no coração dos maiores centros urbanos de Portugal, num raro exemplo perenidade, revelando de que modo um traço cultural e espiritual primordial se pode perpetuar no inconsciente colectivo de um povo.
A origem desde arcano costume perde-se nos alvores da História de um Extremo Ocidente pré-Portugal de costumes bárbaros. Como tantas outras festividades ou celebrações pagãs integradas no nosso imaginário imaterial e espiritual, a Festa das Maias assume variadíssimas formas, demonstrando uma heterogeneidade notável na nossa vivência do mito. Ligadas a cultos ancestrais de fertilidade, as maias, giestas bravas de cor amarelada que abundam sobretudo durante a primavera, foram posteriormente assimiladas pelo cristianismo, graças à virtude da heterodoxia espiritual do Homem Português.
Vemos por isso, na primeira madrugada de Maio, penduradas nas portas e janelas das casas e automóveis as tão famosas plantas, símbolo de favoráveis e fecundos auspícios, mas sobretudo de protecção.
«É curioso o interesse e o sentimento com que quase todos os habitantes desta freguesia, grandes e pequenos, têm em colocar as maias nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos de gago e capoeiras.
Diz a crença popular que as maias, isto é, flores de giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Diz mais: na casa que não tenha maias colocadas ao entrar o mês de Maio, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
Antigamente cantavam-se as Maias como ainda hoje se cantam as Janeiras.
Diz Teófilo Braga, em Epopeias dos Povos Moçárabes, que este velhíssimo costume é o que resta do antiquíssimo culto do Odin (festa nocturna dos espíritos) dos povos do Norte, que Carlos Magno e os concílios católicos abafaram. O povo, porém, conservou vestígios desse antiquíssimo culto do paganismo.»
Joaquim Neves dos Santos em Guifões: notas Arqueológicas, Históricas e Etnográficas.
Gravura alusiva à Festa das Maias.
Disseminada por praticamente todo o território nacional, a velha tradição das maias parece milagrosamente resistir aos ventos do mundo moderno, mesmo no coração dos maiores centros urbanos de Portugal, num raro exemplo perenidade, revelando de que modo um traço cultural e espiritual primordial se pode perpetuar no inconsciente colectivo de um povo.
A origem desde arcano costume perde-se nos alvores da História de um Extremo Ocidente pré-Portugal de costumes bárbaros. Como tantas outras festividades ou celebrações pagãs integradas no nosso imaginário imaterial e espiritual, a Festa das Maias assume variadíssimas formas, demonstrando uma heterogeneidade notável na nossa vivência do mito. Ligadas a cultos ancestrais de fertilidade, as maias, giestas bravas de cor amarelada que abundam sobretudo durante a primavera, foram posteriormente assimiladas pelo cristianismo, graças à virtude da heterodoxia espiritual do Homem Português.
Vemos por isso, na primeira madrugada de Maio, penduradas nas portas e janelas das casas e automóveis as tão famosas plantas, símbolo de favoráveis e fecundos auspícios, mas sobretudo de protecção.
os Templários
Também chamada dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, esta Ordem foi fundada em 12 de junho de 1118 em Jerusalém por Hugo de Payens, Cavaleiro de Burgúndia, e Godofredo de Saint Omer.
Balduíno II, rei de Jerusalém, alojou ambos e a mais sete aderentes seus, perto do Templo de Salomão, originando-se daí a denominação de Templários. Durante nove anos, seus membros dedicaram-se somente a trabalhos sobre o plano metafísico, sem participar nos combates e na política. Seria infantil, para alguns, crer que a Ordem do Templo surgiu para defender Jerusalém, ou para guardar o Santo Sepulcro, ou para proteger os peregrinos. Os historiadores mesmo não acreditam nessa versão, mas são obrigados a se contentarem com as conjecturas, pois não puderam descobrir nenhum documento sobre a Missão Esotérica da Ordem.
São Bernardo de Clairvaux, fundador da Ordem Cirtecense, foi o patrono dos Templários. Ele enviou uma carta a Hugo de Payens pedindo a cooperação da Ordem para reabilitar os "ladrões e sacrílegos, assassinos, perjúrios e adúlteros", porém que estivessem dispostos a se alistar nas fileiras das Cruzadas pela liberação da Terra Santa. Alentado assim por um dos mais influentes de sua época, Hugo de Payens partiu em direção do Concílio de Troyes, na França, para assegurar o reconhecimento de sua Ordem na Europa. Ali sob o patrocínio e protecção de S. Bernardo apresentou a regra da irmandade, que seguia até certo ponto a Regra da Ordem Cirtecense. Mas a carta constitutiva da Ordem, que a estabeleceu definitivamente, só lhe foi outorgada em 1163 pelo Papa Alexandre III.
Em seu período áureo, foi constituída de vários graus. A sua secção mais importante foi a dos Cavaleiros, por sua feição militar. Em sua recepção, juravam observar os três preceitos de pobreza, castidade e obediência, tal qual os membros das demais Ordens da Igreja. Em geral descendentes de alta estirpe, os Cavaleiros tinham direito a três cavalos, a um escudeiro e duas tendas. Aceitavam-se também homens casados, mas sob a condição de legarem à Ordem metade de suas propriedades, e não se admitiam mulheres. Depois vinha um corpo de Clérigos, incluindo Bispos, Padres e Diáconos, sujeitos aos mesmos votos dos Cavaleiros, e que por especial dispensação não rendiam obediência a nenhum superior eclesiástico ou civil, a não ser o Grão-Mestre do Templo e ao Papa. Instituiu-se que as confissões dos irmãos da Ordem deviam ser ouvidas somente por clérigos especiais, e assim permaneciam invioláveis os seus segredos. Também havia duas classes de Irmãos Servidores, os criados e os artífices. A hierarquia administrativa da Ordem era formada pelo Grão-Mestre, o Senescal do Templo, o Marechal como autoridade suprema em assuntos militares, e os Comendadores sob cuja direcção estavam as Províncias.
