terça-feira, 16 de agosto de 2011
o caminho
O caminho bíblico parece ser claro e objetivo:
2 Pastoreai o rebanho de Deus que está entre vós, cuidando dele não por obrigação, mas espontaneamente, segundo a vontade de Deus; nem por interesse em ganho ilícito, mas de boa vontade; 3 nem como dominadores dos que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho. 4 Quando o Supremo Pastor se manifestar, recebereis a imperecível coroa da glória.
poema
Nesta terra/
sou, viajo e habito./
O corpo o dou ao pó/
e a alma à passagem./
Que o espírito/
é lume só/
e viva aragem.
A árvore de Jessé (JBL)
quinta-feira, 28 de julho de 2011
quinta-feira, 14 de julho de 2011
Pensamento ... com Clarice Lispector
Serei leve e vaga, como o que se sente e não se entende..."
“... não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante: sempre fundido, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.”
(Clarice Lispector - Coração selvagem)
quarta-feira, 6 de julho de 2011
O rei astuto e os dois pintores -
PEQUENO CONTO DO RABINO NACHMAN DE BRATSLAV UCRÂNIA (1772-1810)
Numa terra distante, há muitos anos, um rei mandou construir o mais belo palácio de que havia memória. Quando ficou pronto, o rei quis decorar as paredes dos salões com pinturas das paisagens do seu reino. Havia naquele tempo e naquelas paragens dois pintores famosos muito apreciados pelo seu talento. Sem saber como escolher entre os dois, o rei chamou-os a ambos e desafiou-os a pintar cada um uma parede de um dos imensos corredores do palácio. Entre eles, o rei mandou colocar uma pesada cortina, que os impedia de ver o trabalho do outro.
Aos dois disse o rei: “Têm três meses para pintar uma paisagem na parede. Nessa altura escolherei a pintura que mais gostar; o seu autor será convidado para decorar o resto das paredes do palácio e receberá uma sacola cheia de ouro e jóias.”
Um dos artistas, talentoso e trabalhador, tinha tudo preparado e começou de imediato a pintar. Praticamente não dormia e pouco comia dos manjares que os criados do rei lhe traziam. A pintura ocupava todos os seus pensamentos e gestos.
O outro era bastante preguiçoso. Todos os dias acordava tarde e passava o resto do dia refastelado, bebendo dos melhores vinhos das adegas do rei e comendo o que de melhor lhe serviam. Tudo sem levantar o pincel uma única vez. Quando ouvia o colega trabalhar, ria desabridamente: “Que tolo, está no palácio e nem sabe gozar o luxo”, dizia ele entredentes.
Os dias e meses foram passando. Um pintava dia e noite. O outro nada fazia. Até que faltaram apenas três dias para que terminasse o prazo dado pelo rei e o pintor preguiçoso acordou a meio da noite encharcado em suor: “Não fiz trabalho nenhum… o rei vai-me castigar com toda a certeza.” Aflito, o pintor não comeu nem dormiu. Dois dias passaram sem que ele conseguisse pensar num plano. Até que, finalmente, na véspera da chegada do rei, teve uma ideia. Pegou numa lata de óleo negro e pintou a parede inteira até que esta ficou brilhante como um espelho.
Na manhã seguinte o rei veio inspeccionar o trabalho dos dois pintores acompanhado por membros da corte. Virando-se para a primeira metade do corredor, o rei ficou maravilhado com o trabalho do pintor esforçado. Em cores vibrantes, o artista retratara fielmente a paisagem que envolvia o palácio. “Nunca vi nada tão perfeito. Aqueles pássaros, que beleza, quase que os oiço chilrear. E as flores… só lhes falta o aroma”, disse o rei, maravilhado.
Depois de alguns minutos passados na contemplação da pintura, o rei ordenou que fosse retirada a cortina, para que pudesse ver o que fizera o outro pintor. Para espanto de todos, a segunda parede era exactamente igual à primeira. Uma cópia perfeita, com todos os traços e pinceladas. Ali estavam as mesmas árvores, os mesmos pássaros chilreantes e os mesmos canteiros floridos. “Como é isto possível?”, interrogavam-se entre si os membros da corte.
Mas o rei não se deixara enganar com a mesma facilidade. Sem pensar duas vezes, o rei pegou na prometida sacola de ouro e jóias e colocou-a junto à parede verdadeiramente pintada. Outra sacola idêntica apareceu de pronto no outro lado, fazendo com que todos percebesse que se tratava de um simples reflexo.
Então o rei declarou solenemente: “Cada um de vós receberá o pagamento que merece. Vá, aproximem-se das vossas obras e que cada um recolha a recompensa posta ao lado da respectiva pintura.”
E assim foi.
Publicado no livro: Kokhavey Or (Estrelas de Luz), editado em Jerusalém, em 1896.
Numa terra distante, há muitos anos, um rei mandou construir o mais belo palácio de que havia memória. Quando ficou pronto, o rei quis decorar as paredes dos salões com pinturas das paisagens do seu reino. Havia naquele tempo e naquelas paragens dois pintores famosos muito apreciados pelo seu talento. Sem saber como escolher entre os dois, o rei chamou-os a ambos e desafiou-os a pintar cada um uma parede de um dos imensos corredores do palácio. Entre eles, o rei mandou colocar uma pesada cortina, que os impedia de ver o trabalho do outro.
Aos dois disse o rei: “Têm três meses para pintar uma paisagem na parede. Nessa altura escolherei a pintura que mais gostar; o seu autor será convidado para decorar o resto das paredes do palácio e receberá uma sacola cheia de ouro e jóias.”
Um dos artistas, talentoso e trabalhador, tinha tudo preparado e começou de imediato a pintar. Praticamente não dormia e pouco comia dos manjares que os criados do rei lhe traziam. A pintura ocupava todos os seus pensamentos e gestos.
O outro era bastante preguiçoso. Todos os dias acordava tarde e passava o resto do dia refastelado, bebendo dos melhores vinhos das adegas do rei e comendo o que de melhor lhe serviam. Tudo sem levantar o pincel uma única vez. Quando ouvia o colega trabalhar, ria desabridamente: “Que tolo, está no palácio e nem sabe gozar o luxo”, dizia ele entredentes.
Os dias e meses foram passando. Um pintava dia e noite. O outro nada fazia. Até que faltaram apenas três dias para que terminasse o prazo dado pelo rei e o pintor preguiçoso acordou a meio da noite encharcado em suor: “Não fiz trabalho nenhum… o rei vai-me castigar com toda a certeza.” Aflito, o pintor não comeu nem dormiu. Dois dias passaram sem que ele conseguisse pensar num plano. Até que, finalmente, na véspera da chegada do rei, teve uma ideia. Pegou numa lata de óleo negro e pintou a parede inteira até que esta ficou brilhante como um espelho.
Na manhã seguinte o rei veio inspeccionar o trabalho dos dois pintores acompanhado por membros da corte. Virando-se para a primeira metade do corredor, o rei ficou maravilhado com o trabalho do pintor esforçado. Em cores vibrantes, o artista retratara fielmente a paisagem que envolvia o palácio. “Nunca vi nada tão perfeito. Aqueles pássaros, que beleza, quase que os oiço chilrear. E as flores… só lhes falta o aroma”, disse o rei, maravilhado.