A influência dos Templários cresceu rapidamente. Combateram valentemente em várias Cruzadas, e a mercê dos bens tomados de seus inimigos vencidos, ou doados à Ordem, chegaram a ser grandes financeiros e banqueiros internacionais, cujas riquezas tiveram o seu apogeu em meados do século treze. Os reis da Europa depositavam seus tesouros e riquezas nas arcas dos Templários e, no que não era incomum ocorrer, pediam até mesmo empréstimos a Ordem.
Seu papel preponderante na Igreja se pode avaliar pelo facto de os membros da Ordem serem convocados para participar dos Grandes Concílios da Igreja, tal como o de Latrão em 1215 e o de Lyon em 1274. Assim, não há dúvida que essa Ordem foi um dos repositórios da Sabedoria Oculta na Europa, durante os séculos doze e treze, porém seus segredos eram transmitidos tão-só a alguns de seus membros selecionados. Em sua secção religiosa, as cerimônias de recepção eram executadas sob estrito sigilo, e daí, naturalmente, a razão de lhe haverem os leigos atribuído as mais horríveis práticas e histórias infundadas.
Depois da tomada de Jerusalém pêlos Sarracenos (Muçulmanos que, inclusive, nos períodos de trégua, negociavam com os Templários, pois acreditavam ser prudente ter algum dinheiro invertido com os cristãos para o caso de que os avatares da guerra pudessem terminar em alguma espécie de pacto com os europeus ) em 1291, adveio a queda do Reino Latino; o quartel-general da Ordem foi transferido da Cidade Santa para Chipre, e Paris passou à categoria de seu principal centro na Europa. Por certo que esta derrota das Cruzadas, em que o túmulo de Cristo caiu nas mãos dos "infiéis", abalou a posição dos Templários, como das demais ordens militares, mas ninguém poderia prever o seu fim brusco e trágico. Conservando-se ainda poderosamente rica, credora do Papa e da corte da França, suas posses passaram a ser avidamente cobiçadas. Felipe IV, o Belo, necessitava prementemente de dinheiro e depois de haver confiscado os haveres dos banqueiros lombardos e judeus e tê-los expulso do país, volveu suas gulosas vistas para os Templários. Como o Papa Clemente V devia sua posição em Avinhão às intrigas do rei, foi fácil a sua aquiescência. Essa macabra tarefa foi muito ajudada pelo ex-cavaleiro Esquieu de Floyran, o qual, pessoalmente interessado na desmoralização da Ordem, contra ela levantou as mais duvidosas acusações. Essas acusações foram sofregamente aceitas por Felipe IV, que, numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, mandou prender todos os Templários da França e o seu Grão-Mestre, Jacques DeMolay, os quais, submetidos à Inquisição, foram por esta acusados de hereges. Por meio de inomináveis torturas físicas, infligidas a ferro e fogo, foram arrancadas desses infelizes as mais, contraditórias confissões. O Papa, desejoso de aniquilar a Ordem, convocou um concílio em Viena, em 1311, com esse fim, mas os Bispos se recusaram a condená-la à revelia; conseqüentemente, o Papa convocou um consistório privado em 22 de novembro de 1312, e aboliu a Ordem, conquanto admitindo a falta de provas das acusações. As riquezas da Ordem foram confiscadas em benefício da Ordem de São João, mas é certo que a grossa parcela francesa foi adjudicada aos cofres do rei da França, Felipe, o Belo. A tragédia atingiu seu ponto culminante em 14 de março de 1314, quando o Grão-Mestre do Templo, Jacques DeMolay, e Godofredo de Charney, preceptor da Normandia, foram publicamente queimados no pelourinho diante da catedral de Notre Dame, ante a turba, como hereges impenitentes. Diz-se que o Grão-Mestre, ao ser envolto e devorado pela pira, ele voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe... Convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para recebam vosso justo castigo. Malditos... Malditos... Malditos... Sereis malditos até treze gerações...". E de facto, antes de decorridos doze meses, ambos os intimados estavam mortos.
Em Portugal, o rei D.Dinis não aceita as acusações, funda a Ordem de Cristo para qual passam muitos Templários. Na Inglaterra, o rei Eduardo II, que não concordara com as ações de seu sogro Felipe, ordena uma investigação cujo resultado proclama a inocência da Ordem. Na Inglaterra, Escócia e Irlanda os Templários distribuíram-se entre a Ordem dos Hospitalários, monastérios e abadias. Na Espanha, o Concílio de Salamanca, declara unanimemente que os acusados são inocentes. Na Alemanha e Itália a maioria dos cavaleiros restou em liberdade.
No entanto, a destruição da Ordem não acarretou a supressão completa de seus ensinamentos mais profundos. A sua mística permaneceu viva através dos seis séculos e meio às fogueiras de Notre Dame, palpita indubitavelmente no corpo e no espírito da Maçonaria.
Balduíno II, rei de Jerusalém, alojou ambos e a mais sete aderentes seus, perto do Templo de Salomão, originando-se daí a denominação de Templários. Durante nove anos, seus membros dedicaram-se somente a trabalhos sobre o plano metafísico, sem participar nos combates e na política. Seria infantil, para alguns, crer que a Ordem do Templo surgiu para defender Jerusalém, ou para guardar o Santo Sepulcro, ou para proteger os peregrinos. Os historiadores mesmo não acreditam nessa versão, mas são obrigados a se contentarem com as conjecturas, pois não puderam descobrir nenhum documento sobre a Missão Esotérica da Ordem.
São Bernardo de Clairvaux, fundador da Ordem Cirtecense, foi o patrono dos Templários. Ele enviou uma carta a Hugo de Payens pedindo a cooperação da Ordem para reabilitar os "ladrões e sacrílegos, assassinos, perjúrios e adúlteros", porém que estivessem dispostos a se alistar nas fileiras das Cruzadas pela liberação da Terra Santa. Alentado assim por um dos mais influentes de sua época, Hugo de Payens partiu em direção do Concílio de Troyes, na França, para assegurar o reconhecimento de sua Ordem na Europa. Ali sob o patrocínio e protecção de S. Bernardo apresentou a regra da irmandade, que seguia até certo ponto a Regra da Ordem Cirtecense. Mas a carta constitutiva da Ordem, que a estabeleceu definitivamente, só lhe foi outorgada em 1163 pelo Papa Alexandre III.
Em seu período áureo, foi constituída de vários graus. A sua secção mais importante foi a dos Cavaleiros, por sua feição militar. Em sua recepção, juravam observar os três preceitos de pobreza, castidade e obediência, tal qual os membros das demais Ordens da Igreja. Em geral descendentes de alta estirpe, os Cavaleiros tinham direito a três cavalos, a um escudeiro e duas tendas. Aceitavam-se também homens casados, mas sob a condição de legarem à Ordem metade de suas propriedades, e não se admitiam mulheres. Depois vinha um corpo de Clérigos, incluindo Bispos, Padres e Diáconos, sujeitos aos mesmos votos dos Cavaleiros, e que por especial dispensação não rendiam obediência a nenhum superior eclesiástico ou civil, a não ser o Grão-Mestre do Templo e ao Papa. Instituiu-se que as confissões dos irmãos da Ordem deviam ser ouvidas somente por clérigos especiais, e assim permaneciam invioláveis os seus segredos. Também havia duas classes de Irmãos Servidores, os criados e os artífices. A hierarquia administrativa da Ordem era formada pelo Grão-Mestre, o Senescal do Templo, o Marechal como autoridade suprema em assuntos militares, e os Comendadores sob cuja direcção estavam as Províncias.
A influência dos Templários cresceu rapidamente. Combateram valentemente em várias Cruzadas, e a mercê dos bens tomados de seus inimigos vencidos, ou doados à Ordem, chegaram a ser grandes financeiros e banqueiros internacionais, cujas riquezas tiveram o seu apogeu em meados do século treze. Os reis da Europa depositavam seus tesouros e riquezas nas arcas dos Templários e, no que não era incomum ocorrer, pediam até mesmo empréstimos a Ordem.
Seu papel preponderante na Igreja se pode avaliar pelo facto de os membros da Ordem serem convocados para participar dos Grandes Concílios da Igreja, tal como o de Latrão em 1215 e o de Lyon em 1274. Assim, não há dúvida que essa Ordem foi um dos repositórios da Sabedoria Oculta na Europa, durante os séculos doze e treze, porém seus segredos eram transmitidos tão-só a alguns de seus membros selecionados. Em sua secção religiosa, as cerimônias de recepção eram executadas sob estrito sigilo, e daí, naturalmente, a razão de lhe haverem os leigos atribuído as mais horríveis práticas e histórias infundadas.
Depois da tomada de Jerusalém pêlos Sarracenos (Muçulmanos que, inclusive, nos períodos de trégua, negociavam com os Templários, pois acreditavam ser prudente ter algum dinheiro invertido com os cristãos para o caso de que os avatares da guerra pudessem terminar em alguma espécie de pacto com os europeus ) em 1291, adveio a queda do Reino Latino; o quartel-general da Ordem foi transferido da Cidade Santa para Chipre, e Paris passou à categoria de seu principal centro na Europa. Por certo que esta derrota das Cruzadas, em que o túmulo de Cristo caiu nas mãos dos "infiéis", abalou a posição dos Templários, como das demais ordens militares, mas ninguém poderia prever o seu fim brusco e trágico. Conservando-se ainda poderosamente rica, credora do Papa e da corte da França, suas posses passaram a ser avidamente cobiçadas. Felipe IV, o Belo, necessitava prementemente de dinheiro e depois de haver confiscado os haveres dos banqueiros lombardos e judeus e tê-los expulso do país, volveu suas gulosas vistas para os Templários. Como o Papa Clemente V devia sua posição em Avinhão às intrigas do rei, foi fácil a sua aquiescência. Essa macabra tarefa foi muito ajudada pelo ex-cavaleiro Esquieu de Floyran, o qual, pessoalmente interessado na desmoralização da Ordem, contra ela levantou as mais duvidosas acusações. Essas acusações foram sofregamente aceitas por Felipe IV, que, numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, mandou prender todos os Templários da França e o seu Grão-Mestre, Jacques DeMolay, os quais, submetidos à Inquisição, foram por esta acusados de hereges. Por meio de inomináveis torturas físicas, infligidas a ferro e fogo, foram arrancadas desses infelizes as mais, contraditórias confissões. O Papa, desejoso de aniquilar a Ordem, convocou um concílio em Viena, em 1311, com esse fim, mas os Bispos se recusaram a condená-la à revelia; conseqüentemente, o Papa convocou um consistório privado em 22 de novembro de 1312, e aboliu a Ordem, conquanto admitindo a falta de provas das acusações. As riquezas da Ordem foram confiscadas em benefício da Ordem de São João, mas é certo que a grossa parcela francesa foi adjudicada aos cofres do rei da França, Felipe, o Belo. A tragédia atingiu seu ponto culminante em 14 de março de 1314, quando o Grão-Mestre do Templo, Jacques DeMolay, e Godofredo de Charney, preceptor da Normandia, foram publicamente queimados no pelourinho diante da catedral de Notre Dame, ante a turba, como hereges impenitentes. Diz-se que o Grão-Mestre, ao ser envolto e devorado pela pira, ele voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe... Convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para recebam vosso justo castigo. Malditos... Malditos... Malditos... Sereis malditos até treze gerações...". E de facto, antes de decorridos doze meses, ambos os intimados estavam mortos.
Em Portugal, o rei D.Dinis não aceita as acusações, funda a Ordem de Cristo para qual passam muitos Templários. Na Inglaterra, o rei Eduardo II, que não concordara com as ações de seu sogro Felipe, ordena uma investigação cujo resultado proclama a inocência da Ordem. Na Inglaterra, Escócia e Irlanda os Templários distribuíram-se entre a Ordem dos Hospitalários, monastérios e abadias. Na Espanha, o Concílio de Salamanca, declara unanimemente que os acusados são inocentes. Na Alemanha e Itália a maioria dos cavaleiros restou em liberdade.
No entanto, a destruição da Ordem não acarretou a supressão completa de seus ensinamentos mais profundos. A sua mística permaneceu viva através dos seis séculos e meio às fogueiras de Notre Dame, palpita indubitavelmente no corpo e no espírito da Maçonaria.
terça-feira, 5 de abril de 2011
IN PRINCIPIO ERAT VERBUM - S. JOÃO
ΕΝ ΑΡΧΗ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
IN PRINCIPIO erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum
AO PRINCÍPIO era o logos e o logos era em Deus e Deus era o logos
Οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν
hoc erat in principio apud Deum
Tal era, ao princípio, o que estava em Deus;
πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν.
omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est
tudo, de Si Mesmo, veio a ser; se outro de Si, nada do que é, seria.