Depois de alguns minutos passados na contemplação da pintura, o rei ordenou que fosse retirada a cortina, para que pudesse ver o que fizera o outro pintor. Para espanto de todos, a segunda parede era exactamente igual à primeira. Uma cópia perfeita, com todos os traços e pinceladas. Ali estavam as mesmas árvores, os mesmos pássaros chilreantes e os mesmos canteiros floridos. “Como é isto possível?”, interrogavam-se entre si os membros da corte.
Mas o rei não se deixara enganar com a mesma facilidade. Sem pensar duas vezes, o rei pegou na prometida sacola de ouro e jóias e colocou-a junto à parede verdadeiramente pintada. Outra sacola idêntica apareceu de pronto no outro lado, fazendo com que todos percebesse que se tratava de um simples reflexo.
Então o rei declarou solenemente: “Cada um de vós receberá o pagamento que merece. Vá, aproximem-se das vossas obras e que cada um recolha a recompensa posta ao lado da respectiva pintura.”
E assim foi.
Publicado no livro: Kokhavey Or (Estrelas de Luz), editado em Jerusalém, em 1896.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
Ando à procura de espaço...
para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida...
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
projeto-me num abraço
e gero uma despedida.
Se volto sobre o meu passo,
é já distância perdida.
Meu coração, coisa de aço,
começa a achar um cansaço,
por esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
- saudosa do que não faço,
- do que faço, arrependida
CECÍLIA MEIRELES
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011123º aniversário de Fernando Pessoa celebrado pelo Google
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011123º aniversário de Fernando Pessoa celebrado pelo Google
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Doodle evocativo do 123º aniversário de Fernando Pessoa utilizado pelo motor
de busca Google.
Publicado por Nova Casa Portuguesa a 13.6.11
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Segunda-feira, 13 de Junho de 2011123º aniversário de Fernando Pessoa celebrado pelo Google
Comemora-se hoje os 123 anos do nascimento de Fernando Pessoa. Nascido na cidade de Lisboa a 13 de Junho de 1888, Pessoa foi um dos mais importantes e icónicos vultos da cultura portuguesa, pelo que a empresa norte-americana Google resolveu homenagear esse grande embaixador da língua de Camões, adaptando o seu logótipo ao seu famoso retrato, sentado à mesa do café escrevendo junto de um exemplar da revista Orpheu, pintado pelo mestre José de Almada Negreiros.
Doodle evocativo do 123º aniversário de Fernando Pessoa utilizado pelo motor
de busca Google.
Publicado por Nova Casa Portuguesa a 13.6.11
quinta-feira, 2 de junho de 2011
SOBRE OS CONTOS DE FADAS
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»
A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)
Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.
Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»
Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».
Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».
Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”
António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, s.d., pág 100
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
“Um dos autores que mais exaustivamente estudou estes problemas, Mircea Eliade [em Aspects do Mythe, cap. «Les mythes et les contes de fées»], considera que as versões populares dos contos maravilhosos, não são na realidade dessacralizantes. Tratam-se de «versões camufladas», que mantém os motivos míticos e iniciáticos arcaicos, muito embora disfarçando-os, mascarando-os, conservando as suas verdades profanas, mas ocultadas em vestes enganadoras.
Esta «camuflagem» foi necessária devido à aparição ou à preponderância de novas religiões, nomeadamente do cristianismo, cioso da sua ortodoxia ou do seu catecismo. Realizou-se, aliás, de forma inconsciente, lentamente (e daí as sucessivas versões). O mitema, sublinhamos por nossa parte, enriqueceu-se, aliás, com os novos motivos do espírito cavaleiresco e cristão, produzindo-se uma síntese que nos transmite como que a memória da humanidade. Naturalmente pedagógica é esta transmissão gratuita e aliciante de um milenária sabedoria, caldeada de perdidas experiências ou de esquecidas revelações, vozes, descobertas, imagens simbólicas.
«Se os deuses não intervêm nos contos de fadas sob os seus próprios nomes», escreve Mircea Eliade, «os seus perfis distinguem-se ainda nas figuras dos protectores, dos adversários e dos companheiros dos heróis. Estão ‘camuflados’ ou, se quiserem, decaídos, mas continuam a desempenhar a sua função.»
A função a que se refere Eliade é rigorosamente iniciática, é constituída por uma série de provas que o protagonista deve vencer, e que o leitor ou o ouvinte acompanha simbolicamente, interiorizando-as. Função de extraordinária influência formativa sobre as crianças porque a transmissão penetra no psiquismo infantil por via inconsciente, unindo-se à disposição aperceptiva ou intuitiva da alma e despertando esse estrato enigmático a que C. G. Jung chamou inconsciente colectivo ou arcaico.
(…)
Sem dar por isso, o homem beneficia dessa iniciação imaginária, conservada nos contos de fadas, esta simbólica «passagem da nesciência da imaturidade à idade espiritual do adulto». O alcance pedagógico e até analógico do conto maravilhoso é pois diríamos que infinito - porque não se lhe pode opor um limite.
Álvaro Ribeiro foi o pensador que, entre nós, melhor e mais profundamente se apercebeu de tal alcance, em termos de difícil superação. Escreveu o filósofo (em A Razão Animada) que na educação das crianças «a imaginação deve preceder a intelecção». E logo a seguir: «A faculdade fabulatriz da alma da criança exerce-se pela produção de imagens fantasiosas, de vivências que se tornam narrativas para serem ludicamente representadas ou agidas.» Tal faculdade deve ser estimulada. «A cultura da imaginação é um factor psicoterápico muito indicado contra o medo, a agressividade e a vingança e portanto um nobre processo de promover nas crianças a maturidade emocional.»
Infelizmente, «a didáctica positivista, eliminando a imaginação tem por efeito inibir as formas de intelecção mais apropriadas ao estudo das humanidades, porque o adolescente sem abertura de alma para o fantástico, o prodigioso e o milagroso dificilmente realizará compreensão simpática da mentalidade dos outros povos, e mais dificilmente entenderá a gradativa alteração das culturas ao longo da história. A motivação dos actos humanos parecer-lhe-á em muito casos absurda, inverosímil, invenção de escritor, apenas porque não cabe nos quadros rígidos da antropologia positivista».
Para Álvaro Ribeiro, enfim, «o conto caracteriza-se pela presença colaborante ou neutralizante de seres sobrenaturais». E mesmo que os autores se vejam obrigados, ao escrever para adultos, a excluir «da narrativa literária o elemento mitológico, representado pelos anjos, pelas musas, pelas fadas, conforme as tradições, ou ainda pelas ideias platónicas, de mais livre curso em filosofia», hão-de «pelo menos aludir ao motor secreto da acção narrada usando de palavras adequadamente escolhidas para representar os conceitos humanos da necessidade, destino ou fado».
Em suma, o valor de todo o conto maravilhoso, «camuflagem» de um mito (Mircea Eliade) ou velada alusão a uma transcendente energia espiritual (Álvaro Ribeiro), é o de uma educação da psique, quer como caminho de maturidade e de saúde mental, quer como estímulo à imaginação, a uma imaginação que abre o acesso para verdades transcendentes à positividade do mundo sensível.”
António Quadros, “Memórias das Origens, Saudades do Futuro”, Publicações Europa-América, s.d., pág 100
terça-feira, 17 de maio de 2011
A origem da Linguagem - Poema de Tito Lucrécio
A Origem da Linguagem
Enfim, o que existe de tão singular
no ser humano, tendo voz e língua fortes,
dar vários nomes às coisas, conforme as várias
sensações, como os mudos animais ou as feras
que costumam rugir com diferentes sons,
quando sentem temor, dor ou tem mais prazer?
Claro que se entende isso com fatos à mostra.
Quando irritado, o cão Molosso freme a mole
gengiva, ostentando assim seus duros dentes.
Um é o som com que a raiva ameaça e vai longe,
outro ao latir: completam tudo com latidos.
Ou quando, branco, tenta lamber os filhotes
lactantes, quando presos pelas patas - tenros,
sadios - fingem matá-los com leves dentadas,
é diverso o ganido com que os afaga;
ou quando late, só, em frente aos portões das casas
ou chora e foge à chuva, o rabo entre as pernas.
E o cavalo? Não tem relinchos diferentes
na flor da idade, entre éguas, a espora a enervá-lo,
tocado pelo Amor alado, aspira à luta
com narinas arfantes, ou quando relincha
por qualquer outra coisa, de um jeito abalado?
Assim, as várias raças de rápidas aves
(a de bico quebra-ossos, a ave de rapina
e o mergulhão, que nutre-se no mar salgado)
quando atacam a presa em busca de alimento,
lançam a cada instante pios diferentes.
Umas mudam seus cantos roucos quando vem
vendaval: as velhas gralhas e o bando
de corvos- dizem- pedem a água da chuva
enquanto cantam entre os ventos e as brisas.
Se as várias sensações levam os animais
a emitir muitas vozes, ainda que mudos,
á ainda mais justo que o homem pudesse
nomear muitas coisas com várias palavras.
Tradução de Mário Domingues
______________________________
Titus Lucretius Carus, ou Tito Lucrécio, nasce em Roma, em 98 a.C.
Sua única obra, o poema A Natureza das Coisas, é considerada, ainda hoje, a maior fonte de conhecimento da doutrina do filósofo grego Epicuro.
Enfim, o que existe de tão singular
no ser humano, tendo voz e língua fortes,
dar vários nomes às coisas, conforme as várias
sensações, como os mudos animais ou as feras
que costumam rugir com diferentes sons,
quando sentem temor, dor ou tem mais prazer?
Claro que se entende isso com fatos à mostra.
Quando irritado, o cão Molosso freme a mole
gengiva, ostentando assim seus duros dentes.
Um é o som com que a raiva ameaça e vai longe,
outro ao latir: completam tudo com latidos.
Ou quando, branco, tenta lamber os filhotes
lactantes, quando presos pelas patas - tenros,
sadios - fingem matá-los com leves dentadas,
é diverso o ganido com que os afaga;
ou quando late, só, em frente aos portões das casas
ou chora e foge à chuva, o rabo entre as pernas.
E o cavalo? Não tem relinchos diferentes
na flor da idade, entre éguas, a espora a enervá-lo,
tocado pelo Amor alado, aspira à luta
com narinas arfantes, ou quando relincha
por qualquer outra coisa, de um jeito abalado?
Assim, as várias raças de rápidas aves
(a de bico quebra-ossos, a ave de rapina
e o mergulhão, que nutre-se no mar salgado)
quando atacam a presa em busca de alimento,
lançam a cada instante pios diferentes.
Umas mudam seus cantos roucos quando vem
vendaval: as velhas gralhas e o bando
de corvos- dizem- pedem a água da chuva
enquanto cantam entre os ventos e as brisas.
Se as várias sensações levam os animais
a emitir muitas vozes, ainda que mudos,
á ainda mais justo que o homem pudesse
nomear muitas coisas com várias palavras.
Tradução de Mário Domingues
______________________________
Titus Lucretius Carus, ou Tito Lucrécio, nasce em Roma, em 98 a.C.
Sua única obra, o poema A Natureza das Coisas, é considerada, ainda hoje, a maior fonte de conhecimento da doutrina do filósofo grego Epicuro.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
A Festa das Maias
«É curioso o interesse e o sentimento com que quase todos os habitantes desta freguesia, grandes e pequenos, têm em colocar as maias nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos de gago e capoeiras.
Diz a crença popular que as maias, isto é, flores de giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Diz mais: na casa que não tenha maias colocadas ao entrar o mês de Maio, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
Antigamente cantavam-se as Maias como ainda hoje se cantam as Janeiras.
Diz Teófilo Braga, em Epopeias dos Povos Moçárabes, que este velhíssimo costume é o que resta do antiquíssimo culto do Odin (festa nocturna dos espíritos) dos povos do Norte, que Carlos Magno e os concílios católicos abafaram. O povo, porém, conservou vestígios desse antiquíssimo culto do paganismo.»
Joaquim Neves dos Santos em Guifões: notas Arqueológicas, Históricas e Etnográficas.
Gravura alusiva à Festa das Maias.
Disseminada por praticamente todo o território nacional, a velha tradição das maias parece milagrosamente resistir aos ventos do mundo moderno, mesmo no coração dos maiores centros urbanos de Portugal, num raro exemplo perenidade, revelando de que modo um traço cultural e espiritual primordial se pode perpetuar no inconsciente colectivo de um povo.
A origem desde arcano costume perde-se nos alvores da História de um Extremo Ocidente pré-Portugal de costumes bárbaros. Como tantas outras festividades ou celebrações pagãs integradas no nosso imaginário imaterial e espiritual, a Festa das Maias assume variadíssimas formas, demonstrando uma heterogeneidade notável na nossa vivência do mito. Ligadas a cultos ancestrais de fertilidade, as maias, giestas bravas de cor amarelada que abundam sobretudo durante a primavera, foram posteriormente assimiladas pelo cristianismo, graças à virtude da heterodoxia espiritual do Homem Português.
Vemos por isso, na primeira madrugada de Maio, penduradas nas portas e janelas das casas e automóveis as tão famosas plantas, símbolo de favoráveis e fecundos auspícios, mas sobretudo de protecção.
«É curioso o interesse e o sentimento com que quase todos os habitantes desta freguesia, grandes e pequenos, têm em colocar as maias nas suas casas, em todas as portas, janelas e até nos quintais, sementeiras e aidos de gago e capoeiras.
Diz a crença popular que as maias, isto é, flores de giesta, colocadas nas habitações, significam os sinais postos ao longo do caminho para que Nossa Senhora não se enganasse, aquando da sua fuga para o Egipto com o Menino Deus.
Diz mais: na casa que não tenha maias colocadas ao entrar o mês de Maio, o Diabo sujará tudo, além de outros estragos.
Antigamente cantavam-se as Maias como ainda hoje se cantam as Janeiras.
Diz Teófilo Braga, em Epopeias dos Povos Moçárabes, que este velhíssimo costume é o que resta do antiquíssimo culto do Odin (festa nocturna dos espíritos) dos povos do Norte, que Carlos Magno e os concílios católicos abafaram. O povo, porém, conservou vestígios desse antiquíssimo culto do paganismo.»
Joaquim Neves dos Santos em Guifões: notas Arqueológicas, Históricas e Etnográficas.