ὃ γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων:
in ipso vita erat et vita erat lux hominum
Nele estava a vida e a vida era a luz dos humanos;
καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει, καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν.
et lux in tenebris lucet et tenebrae eam non conprehenderunt
e a luz luziu nas trevas, e as trevas não a dissiparam
Ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ, ὄνομα αὐτῷ Ἰωάνης
fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes
Um humano encarna, apóstolo (enviado) de Deus, nomeado mensageiro (João)
οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν, ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός, ἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι᾽ αὐτοῦ.
hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum
e que veio mártir (testemunha); do seu martírio (testemunho) ácerca da luz a todos, através dele, chegou a fé (pisteusousin)
IN PRINCIPIO erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum
AO PRINCÍPIO era o logos e o logos era em Deus e Deus era o logos
Οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν
hoc erat in principio apud Deum
Tal era, ao princípio, o que estava em Deus;
πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν.
omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est
tudo, de Si Mesmo, veio a ser; se outro de Si, nada do que é, seria.
ὃ γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων:
in ipso vita erat et vita erat lux hominum
Nele estava a vida e a vida era a luz dos humanos;
καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει, καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν.
et lux in tenebris lucet et tenebrae eam non conprehenderunt
e a luz luziu nas trevas, e as trevas não a dissiparam
Ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ, ὄνομα αὐτῷ Ἰωάνης
fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes
Um humano encarna, apóstolo (enviado) de Deus, nomeado mensageiro (João)
οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν, ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός, ἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι᾽ αὐτοῦ.
hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum
e que veio mártir (testemunha); do seu martírio (testemunho) ácerca da luz a todos, através dele, chegou a fé (pisteusousin)
Arte de Filosofar
Arte de Filosofar
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
-Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
-Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
terça-feira, 22 de março de 2011
Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa"
Palácio da Independência: 22-23 de Março de 2011
Ocorrendo, neste ano, o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa (1911-1987), figura maior do pensamento luso-brasileiro contemporâneo, decidiu o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira assinalar a efeméride com a realização de um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento, cuja produção e edição se repartiu entre os dois países.
Companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil, Eudoro de Sousa acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião, a qual se manifestou nos artigos e ensaios que publicou, em Portugal, no decénio de 1944-1953 e veio a encontrar acabada expressão na trilogia Horizonte e Complementaridade (1975), Mitologia (1980) e História e Mito (1981), redigidas e editadas durante a sua permanência no Brasil, onde participou nas actividades que vieram a configurar a Escola de São Paulo e exerceu longo e fecundo magistério na Universidade de Brasília.
Apesar de a totalidade da sua obra haver sido recentemente editada em Portugal (INCM, 2000-2004) e ter sido objecto de valiosos e inteligentes estudos interpretativos nos dois países, é ainda relativamente limitado o conhecimento do seu pensamento, esperando-se que o presente Colóquio possa contribuir para conferir a Eudoro de Sousa o lugar cimeiro que lhe cabe na reflexão luso-brasileira da segunda metade do século XX.
Ocorrendo, neste ano, o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa (1911-1987), figura maior do pensamento luso-brasileiro contemporâneo, decidiu o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira assinalar a efeméride com a realização de um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento, cuja produção e edição se repartiu entre os dois países.
Companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil, Eudoro de Sousa acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião, a qual se manifestou nos artigos e ensaios que publicou, em Portugal, no decénio de 1944-1953 e veio a encontrar acabada expressão na trilogia Horizonte e Complementaridade (1975), Mitologia (1980) e História e Mito (1981), redigidas e editadas durante a sua permanência no Brasil, onde participou nas actividades que vieram a configurar a Escola de São Paulo e exerceu longo e fecundo magistério na Universidade de Brasília.
Apesar de a totalidade da sua obra haver sido recentemente editada em Portugal (INCM, 2000-2004) e ter sido objecto de valiosos e inteligentes estudos interpretativos nos dois países, é ainda relativamente limitado o conhecimento do seu pensamento, esperando-se que o presente Colóquio possa contribuir para conferir a Eudoro de Sousa o lugar cimeiro que lhe cabe na reflexão luso-brasileira da segunda metade do século XX.
terça-feira, 15 de março de 2011
A filosofia portuguesa e o prazer de conversar - Metáfora
«Não sei se o Pedro já reparou em que os nossos grandes poetas e filósofos se caracterizam, por um dos seus lados, pelo prazer de conversar.
Sampaio Bruno escreveu como quem conversa, donde é fácil deduzir de uma angelogia a sua concepção filosófica d’A Ideia de Deus.
Álvaro conversa com Bergson, com Domingos Monteiro, com José Régio em numerosas numinosas páginas. E escreveu: nunca estamos sós, estamos sempre acompanhados.
Teixeira de Pascoaes deixou a poesia onde conversava consigo próprio, com os deuses, com as sombras e pôs-se a dialogar com os Santos, com os Heróis, com os Sábios.
Leonardo Coimbra privilegia a Relação, a fraternidade das mónadas; explica o mal como o corte das relações.
A comunicação universal dos espíritos e das almas constitui o fim da humanidade, o fim, já se sabe, no sentido aristotélico.
O Pedro Sinde vê os seres que formam a natureza, não cantando, mas eles mesmos como cantos. Não tocam o violino, são o som do violino, mas para quem não dispõe do sentido do ritmo, vê só um corpo de madeira inerte que nem sequer lhe recorda um corpo de mulher.
Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas.»
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 27.4.2008]
Metáfora
«Voltou de novo o prazer de ler o que não compreendo, assim do mesmo modo que gostaríamos de olhar o sol, mas só podemos ver os seus pálidos reflexos nas sombras da nossa alma. O Sol da Inteligência, a Luz da Luz.