Gravura alusiva à Festa das Maias.
Disseminada por praticamente todo o território nacional, a velha tradição das maias parece milagrosamente resistir aos ventos do mundo moderno, mesmo no coração dos maiores centros urbanos de Portugal, num raro exemplo perenidade, revelando de que modo um traço cultural e espiritual primordial se pode perpetuar no inconsciente colectivo de um povo.
A origem desde arcano costume perde-se nos alvores da História de um Extremo Ocidente pré-Portugal de costumes bárbaros. Como tantas outras festividades ou celebrações pagãs integradas no nosso imaginário imaterial e espiritual, a Festa das Maias assume variadíssimas formas, demonstrando uma heterogeneidade notável na nossa vivência do mito. Ligadas a cultos ancestrais de fertilidade, as maias, giestas bravas de cor amarelada que abundam sobretudo durante a primavera, foram posteriormente assimiladas pelo cristianismo, graças à virtude da heterodoxia espiritual do Homem Português.
Vemos por isso, na primeira madrugada de Maio, penduradas nas portas e janelas das casas e automóveis as tão famosas plantas, símbolo de favoráveis e fecundos auspícios, mas sobretudo de protecção.
os Templários
Também chamada dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, esta Ordem foi fundada em 12 de junho de 1118 em Jerusalém por Hugo de Payens, Cavaleiro de Burgúndia, e Godofredo de Saint Omer.
Balduíno II, rei de Jerusalém, alojou ambos e a mais sete aderentes seus, perto do Templo de Salomão, originando-se daí a denominação de Templários. Durante nove anos, seus membros dedicaram-se somente a trabalhos sobre o plano metafísico, sem participar nos combates e na política. Seria infantil, para alguns, crer que a Ordem do Templo surgiu para defender Jerusalém, ou para guardar o Santo Sepulcro, ou para proteger os peregrinos. Os historiadores mesmo não acreditam nessa versão, mas são obrigados a se contentarem com as conjecturas, pois não puderam descobrir nenhum documento sobre a Missão Esotérica da Ordem.
São Bernardo de Clairvaux, fundador da Ordem Cirtecense, foi o patrono dos Templários. Ele enviou uma carta a Hugo de Payens pedindo a cooperação da Ordem para reabilitar os "ladrões e sacrílegos, assassinos, perjúrios e adúlteros", porém que estivessem dispostos a se alistar nas fileiras das Cruzadas pela liberação da Terra Santa. Alentado assim por um dos mais influentes de sua época, Hugo de Payens partiu em direção do Concílio de Troyes, na França, para assegurar o reconhecimento de sua Ordem na Europa. Ali sob o patrocínio e protecção de S. Bernardo apresentou a regra da irmandade, que seguia até certo ponto a Regra da Ordem Cirtecense. Mas a carta constitutiva da Ordem, que a estabeleceu definitivamente, só lhe foi outorgada em 1163 pelo Papa Alexandre III.
Em seu período áureo, foi constituída de vários graus. A sua secção mais importante foi a dos Cavaleiros, por sua feição militar. Em sua recepção, juravam observar os três preceitos de pobreza, castidade e obediência, tal qual os membros das demais Ordens da Igreja. Em geral descendentes de alta estirpe, os Cavaleiros tinham direito a três cavalos, a um escudeiro e duas tendas. Aceitavam-se também homens casados, mas sob a condição de legarem à Ordem metade de suas propriedades, e não se admitiam mulheres. Depois vinha um corpo de Clérigos, incluindo Bispos, Padres e Diáconos, sujeitos aos mesmos votos dos Cavaleiros, e que por especial dispensação não rendiam obediência a nenhum superior eclesiástico ou civil, a não ser o Grão-Mestre do Templo e ao Papa. Instituiu-se que as confissões dos irmãos da Ordem deviam ser ouvidas somente por clérigos especiais, e assim permaneciam invioláveis os seus segredos. Também havia duas classes de Irmãos Servidores, os criados e os artífices. A hierarquia administrativa da Ordem era formada pelo Grão-Mestre, o Senescal do Templo, o Marechal como autoridade suprema em assuntos militares, e os Comendadores sob cuja direcção estavam as Províncias.
A influência dos Templários cresceu rapidamente. Combateram valentemente em várias Cruzadas, e a mercê dos bens tomados de seus inimigos vencidos, ou doados à Ordem, chegaram a ser grandes financeiros e banqueiros internacionais, cujas riquezas tiveram o seu apogeu em meados do século treze. Os reis da Europa depositavam seus tesouros e riquezas nas arcas dos Templários e, no que não era incomum ocorrer, pediam até mesmo empréstimos a Ordem.
Seu papel preponderante na Igreja se pode avaliar pelo facto de os membros da Ordem serem convocados para participar dos Grandes Concílios da Igreja, tal como o de Latrão em 1215 e o de Lyon em 1274. Assim, não há dúvida que essa Ordem foi um dos repositórios da Sabedoria Oculta na Europa, durante os séculos doze e treze, porém seus segredos eram transmitidos tão-só a alguns de seus membros selecionados. Em sua secção religiosa, as cerimônias de recepção eram executadas sob estrito sigilo, e daí, naturalmente, a razão de lhe haverem os leigos atribuído as mais horríveis práticas e histórias infundadas.
Depois da tomada de Jerusalém pêlos Sarracenos (Muçulmanos que, inclusive, nos períodos de trégua, negociavam com os Templários, pois acreditavam ser prudente ter algum dinheiro invertido com os cristãos para o caso de que os avatares da guerra pudessem terminar em alguma espécie de pacto com os europeus ) em 1291, adveio a queda do Reino Latino; o quartel-general da Ordem foi transferido da Cidade Santa para Chipre, e Paris passou à categoria de seu principal centro na Europa. Por certo que esta derrota das Cruzadas, em que o túmulo de Cristo caiu nas mãos dos "infiéis", abalou a posição dos Templários, como das demais ordens militares, mas ninguém poderia prever o seu fim brusco e trágico. Conservando-se ainda poderosamente rica, credora do Papa e da corte da França, suas posses passaram a ser avidamente cobiçadas. Felipe IV, o Belo, necessitava prementemente de dinheiro e depois de haver confiscado os haveres dos banqueiros lombardos e judeus e tê-los expulso do país, volveu suas gulosas vistas para os Templários. Como o Papa Clemente V devia sua posição em Avinhão às intrigas do rei, foi fácil a sua aquiescência. Essa macabra tarefa foi muito ajudada pelo ex-cavaleiro Esquieu de Floyran, o qual, pessoalmente interessado na desmoralização da Ordem, contra ela levantou as mais duvidosas acusações. Essas acusações foram sofregamente aceitas por Felipe IV, que, numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, mandou prender todos os Templários da França e o seu Grão-Mestre, Jacques DeMolay, os quais, submetidos à Inquisição, foram por esta acusados de hereges. Por meio de inomináveis torturas físicas, infligidas a ferro e fogo, foram arrancadas desses infelizes as mais, contraditórias confissões. O Papa, desejoso de aniquilar a Ordem, convocou um concílio em Viena, em 1311, com esse fim, mas os Bispos se recusaram a condená-la à revelia; conseqüentemente, o Papa convocou um consistório privado em 22 de novembro de 1312, e aboliu a Ordem, conquanto admitindo a falta de provas das acusações. As riquezas da Ordem foram confiscadas em benefício da Ordem de São João, mas é certo que a grossa parcela francesa foi adjudicada aos cofres do rei da França, Felipe, o Belo. A tragédia atingiu seu ponto culminante em 14 de março de 1314, quando o Grão-Mestre do Templo, Jacques DeMolay, e Godofredo de Charney, preceptor da Normandia, foram publicamente queimados no pelourinho diante da catedral de Notre Dame, ante a turba, como hereges impenitentes. Diz-se que o Grão-Mestre, ao ser envolto e devorado pela pira, ele voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe... Convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para recebam vosso justo castigo. Malditos... Malditos... Malditos... Sereis malditos até treze gerações...". E de facto, antes de decorridos doze meses, ambos os intimados estavam mortos.
Em Portugal, o rei D.Dinis não aceita as acusações, funda a Ordem de Cristo para qual passam muitos Templários. Na Inglaterra, o rei Eduardo II, que não concordara com as ações de seu sogro Felipe, ordena uma investigação cujo resultado proclama a inocência da Ordem. Na Inglaterra, Escócia e Irlanda os Templários distribuíram-se entre a Ordem dos Hospitalários, monastérios e abadias. Na Espanha, o Concílio de Salamanca, declara unanimemente que os acusados são inocentes. Na Alemanha e Itália a maioria dos cavaleiros restou em liberdade.
No entanto, a destruição da Ordem não acarretou a supressão completa de seus ensinamentos mais profundos. A sua mística permaneceu viva através dos seis séculos e meio às fogueiras de Notre Dame, palpita indubitavelmente no corpo e no espírito da Maçonaria.
Balduíno II, rei de Jerusalém, alojou ambos e a mais sete aderentes seus, perto do Templo de Salomão, originando-se daí a denominação de Templários. Durante nove anos, seus membros dedicaram-se somente a trabalhos sobre o plano metafísico, sem participar nos combates e na política. Seria infantil, para alguns, crer que a Ordem do Templo surgiu para defender Jerusalém, ou para guardar o Santo Sepulcro, ou para proteger os peregrinos. Os historiadores mesmo não acreditam nessa versão, mas são obrigados a se contentarem com as conjecturas, pois não puderam descobrir nenhum documento sobre a Missão Esotérica da Ordem.
São Bernardo de Clairvaux, fundador da Ordem Cirtecense, foi o patrono dos Templários. Ele enviou uma carta a Hugo de Payens pedindo a cooperação da Ordem para reabilitar os "ladrões e sacrílegos, assassinos, perjúrios e adúlteros", porém que estivessem dispostos a se alistar nas fileiras das Cruzadas pela liberação da Terra Santa. Alentado assim por um dos mais influentes de sua época, Hugo de Payens partiu em direção do Concílio de Troyes, na França, para assegurar o reconhecimento de sua Ordem na Europa. Ali sob o patrocínio e protecção de S. Bernardo apresentou a regra da irmandade, que seguia até certo ponto a Regra da Ordem Cirtecense. Mas a carta constitutiva da Ordem, que a estabeleceu definitivamente, só lhe foi outorgada em 1163 pelo Papa Alexandre III.
Em seu período áureo, foi constituída de vários graus. A sua secção mais importante foi a dos Cavaleiros, por sua feição militar. Em sua recepção, juravam observar os três preceitos de pobreza, castidade e obediência, tal qual os membros das demais Ordens da Igreja. Em geral descendentes de alta estirpe, os Cavaleiros tinham direito a três cavalos, a um escudeiro e duas tendas. Aceitavam-se também homens casados, mas sob a condição de legarem à Ordem metade de suas propriedades, e não se admitiam mulheres. Depois vinha um corpo de Clérigos, incluindo Bispos, Padres e Diáconos, sujeitos aos mesmos votos dos Cavaleiros, e que por especial dispensação não rendiam obediência a nenhum superior eclesiástico ou civil, a não ser o Grão-Mestre do Templo e ao Papa. Instituiu-se que as confissões dos irmãos da Ordem deviam ser ouvidas somente por clérigos especiais, e assim permaneciam invioláveis os seus segredos. Também havia duas classes de Irmãos Servidores, os criados e os artífices. A hierarquia administrativa da Ordem era formada pelo Grão-Mestre, o Senescal do Templo, o Marechal como autoridade suprema em assuntos militares, e os Comendadores sob cuja direcção estavam as Províncias.
A influência dos Templários cresceu rapidamente. Combateram valentemente em várias Cruzadas, e a mercê dos bens tomados de seus inimigos vencidos, ou doados à Ordem, chegaram a ser grandes financeiros e banqueiros internacionais, cujas riquezas tiveram o seu apogeu em meados do século treze. Os reis da Europa depositavam seus tesouros e riquezas nas arcas dos Templários e, no que não era incomum ocorrer, pediam até mesmo empréstimos a Ordem.
Seu papel preponderante na Igreja se pode avaliar pelo facto de os membros da Ordem serem convocados para participar dos Grandes Concílios da Igreja, tal como o de Latrão em 1215 e o de Lyon em 1274. Assim, não há dúvida que essa Ordem foi um dos repositórios da Sabedoria Oculta na Europa, durante os séculos doze e treze, porém seus segredos eram transmitidos tão-só a alguns de seus membros selecionados. Em sua secção religiosa, as cerimônias de recepção eram executadas sob estrito sigilo, e daí, naturalmente, a razão de lhe haverem os leigos atribuído as mais horríveis práticas e histórias infundadas.
Depois da tomada de Jerusalém pêlos Sarracenos (Muçulmanos que, inclusive, nos períodos de trégua, negociavam com os Templários, pois acreditavam ser prudente ter algum dinheiro invertido com os cristãos para o caso de que os avatares da guerra pudessem terminar em alguma espécie de pacto com os europeus ) em 1291, adveio a queda do Reino Latino; o quartel-general da Ordem foi transferido da Cidade Santa para Chipre, e Paris passou à categoria de seu principal centro na Europa. Por certo que esta derrota das Cruzadas, em que o túmulo de Cristo caiu nas mãos dos "infiéis", abalou a posição dos Templários, como das demais ordens militares, mas ninguém poderia prever o seu fim brusco e trágico. Conservando-se ainda poderosamente rica, credora do Papa e da corte da França, suas posses passaram a ser avidamente cobiçadas. Felipe IV, o Belo, necessitava prementemente de dinheiro e depois de haver confiscado os haveres dos banqueiros lombardos e judeus e tê-los expulso do país, volveu suas gulosas vistas para os Templários. Como o Papa Clemente V devia sua posição em Avinhão às intrigas do rei, foi fácil a sua aquiescência. Essa macabra tarefa foi muito ajudada pelo ex-cavaleiro Esquieu de Floyran, o qual, pessoalmente interessado na desmoralização da Ordem, contra ela levantou as mais duvidosas acusações. Essas acusações foram sofregamente aceitas por Felipe IV, que, numa sexta-feira, 13 de outubro de 1307, mandou prender todos os Templários da França e o seu Grão-Mestre, Jacques DeMolay, os quais, submetidos à Inquisição, foram por esta acusados de hereges. Por meio de inomináveis torturas físicas, infligidas a ferro e fogo, foram arrancadas desses infelizes as mais, contraditórias confissões. O Papa, desejoso de aniquilar a Ordem, convocou um concílio em Viena, em 1311, com esse fim, mas os Bispos se recusaram a condená-la à revelia; conseqüentemente, o Papa convocou um consistório privado em 22 de novembro de 1312, e aboliu a Ordem, conquanto admitindo a falta de provas das acusações. As riquezas da Ordem foram confiscadas em benefício da Ordem de São João, mas é certo que a grossa parcela francesa foi adjudicada aos cofres do rei da França, Felipe, o Belo. A tragédia atingiu seu ponto culminante em 14 de março de 1314, quando o Grão-Mestre do Templo, Jacques DeMolay, e Godofredo de Charney, preceptor da Normandia, foram publicamente queimados no pelourinho diante da catedral de Notre Dame, ante a turba, como hereges impenitentes. Diz-se que o Grão-Mestre, ao ser envolto e devorado pela pira, ele voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei e imprecou: "Papa Clemente, cavaleiro Guilherme de Nogaret, Rei Felipe... Convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para recebam vosso justo castigo. Malditos... Malditos... Malditos... Sereis malditos até treze gerações...". E de facto, antes de decorridos doze meses, ambos os intimados estavam mortos.