O mundo que nos é acessível é o das metáforas. A sabedoria é uma longa paciência e, se não há quem nos obrigue a ‘trabalhar’, ficamos pelos pequenos esforços.
Então, sustidos na ‘beleza sem par da metáfora’ (Bruno) é possível cumprir o preceito iniciático ‘nullus dies sine linea’*. Assim evitamos o caos da alma, a indiferença, a prostração. A medusa que nos olha de dentro é bem mais perigosa do que a que nos olha de fora. Valha-nos Santo Anselmo e Deus que é só quem sabe!»
* Nem um dia sem escrever ou ler uma linha: António Telmo usava este dito continuamente – era uma herança do seu mestre Álvaro Ribeiro – mas no sentido de ‘escrever’.
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 17.1.2009]
Sampaio Bruno escreveu como quem conversa, donde é fácil deduzir de uma angelogia a sua concepção filosófica d’A Ideia de Deus.
Álvaro conversa com Bergson, com Domingos Monteiro, com José Régio em numerosas numinosas páginas. E escreveu: nunca estamos sós, estamos sempre acompanhados.
Teixeira de Pascoaes deixou a poesia onde conversava consigo próprio, com os deuses, com as sombras e pôs-se a dialogar com os Santos, com os Heróis, com os Sábios.
Leonardo Coimbra privilegia a Relação, a fraternidade das mónadas; explica o mal como o corte das relações.
A comunicação universal dos espíritos e das almas constitui o fim da humanidade, o fim, já se sabe, no sentido aristotélico.
O Pedro Sinde vê os seres que formam a natureza, não cantando, mas eles mesmos como cantos. Não tocam o violino, são o som do violino, mas para quem não dispõe do sentido do ritmo, vê só um corpo de madeira inerte que nem sequer lhe recorda um corpo de mulher.
Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas.»
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 27.4.2008]
Metáfora
«Voltou de novo o prazer de ler o que não compreendo, assim do mesmo modo que gostaríamos de olhar o sol, mas só podemos ver os seus pálidos reflexos nas sombras da nossa alma. O Sol da Inteligência, a Luz da Luz.
O mundo que nos é acessível é o das metáforas. A sabedoria é uma longa paciência e, se não há quem nos obrigue a ‘trabalhar’, ficamos pelos pequenos esforços.
Então, sustidos na ‘beleza sem par da metáfora’ (Bruno) é possível cumprir o preceito iniciático ‘nullus dies sine linea’*. Assim evitamos o caos da alma, a indiferença, a prostração. A medusa que nos olha de dentro é bem mais perigosa do que a que nos olha de fora. Valha-nos Santo Anselmo e Deus que é só quem sabe!»
* Nem um dia sem escrever ou ler uma linha: António Telmo usava este dito continuamente – era uma herança do seu mestre Álvaro Ribeiro – mas no sentido de ‘escrever’.
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 17.1.2009]
quinta-feira, 3 de março de 2011
SHIBLÍ E O CACHORRO
Perguntaram a Shiblí: "quem foi o primeiro a guiar teus passos no caminho do umbral divino?"
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água morrendo de sede. Quando mirava a superfície da água, via seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de outro animal; diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a paciência; de um salto se jogou na água, e no mesmo instante, o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos, se esfumou entre ele e seu desejo, aquele obstáculo que não era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava diante de mim; sem dúvida alguma, quem foi assim aniquilado não foi outro senão meu eu. Desta maneira fui salvo; meu primeiro guia no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo que te impede avançar é o teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus pés. Se sentes a necessidade constante de Sua presença embriagadora, nunca voltes a ti. Esse é todo o vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an, XXIV, 35).
( Farid ud-Din Attar, O Livro divino)
Certo dia em que Moisés dialogava com Alláh, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe dizia: "Oh Moisés! Protege àquele que procura refúgio!" Ele saiu de sua contemplação e percebeu uma pomba que gritava: "Socorro! Moisés, socorro!" Moisés abriu sua manga e nela a pomba enfiou-se. Pouco depois, apareceu uma águia que lhe disse: "Tu encerras na manga algo que me pertence, dê-me o!" "Allah me ordenou abrigar àqueles que procuram refúgio", justificou-se Moisés, inclinando-se sobre sua coxa para cortar um pedaço dela e lhe dar. "Não sabes que a carne dos profetas me está proibida e que eu prometi não comê-la?" disse a águia. A águia elevou-se e pos-se a voar ao redor da cabeça de Moisés. "Deixe-me partir!" pediu a pomba. "Mas a águia está aqui, ver-te-á e pegar-te-á!" "Aquele que deu sua palavra não a tomará de volta e assim saberá mantê-la" disse-lhe a pomba. Moisés libertou a pomba. As duas aves juntaram-se e ficaram girando ao seu redor. Uma voz disse: "A águia é Gabriel, e a pomba, Miguel. Eles vieram ver se sabes manter tua palavra".
Abûl'-Hasan Khraqânî, "Nûr al-'ulûm" (A Luz das Ciências)
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água morrendo de sede. Quando mirava a superfície da água, via seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de outro animal; diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a paciência; de um salto se jogou na água, e no mesmo instante, o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos, se esfumou entre ele e seu desejo, aquele obstáculo que não era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava diante de mim; sem dúvida alguma, quem foi assim aniquilado não foi outro senão meu eu. Desta maneira fui salvo; meu primeiro guia no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo que te impede avançar é o teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus pés. Se sentes a necessidade constante de Sua presença embriagadora, nunca voltes a ti. Esse é todo o vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an, XXIV, 35).
( Farid ud-Din Attar, O Livro divino)
Certo dia em que Moisés dialogava com Alláh, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe dizia: "Oh Moisés! Protege àquele que procura refúgio!" Ele saiu de sua contemplação e percebeu uma pomba que gritava: "Socorro! Moisés, socorro!" Moisés abriu sua manga e nela a pomba enfiou-se. Pouco depois, apareceu uma águia que lhe disse: "Tu encerras na manga algo que me pertence, dê-me o!" "Allah me ordenou abrigar àqueles que procuram refúgio", justificou-se Moisés, inclinando-se sobre sua coxa para cortar um pedaço dela e lhe dar. "Não sabes que a carne dos profetas me está proibida e que eu prometi não comê-la?" disse a águia. A águia elevou-se e pos-se a voar ao redor da cabeça de Moisés. "Deixe-me partir!" pediu a pomba. "Mas a águia está aqui, ver-te-á e pegar-te-á!" "Aquele que deu sua palavra não a tomará de volta e assim saberá mantê-la" disse-lhe a pomba. Moisés libertou a pomba. As duas aves juntaram-se e ficaram girando ao seu redor. Uma voz disse: "A águia é Gabriel, e a pomba, Miguel. Eles vieram ver se sabes manter tua palavra".
Abûl'-Hasan Khraqânî, "Nûr al-'ulûm" (A Luz das Ciências)
terça-feira, 1 de março de 2011
Jalal ad-Din Muhammad Rumi
1207 - 1273
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A poesía de Rumi também foi lida no Ocidente durante séculos e lá foram introduzidas referências a ele no trabalho de Ralph Waldo Emerson e Georg Wilhelm Friedrich Hegel e muitos outros eminentes escritores. Mas nos últimos anos a popularidade do seu trabalho tem aumentado numa medida surpreendente.
Rumi nasceu em 1207 na costa leste do Império Persa. Ele nasceu na cidade de Balkh (no que é hoje o Afeganistão), e finalmente resolveu viver na cidade de Konya, no que agora é a Turquia, onde também morreu. Viveu num período de agitação social e política notável. A sua era a época da cruzadas; também a área onde Rumi viveu estava sob constante ameaça de invasão Mongol. As grandes revoluções influenciaram-no durante toda a sua vida , e também influenciaram grande parte de sua poesia.
Na sua poesia Rumi freqüentemente usa imagens que podem ser inesperadas. Por exemplo, embora o Islão proíba álcool, muitas vezes ele descreve a sensação de estar "bêbado e intoxicado como se estivesse em êxtase para com sua amada." Aqui bêbado implica o êxtase da consciência divina.
Contudo as suas palavras são inspiradoras e sinalizadoras do que aponta para o divino.
«Masnavi»
Jalal ad-Din Muhammad Rumi
(Poeta Sufi, s. XIII)
Vem, vem, seja você que for,
não importa se você é um infiel, um idólatra,
ou um adorador do fogo,
Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero
Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,
vem assim mesmo.
Comentário -
Artur Alonso.-
A poesia sufi... aproxima-nos ao principio do ser, à essência primeira do homem como espírito... à procura da paz e harmonia no interior de cada ser...
Por isso os sufis são conscientes de que muitos são os caminhos... pelos quais se pode penetrar no mistério da vida, do ser, da humana presença.
IBN ARABÎ
«Aberto a todas as formas»
Ib'n Arabi
(Poeta Sufi, s. XII)
Meu coração está aberto a todas as formas:
é uma pastagem para as gazelas,
é um claustro para os monges cristãos,
um templo para os ídolos
a Caaba do peregrino,
as Tábuas da Torá,
e o livro do Alcorão
Professo a religião do amor,
e qualquer direção que avancem seus caminhos;
a direção do Amor
será minha religião e minha fé.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Lourenço Marques Revisited
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
ALBERTO DE LACERDA pintura de Rui Filipe-1962
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
ALBERTO DE LACERDA pintura de Rui Filipe-1962
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
os Mestres
O principal para ti é prestares atenção a todo o momento, estar atento ao que chega à tua mente e ao teu coração. Reflete sobre estes pensamentos e sentimentos. Analisa-os. Tenta controlá-los. Tenha cuidado com os desejos do teu ego, salda tuas dívidas para com ele.
Tem consciência, vergonha frente a Deus. Ele será um bom motivo para estares prudente, vigilante. Te preocuparás, então, pelo que estás fazendo, dizendo e pensando, e os pensamentos e sentimentos que sejam feios aos olhos de Deus não poderão assentar-se em teu coração. Teu coração estará assim a salvo de desejar ações que não estejam de acordo com a vontade de Deus. Valoriza teu tempo, vive o presente. Não vivas imaginariamente, ou gastes mal o tempo de que dispões. Deus prescreveu um dever, um acto, um culto para cada momento. Aprende qual é e apressa-te para fazê-lo. Primeiro leva a cabo as ações que Ele estabeleceu como obrigatórias. Logo, realiza o que mandou fazer por meio do exemplo do seu Profeta. Depois, faz também as acções boas e aceitáveis que Ele deixou para tua livre decisão. Trabalha para servir aos que estejam necessitados. Tudo quanto faças, faça-o com o propósito de te aproximares de teu Senhor em teus actos de adoração e nas orações. Pensa que cada ação pode ser teu último acto, que cada oração pode ser tua última prostação, que pode ser que não tenhas outra oportunidade. Se o fazes assim, terás um novo motivo para manter-te vigilante e, também, para chegar a ser sincero e verdadeiro. Deus valoriza menos as boas acções feitas inconscientemente e sem sinceridade, que as realizadas consciente e sinceramente.
IBN ARABÎ
poemas de Rumi

Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?
Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!
Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há-de ser o céu.
Não durmas,
senta-te com teus pares.
A escuridão oculta a água da vida.
Não te apresses, vasculha o escuro.
Os viajantes nocturnos estão plenos de luz;
não te afastes pois da companhia de teus pares.
Faltam-te pés para viajar?
Viaja dentro de ti mesmo,
e reflecte, como a mina de rubis,
os raios de sol para fora de ti.
A viagem conduzirá a teu ser,
transmutará teu pó em ouro puro.
- Vem ao jardim na primavera, disseste.
- Aqui estão todas as belezas, o vinho e a luz.
Que posso fazer com tudo isso sem ti?
E, se estás aqui, para que preciso disso?
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
"Antas e Menires" - J. Alexandre Cotta
Segundo os historiadores os Menires e as Antas ou Dólmenes são construções do período neolítico e calcolítico. O Menir é um megálito (pedra grande), uma coluna erguida em direcção ao céu. A Anta é igualmente urna construção megalítica formada por pedras colocadas na vertical, formando urna câmara circular, sobre a qual assenta uma laje. Baseados no que foi encontrado, os arqueólogos referem que as Antas eram monumentos funerários. Quanto aos Menires não há grande informação sobre para que serviam, admitindo-se estarem relacionados com o simbolismo da vitalidade devido à sua forma fálica e à fecundidade da terra.