Em Portugal, o rei D.Dinis não aceita as acusações, funda a Ordem de Cristo para qual passam muitos Templários. Na Inglaterra, o rei Eduardo II, que não concordara com as ações de seu sogro Felipe, ordena uma investigação cujo resultado proclama a inocência da Ordem. Na Inglaterra, Escócia e Irlanda os Templários distribuíram-se entre a Ordem dos Hospitalários, monastérios e abadias. Na Espanha, o Concílio de Salamanca, declara unanimemente que os acusados são inocentes. Na Alemanha e Itália a maioria dos cavaleiros restou em liberdade.
No entanto, a destruição da Ordem não acarretou a supressão completa de seus ensinamentos mais profundos. A sua mística permaneceu viva através dos seis séculos e meio às fogueiras de Notre Dame, palpita indubitavelmente no corpo e no espírito da Maçonaria.
terça-feira, 5 de abril de 2011
IN PRINCIPIO ERAT VERBUM - S. JOÃO
ΕΝ ΑΡΧΗ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁ λόγος.
IN PRINCIPIO erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum
AO PRINCÍPIO era o logos e o logos era em Deus e Deus era o logos
Οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν
hoc erat in principio apud Deum
Tal era, ao princípio, o que estava em Deus;
πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν.
omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est
tudo, de Si Mesmo, veio a ser; se outro de Si, nada do que é, seria.
ὃ γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων:
in ipso vita erat et vita erat lux hominum
Nele estava a vida e a vida era a luz dos humanos;
καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει, καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν.
et lux in tenebris lucet et tenebrae eam non conprehenderunt
e a luz luziu nas trevas, e as trevas não a dissiparam
Ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ, ὄνομα αὐτῷ Ἰωάνης
fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes
Um humano encarna, apóstolo (enviado) de Deus, nomeado mensageiro (João)
οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν, ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός, ἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι᾽ αὐτοῦ.
hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum
e que veio mártir (testemunha); do seu martírio (testemunho) ácerca da luz a todos, através dele, chegou a fé (pisteusousin)
IN PRINCIPIO erat Verbum et Verbum erat apud Deum et Deus erat Verbum
AO PRINCÍPIO era o logos e o logos era em Deus e Deus era o logos
Οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν
hoc erat in principio apud Deum
Tal era, ao princípio, o que estava em Deus;
πάντα δι᾽ αὐτοῦ ἐγένετο, καὶ χωρὶς αὐτοῦ ἐγένετο οὐδὲ ἕν.
omnia per ipsum facta sunt et sine ipso factum est nihil quod factum est
tudo, de Si Mesmo, veio a ser; se outro de Si, nada do que é, seria.
ὃ γέγονεν ἐν αὐτῷ ζωὴ ἦν, καὶ ἡ ζωὴ ἦν τὸ φῶς τῶν ἀνθρώπων:
in ipso vita erat et vita erat lux hominum
Nele estava a vida e a vida era a luz dos humanos;
καὶ τὸ φῶς ἐν τῇ σκοτίᾳ φαίνει, καὶ ἡ σκοτία αὐτὸ οὐ κατέλαβεν.
et lux in tenebris lucet et tenebrae eam non conprehenderunt
e a luz luziu nas trevas, e as trevas não a dissiparam
Ἐγένετο ἄνθρωπος ἀπεσταλμένος παρὰ θεοῦ, ὄνομα αὐτῷ Ἰωάνης
fuit homo missus a Deo cui nomen erat Iohannes
Um humano encarna, apóstolo (enviado) de Deus, nomeado mensageiro (João)
οὗτος ἦλθεν εἰς μαρτυρίαν, ἵνα μαρτυρήσῃ περὶ τοῦ φωτός, ἵνα πάντες πιστεύσωσιν δι᾽ αὐτοῦ.
hic venit in testimonium ut testimonium perhiberet de lumine ut omnes crederent per illum
e que veio mártir (testemunha); do seu martírio (testemunho) ácerca da luz a todos, através dele, chegou a fé (pisteusousin)
Arte de Filosofar
Arte de Filosofar
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
-Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
"A arte de filosofar não consiste em escrever livros, em proferir conferências, em minutar lições que, ostensivamente, efectuem transmissão de ensino público. Todas as manifestações da filosofia, que os bibliógrafos registam e os biógrafos explicam, combinando a bibliografia com a biografia, resultam de uma actividade inaudível e invisível a que se dá o nome secreto de pensamento. Maior é o número dos filósofos que cogitam, meditam e especulam, sem que os seus contemporâneos sequer suspeitem, do que o número daqueles que pretendem tornar-se célebres com exibir erudição aprendida em arquivos, bibliotecas ou museus.Cumprindo os ritos religiosos, políticos e morais que são a praxe no círculo social em que preferiu viver e conviver, o pensador sincero fica mais livre para na solidão reflectir sobre os problemas humanos, os segredos naturais e os mistérios divinos. A cada alma esclarecida no cultivo da ciência e inflamada pelo amor da verdade obsidia sempre um só problema, segredo ou mistério, a que atribui primado na ordenação de todas as interrogações que estimulam o pensamento até à hora da iluminação suprema"
-Álvaro Ribeiro, A Arte de Filosofar, Lisboa, Portugália, 1955, p.9.
terça-feira, 22 de março de 2011
Colóquio "A Obra e o Pensamento de Eudoro de Sousa"
Palácio da Independência: 22-23 de Março de 2011
Ocorrendo, neste ano, o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa (1911-1987), figura maior do pensamento luso-brasileiro contemporâneo, decidiu o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira assinalar a efeméride com a realização de um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento, cuja produção e edição se repartiu entre os dois países.
Companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil, Eudoro de Sousa acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião, a qual se manifestou nos artigos e ensaios que publicou, em Portugal, no decénio de 1944-1953 e veio a encontrar acabada expressão na trilogia Horizonte e Complementaridade (1975), Mitologia (1980) e História e Mito (1981), redigidas e editadas durante a sua permanência no Brasil, onde participou nas actividades que vieram a configurar a Escola de São Paulo e exerceu longo e fecundo magistério na Universidade de Brasília.
Apesar de a totalidade da sua obra haver sido recentemente editada em Portugal (INCM, 2000-2004) e ter sido objecto de valiosos e inteligentes estudos interpretativos nos dois países, é ainda relativamente limitado o conhecimento do seu pensamento, esperando-se que o presente Colóquio possa contribuir para conferir a Eudoro de Sousa o lugar cimeiro que lhe cabe na reflexão luso-brasileira da segunda metade do século XX.
Ocorrendo, neste ano, o centenário do nascimento de Eudoro de Sousa (1911-1987), figura maior do pensamento luso-brasileiro contemporâneo, decidiu o Instituto de Filosofia Luso-Brasileira assinalar a efeméride com a realização de um Colóquio Internacional dedicado ao estudo da sua obra e pensamento, cuja produção e edição se repartiu entre os dois países.
Companheiro e íntimo convivente intelectual de Álvaro Ribeiro, António José Brandão, Delfim Santos, José Marinho e Sant’Anna Dionísio, em Portugal, e de Agostinho da Silva, Vicente Ferreira da Silva, António Telmo e João Ferreira, no Brasil, Eudoro de Sousa acompanhou aqui os primeiros na oposição crítica ao positivismo, na atenção reflexiva às relações entre filosofia e filologia e na valorização da obra e da figura de Leonardo Coimbra, vindo a singularizar-se pela meditação que, desde sempre, dedicou à mitologia e à filosofia da religião, a qual se manifestou nos artigos e ensaios que publicou, em Portugal, no decénio de 1944-1953 e veio a encontrar acabada expressão na trilogia Horizonte e Complementaridade (1975), Mitologia (1980) e História e Mito (1981), redigidas e editadas durante a sua permanência no Brasil, onde participou nas actividades que vieram a configurar a Escola de São Paulo e exerceu longo e fecundo magistério na Universidade de Brasília.
Apesar de a totalidade da sua obra haver sido recentemente editada em Portugal (INCM, 2000-2004) e ter sido objecto de valiosos e inteligentes estudos interpretativos nos dois países, é ainda relativamente limitado o conhecimento do seu pensamento, esperando-se que o presente Colóquio possa contribuir para conferir a Eudoro de Sousa o lugar cimeiro que lhe cabe na reflexão luso-brasileira da segunda metade do século XX.
terça-feira, 15 de março de 2011
A filosofia portuguesa e o prazer de conversar - Metáfora
«Não sei se o Pedro já reparou em que os nossos grandes poetas e filósofos se caracterizam, por um dos seus lados, pelo prazer de conversar.
Sampaio Bruno escreveu como quem conversa, donde é fácil deduzir de uma angelogia a sua concepção filosófica d’A Ideia de Deus.
Álvaro conversa com Bergson, com Domingos Monteiro, com José Régio em numerosas numinosas páginas. E escreveu: nunca estamos sós, estamos sempre acompanhados.
Teixeira de Pascoaes deixou a poesia onde conversava consigo próprio, com os deuses, com as sombras e pôs-se a dialogar com os Santos, com os Heróis, com os Sábios.
Leonardo Coimbra privilegia a Relação, a fraternidade das mónadas; explica o mal como o corte das relações.
A comunicação universal dos espíritos e das almas constitui o fim da humanidade, o fim, já se sabe, no sentido aristotélico.
O Pedro Sinde vê os seres que formam a natureza, não cantando, mas eles mesmos como cantos. Não tocam o violino, são o som do violino, mas para quem não dispõe do sentido do ritmo, vê só um corpo de madeira inerte que nem sequer lhe recorda um corpo de mulher.
Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas.»
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 27.4.2008]
Metáfora
«Voltou de novo o prazer de ler o que não compreendo, assim do mesmo modo que gostaríamos de olhar o sol, mas só podemos ver os seus pálidos reflexos nas sombras da nossa alma. O Sol da Inteligência, a Luz da Luz.
O mundo que nos é acessível é o das metáforas. A sabedoria é uma longa paciência e, se não há quem nos obrigue a ‘trabalhar’, ficamos pelos pequenos esforços.
Então, sustidos na ‘beleza sem par da metáfora’ (Bruno) é possível cumprir o preceito iniciático ‘nullus dies sine linea’*. Assim evitamos o caos da alma, a indiferença, a prostração. A medusa que nos olha de dentro é bem mais perigosa do que a que nos olha de fora. Valha-nos Santo Anselmo e Deus que é só quem sabe!»
* Nem um dia sem escrever ou ler uma linha: António Telmo usava este dito continuamente – era uma herança do seu mestre Álvaro Ribeiro – mas no sentido de ‘escrever’.
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 17.1.2009]
Sampaio Bruno escreveu como quem conversa, donde é fácil deduzir de uma angelogia a sua concepção filosófica d’A Ideia de Deus.
Álvaro conversa com Bergson, com Domingos Monteiro, com José Régio em numerosas numinosas páginas. E escreveu: nunca estamos sós, estamos sempre acompanhados.
Teixeira de Pascoaes deixou a poesia onde conversava consigo próprio, com os deuses, com as sombras e pôs-se a dialogar com os Santos, com os Heróis, com os Sábios.
Leonardo Coimbra privilegia a Relação, a fraternidade das mónadas; explica o mal como o corte das relações.
A comunicação universal dos espíritos e das almas constitui o fim da humanidade, o fim, já se sabe, no sentido aristotélico.
O Pedro Sinde vê os seres que formam a natureza, não cantando, mas eles mesmos como cantos. Não tocam o violino, são o som do violino, mas para quem não dispõe do sentido do ritmo, vê só um corpo de madeira inerte que nem sequer lhe recorda um corpo de mulher.
Todavia, estamos sozinhos. O lugar do diálogo é nas montanhas.»
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 27.4.2008]
Metáfora
«Voltou de novo o prazer de ler o que não compreendo, assim do mesmo modo que gostaríamos de olhar o sol, mas só podemos ver os seus pálidos reflexos nas sombras da nossa alma. O Sol da Inteligência, a Luz da Luz.
O mundo que nos é acessível é o das metáforas. A sabedoria é uma longa paciência e, se não há quem nos obrigue a ‘trabalhar’, ficamos pelos pequenos esforços.
Então, sustidos na ‘beleza sem par da metáfora’ (Bruno) é possível cumprir o preceito iniciático ‘nullus dies sine linea’*. Assim evitamos o caos da alma, a indiferença, a prostração. A medusa que nos olha de dentro é bem mais perigosa do que a que nos olha de fora. Valha-nos Santo Anselmo e Deus que é só quem sabe!»
* Nem um dia sem escrever ou ler uma linha: António Telmo usava este dito continuamente – era uma herança do seu mestre Álvaro Ribeiro – mas no sentido de ‘escrever’.
[Carta de António Telmo para Pedro Sinde, 17.1.2009]
quinta-feira, 3 de março de 2011
SHIBLÍ E O CACHORRO
Perguntaram a Shiblí: "quem foi o primeiro a guiar teus passos no caminho do umbral divino?"