Com o intuito de os estudar sob o ponto de vista das suas características energéticas e de localização, desloquei-me recentemente ao Alentejo com os nossos amigos Paulo Alexandre Loução e Ana Isabel Vieira, investigadores das profundas raízes lusitanas. Paulo Loução é o autor dos livros Os Templários na Formação de Portugal, Portugal Terra de Mistérios, A Descoberta do Brasil, A Viagem de Vasco da Gama e O Espírito dos Descobrimentos Portugueses da Editora Ésquilo de que a todos vivamente recomendo a leitura. No seu mais recente livro intitulado A Alma Secreta de Portugal há um capítulo, ilustrado, dedicado à pesquisa que efectuamos.
Interessa-nos fundamentalmente verificar se os Menires e as Antas apresentam características semelhantes, principalmente no que diz respeito à sua localização em relação a: cursos de água subterrânea, rede global (Hartmann), rede diagonal (Curry), equilíbrio cosmo-telúrico, vórtices, polaridades, taxas vibratórias, raios fundamentais e outros critérios de análise.
Sinto que estas construções eram, e em alguns casos ainda são, multi-funcionais, a diferentes níveis. Fundamento-me no que consigo detectar através da pesquisa radiestésica. Assim, em minha opinião, quer as Antas quer os Menires destinar-se-iam a ser:
- Locais de iniciação coletiva relacionadas com a preparação para a vida e para a morte em ambientes de perfeito equilíbrio cosmo-telúrico.
- Locais de encontro, de populações dispersas, de acordo com os ciclos de sementeira, colheita, reprodução ou das fases da Lua, eclipses, e outros fenómenos astronómicos.
- Locais favoráveis, à domesticação e crescimento de animais, à caça ou ao crescimento de plantas alimentares e medicinais.
- Como refere a arqueo-astronomia, também conhecida por astro-arqueologia, não é de afastar a possibilidade das suas localizações (dentro de certas áreas) reflectirem no solo as estrelas que formam constelações no céu.
Especificamente, as Antas destinar-se-iam a ser:
- Locais rituais de "passagem", portas ou telas que separam a vida da morte. Poderiam perfeitamente ser lugares de morte "assistida" bem como de nascimento fisico (partos) pela sua configuração protectora, circular, em que na parte central encontramos espaços completamente livres de factores perturbadores. Detectamos a presença de verde negativo, uma fortíssima frequência que, como factor isolado (o que não é o caso da anta) pode provocar efeitos muito nefastos a nível celular.
- Indicadores, através dos seus eixos cardeais, da posição precisa do Sol e/ou da Lua em Equinócios e/ou Solstícios.
- Locais de culto à Mãe Natureza, relacionados com o elemento água. A própria confluência de vários veios de água subterrânea (que contornam mas não atravessam a anta) num ponto à frente da sua entrada, podia servir como fonte de abastecimento de água principalmente quando os veios se encontram a pequena profundidade.
Especificamente, os Menires destinar-se-iam a ser:
- Como que sinalizadores de lugares sagrados. As elevadas taxas vibratórias assim o indicam.
- Sob o ponto de vista involutivo: fixadores de consciência para aceleração da penetração do espírito na matéria com o consequente aumento de sensibilidade.
- Sob o ponto de vista evolutivo: intensificadores de percepção psíquica para resolução de necessidades colectivas.
- Locais relacionados com a agricultura, com o gado e com o elemento terra. Os Menires são antenas emissoras que desenvolvem uma acção contínua e vitalizante sobre o meio ambiente. Ao contrário das Antas, os Menires concentram em si vários factores como veios de água subterrânea e cruzamentos das redes. Por força dessa concentração, as malhas das redes Hartmann e Curry são aí menores que o normal. No menir que estudamos foi possível verificar que o mesmo se encontra a cerca de um metro do ponto de confluência dos factores, ou seja do seu local original. Concluímos que quando foi levantado em 1964 deve ter sofrido um deslizarnento que apesar de pequeno é importante uma vez que reduz todo o seu potencial.
Portugal tem, dentro da Península Ibérica, uma quantidade de antas e menires muito importantes. Com a excepção nítida da Galiza e algumas faixas costeiras de Espanha (a norte e a sul) eles cobrem a totalidade do território nacional. Dir-se-ia que os limites de Portugal há muito já estavam marcados por essas construções!
É para nós dificil imaginar que os construtores das Antas e Menires tenham sido os homens primitivos a que normalmente se associa o período neolítico. Estas construções revelam precisamente o contrário. Embora sejam estruturas arquitectónicas simples, mas variadas, os locais onde foram levantados mostram um padrão constante e elaborado que não pode ser obra do acaso. Quem os edificou tinha necessariamente conhecimentos que hoje se ignoram. Então a questão que se coloca é: ou essas construções são muito mais antigas do alguma vez foi imaginado ou teremos de rever conceitos da pré-história dados como adquiridos.
A possibilidade do equívoco histórico foi bem caracterizada por lbrahim Karim. Diz ele que se a humanidade daqui a 10.000 anos desconhecer o que seja a electricidade (porque entretanto foram descobertas outras formas de energia e a electricidade abandonada), os arqueólogos da altura dirão que por volta do século XX D. C. havia deuses comuns em toda a Terra, que a humanidade adorava em suas casas e cujos nomes mais conhecidos eram: Sony, Grundig Panasonic e Philips...
Christopher Bird e Peter Tompkins autores do livro The Secret Life of Plants mostram que certas experiências com plantas só se verificam se o experimentador se encontrar em determinados estados psíquico/emocionais. Recentes experiências na área da Física Quântica vão no mesmo sentido. O que é isto quer dizer? No que se refere às Antas, Menires, Cromeleques (agrupamentos de menires dispostos em círculo) e Alinhamentos (grupo de menires organizados em linha recta) o estado em que nos encontramos é determinante, ou seja, se nesses monumentos só sentirmos que estamos diante de um conjunto de pedras, então elas reagirão em conformidade: serão somente pedras, tão "brutas" e fechadas quanto os observadores. Se, no entanto, interagirmos com elas, com respeito e consideração (semelhante ao que os xamãs de todo o mundo têm para com a natureza e o que consideram sagrado) então essas mesmas pedras começam a "falar", a revelar os seus segredos e inclusive a ajudar-nos, se para tal forem solicitadas (cumprindo, naturalmente, uma das funções para que foram construídas).
Bill Cox, quando esteve em Portugal em 2001, referiu-nos a possibilidade de, através da Psicometria, poderem ser lidas impressões sobre contecimentos passados que estão gravadas em objectos e pedras. Como é possível? De um lado temos a capacidade de registo do silício (que utilizamos todos os dias nos computadores, relógios ou chips dos cartões bancários). Do outro lado está a sensibilidade do operador. Porque contêm silício, as pedras são como que gigantescas bases de dados que registam tudo o que presenciaram ao longo do tempo. Podemos dizer que uma nova ciência está a surgir através do desenvolvimento da sensibilidade psíquica. Também aqui a Radiestesia dá o seu contributo.
Vimos em antas e menires sinais de violação (grafites e restos de rituais de magia) mas também tivemos oportunidade de ver autênticos santuários naturais, felizmente protegidos e "invisíveis" aos olhos do materialismo actual. Tal como na lenda, o Galo, apesar de degolado, continua a cantar, anunciando a aurora...
Porque será que tantas igrejas antigas foram edificadas em lugares megalíticos?
Como bem observou o Paulo Loução, que ligação poderá haver entre os Menires e os Pelourinhos? Ou os Obeliscos? pergunto eu.
Se há quem, actualmente, utilize pequenos menires para funções de harmonização ambiental, será ambição exagerada fazermos o mesmo para esse e outros fms? Se há quem, há muito, utilize a Radiestesia na pesquisa arqueológica, será demasiada ousadia tentarmos o mesmo em Portugal?
extraído de J. ALEXANDRE COTTA
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
O bestiário do livro do Apocalipse de Lorvão
«Naturalmente que, ao longo de toda a história, os emblemas, os símbolos, tiveram, e continuam a ter, uma importância e uma força impressionantes, aos mais diversos níveis da vida dos homens e da sociedade, podendo mesmo considerar-se como formas que as mais diversas ortodoxias foram e vão usando sobretudo como meios de poder.
Os livros são, na Idade Média, o meio por excelência do saber. Daí a importância das livrarias e bibliotecas, numa ciência que é antes de mais de base livresca e onde é notória a estreita ligação entre o o saber e o poder. As mais importantes livrarias situam-se nas três bibliotecas dos mosteiros de Lorvão, Santa Maria de Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra. De modo geral, o acto de leitura na Idade Média era entendido quase como um acto litúrgico, eivado de um sentimento de grande intimidade entre o leitor e o livro.»
Maria Celeste Natário em Itinerários do Pensamento Filosófico Português.
Um dos mais belos tesouros do Portugal medievo é o livro do Apocalipse do Lorvão, assim chamado dada, a sua proveniência, a biblioteca do mosteiro de S. Mamede do Lorvão. Conservada hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, para onde foi levada por Alexandre Herculano, ela representa uma das principais e mais antigas obras medievais portuguesas que sobreviveram até aos nossos dias.
Datado de meados do século XII, o Apocalipse do Lorvão assume-se com a magnus opus do Portugal românico, percebendo-se ainda algumas influências artísticas de natureza moçárabes. As suas iluminuras, realçadas pelas suas três cores vivas, o vermelho, laranja, e amarelo, conjugadas com o branco que surge como uma quarta cor, moldam e acentuam o impacto visual do texto de S. João, marcado pelas suas visões apocalípticas.
Um dos mais interessantes olhares sobre o Apocalipse do Lorvão passa pela análise do seu bestiário. As bestas que povoam o imaginário das suas iluminuras reflectem mais do que a mensagem bíblica, transmitida por S. João. Elas ilustram o imaginário fantástico do homem medieval, dando a conhecer alguns dos seus maiores medos. Resolvemos por isso seleccionar uma das iluminuras que constituem o chamado bestiário de Lorvão, publicando-a aqui de forma a dar a conhecer um pouco melhor a mundividência dos homens que um dia fundaram Portugal.
Os livros são, na Idade Média, o meio por excelência do saber. Daí a importância das livrarias e bibliotecas, numa ciência que é antes de mais de base livresca e onde é notória a estreita ligação entre o o saber e o poder. As mais importantes livrarias situam-se nas três bibliotecas dos mosteiros de Lorvão, Santa Maria de Alcobaça e Santa Cruz de Coimbra. De modo geral, o acto de leitura na Idade Média era entendido quase como um acto litúrgico, eivado de um sentimento de grande intimidade entre o leitor e o livro.»
Maria Celeste Natário em Itinerários do Pensamento Filosófico Português.
Um dos mais belos tesouros do Portugal medievo é o livro do Apocalipse do Lorvão, assim chamado dada, a sua proveniência, a biblioteca do mosteiro de S. Mamede do Lorvão. Conservada hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, para onde foi levada por Alexandre Herculano, ela representa uma das principais e mais antigas obras medievais portuguesas que sobreviveram até aos nossos dias.
Datado de meados do século XII, o Apocalipse do Lorvão assume-se com a magnus opus do Portugal românico, percebendo-se ainda algumas influências artísticas de natureza moçárabes. As suas iluminuras, realçadas pelas suas três cores vivas, o vermelho, laranja, e amarelo, conjugadas com o branco que surge como uma quarta cor, moldam e acentuam o impacto visual do texto de S. João, marcado pelas suas visões apocalípticas.
Um dos mais interessantes olhares sobre o Apocalipse do Lorvão passa pela análise do seu bestiário. As bestas que povoam o imaginário das suas iluminuras reflectem mais do que a mensagem bíblica, transmitida por S. João. Elas ilustram o imaginário fantástico do homem medieval, dando a conhecer alguns dos seus maiores medos. Resolvemos por isso seleccionar uma das iluminuras que constituem o chamado bestiário de Lorvão, publicando-a aqui de forma a dar a conhecer um pouco melhor a mundividência dos homens que um dia fundaram Portugal.
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