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água morrendo de sede. Quando mirava a superfície da água, via seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de outro animal; diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a paciência; de um salto se jogou na água, e no mesmo instante, o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos, se esfumou entre ele e seu desejo, aquele obstáculo que não era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava diante de mim; sem dúvida alguma, quem foi assim aniquilado não foi outro senão meu eu. Desta maneira fui salvo; meu primeiro guia no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo que te impede avançar é o teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus pés. Se sentes a necessidade constante de Sua presença embriagadora, nunca voltes a ti. Esse é todo o vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an, XXIV, 35).
( Farid ud-Din Attar, O Livro divino)
Certo dia em que Moisés dialogava com Alláh, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe dizia: "Oh Moisés! Protege àquele que procura refúgio!" Ele saiu de sua contemplação e percebeu uma pomba que gritava: "Socorro! Moisés, socorro!" Moisés abriu sua manga e nela a pomba enfiou-se. Pouco depois, apareceu uma águia que lhe disse: "Tu encerras na manga algo que me pertence, dê-me o!" "Allah me ordenou abrigar àqueles que procuram refúgio", justificou-se Moisés, inclinando-se sobre sua coxa para cortar um pedaço dela e lhe dar. "Não sabes que a carne dos profetas me está proibida e que eu prometi não comê-la?" disse a águia. A águia elevou-se e pos-se a voar ao redor da cabeça de Moisés. "Deixe-me partir!" pediu a pomba. "Mas a águia está aqui, ver-te-á e pegar-te-á!" "Aquele que deu sua palavra não a tomará de volta e assim saberá mantê-la" disse-lhe a pomba. Moisés libertou a pomba. As duas aves juntaram-se e ficaram girando ao seu redor. Uma voz disse: "A águia é Gabriel, e a pomba, Miguel. Eles vieram ver se sabes manter tua palavra".
Abûl'-Hasan Khraqânî, "Nûr al-'ulûm" (A Luz das Ciências)
Ele respondeu: "Certo dia , vi um cão à borda da água morrendo de sede. Quando mirava a superfície da água, via seu próprio reflexo, que ele acreditava tratar-se de outro animal; diante daquela imagem, sem beber fugia.
Finalmente a sede lhe fez perder todo conhecimento, e com ele, a paciência; de um salto se jogou na água, e no mesmo instante, o outro cachorro desapareceu.
Desaparecido aquele cão diante de seus próprios olhos, se esfumou entre ele e seu desejo, aquele obstáculo que não era senão ele mesmo.
Assim, é como desapareceu o obstáculo que se elevava diante de mim; sem dúvida alguma, quem foi assim aniquilado não foi outro senão meu eu. Desta maneira fui salvo; meu primeiro guia no Caminho foi um cachorro".
Desvanece também tu, da frente dos teus olhos. O obstáculo que te impede avançar é o teu eu; faça-o desaparecer.
O menor apego a teu eu é uma pesada corrente que trava teus pés. Se sentes a necessidade constante de Sua presença embriagadora, nunca voltes a ti. Esse é todo o vinho que precisas.
Não regresses a ti; renuncies a teu eu, a abnegação de si é "luz sobre luz". (Al Qur’an, XXIV, 35).
( Farid ud-Din Attar, O Livro divino)
Certo dia em que Moisés dialogava com Alláh, pareceu-lhe ouvir uma voz que lhe dizia: "Oh Moisés! Protege àquele que procura refúgio!" Ele saiu de sua contemplação e percebeu uma pomba que gritava: "Socorro! Moisés, socorro!" Moisés abriu sua manga e nela a pomba enfiou-se. Pouco depois, apareceu uma águia que lhe disse: "Tu encerras na manga algo que me pertence, dê-me o!" "Allah me ordenou abrigar àqueles que procuram refúgio", justificou-se Moisés, inclinando-se sobre sua coxa para cortar um pedaço dela e lhe dar. "Não sabes que a carne dos profetas me está proibida e que eu prometi não comê-la?" disse a águia. A águia elevou-se e pos-se a voar ao redor da cabeça de Moisés. "Deixe-me partir!" pediu a pomba. "Mas a águia está aqui, ver-te-á e pegar-te-á!" "Aquele que deu sua palavra não a tomará de volta e assim saberá mantê-la" disse-lhe a pomba. Moisés libertou a pomba. As duas aves juntaram-se e ficaram girando ao seu redor. Uma voz disse: "A águia é Gabriel, e a pomba, Miguel. Eles vieram ver se sabes manter tua palavra".
Abûl'-Hasan Khraqânî, "Nûr al-'ulûm" (A Luz das Ciências)
terça-feira, 1 de março de 2011
Jalal ad-Din Muhammad Rumi
1207 - 1273
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A poesía de Rumi também foi lida no Ocidente durante séculos e lá foram introduzidas referências a ele no trabalho de Ralph Waldo Emerson e Georg Wilhelm Friedrich Hegel e muitos outros eminentes escritores. Mas nos últimos anos a popularidade do seu trabalho tem aumentado numa medida surpreendente.
Rumi nasceu em 1207 na costa leste do Império Persa. Ele nasceu na cidade de Balkh (no que é hoje o Afeganistão), e finalmente resolveu viver na cidade de Konya, no que agora é a Turquia, onde também morreu. Viveu num período de agitação social e política notável. A sua era a época da cruzadas; também a área onde Rumi viveu estava sob constante ameaça de invasão Mongol. As grandes revoluções influenciaram-no durante toda a sua vida , e também influenciaram grande parte de sua poesia.
Na sua poesia Rumi freqüentemente usa imagens que podem ser inesperadas. Por exemplo, embora o Islão proíba álcool, muitas vezes ele descreve a sensação de estar "bêbado e intoxicado como se estivesse em êxtase para com sua amada." Aqui bêbado implica o êxtase da consciência divina.
Contudo as suas palavras são inspiradoras e sinalizadoras do que aponta para o divino.
«Masnavi»
Jalal ad-Din Muhammad Rumi
(Poeta Sufi, s. XIII)
Vem, vem, seja você que for,
não importa se você é um infiel, um idólatra,
ou um adorador do fogo,
Vem, nossa irmandade não é um lugar de desespero
Vem, mesmo tendo violado seu juramento cem vezes,
vem assim mesmo.
Comentário -
Artur Alonso.-
A poesia sufi... aproxima-nos ao principio do ser, à essência primeira do homem como espírito... à procura da paz e harmonia no interior de cada ser...
Por isso os sufis são conscientes de que muitos são os caminhos... pelos quais se pode penetrar no mistério da vida, do ser, da humana presença.
IBN ARABÎ
«Aberto a todas as formas»
Ib'n Arabi
(Poeta Sufi, s. XII)
Meu coração está aberto a todas as formas:
é uma pastagem para as gazelas,
é um claustro para os monges cristãos,
um templo para os ídolos
a Caaba do peregrino,
as Tábuas da Torá,
e o livro do Alcorão
Professo a religião do amor,
e qualquer direção que avancem seus caminhos;
a direção do Amor
será minha religião e minha fé.
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Lourenço Marques Revisited
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
ALBERTO DE LACERDA pintura de Rui Filipe-1962
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
ALBERTO DE LACERDA pintura de Rui Filipe-1962
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