sexta-feira, 2 de março de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

in: http://www.orgialiteraria.org/2011/04/o-pajem-formidavel-dos-indicios-alberto_19.html
 
Quem é Alberto de Lacerda?

Por vezes devíamos falar dos poetas num eterno presente. Não por motivos de canhestra apresentação ocular, ou sequer por uma redutora explanação para informação dos aflitos, mas porque há sensibilidades e vozes que exigem a própria existência para lá das dificuldades lineares do Tempo.

Perguntarmos, nesta altura de crise geral, sobre a essência de um poeta maior, levar-nos-á a descobrir o que por aí sobra dos seus versos e depois ao salto inevitável até à plataforma segura mas desconhecida da sua singular obra. Não nos deteremos aqui no insípido tratamento em vida do autor, nem no igualmente tasteless tratamento da sua memória que muitos lhe conferiram. Basta dizer que a nossa intenção é puramente prática: neste momento Alberto de Lacerda é um livro. Porque, embora vários e importantes constem na sua bibliografia e outros se desenhem sobre o horizonte crescente, o certo é que o poeta vive hoje somente em dois livros, um deles uma importante evocação do escritor, por Luís Amorim de Sousa, em tudo relevante para o tema em apreço. Contudo, tentemos descobrir quem é agora Alberto de Lacerda a partir do outro livro publicado o ano passado, um volume de poesia original, intitulado O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio & Alvim, 2010).

Esta edição de um primeiro volume do que se anuncia como uma das mais vibrantes colectâneas de originais post mortem das últimas décadas da poesia portuguesa é obra de um poeta em sentido lato, algo que irá das suas vivências entre Boston e Londres, dos caminhos felizes que esta escrita fisicamente percorreu Londres-Lisboa aos que temporalmente viveram entre os idos 1995 e 1997 até aos leitores de hoje.
São poemas que não escondem nada mas apontam muito, no sentido mais zen que se possa pensar quanto ao gesto. A partir das palavras e versos que os compõem, chega-se a um lugar novo se olharmos com os cegos olhos de dentro.

Põe-se a pergunta de se a "secura substantiva" de Alberto de Lacerda em O Pajem… será decorrente da sua condição de exilado (geográfico, político, social, económico, sexual, etc.), da paixão sempre confessada e exercida pela pintura, da longa vivência entre anglófonos ou, no caso deste livro em concreto, de uma plácida aceitação da velhice. E a resposta dá-se em parte lendo toda a obra, para a qual alegremente vai quem ler esta obra póstuma, o que me parece ser a mais nobre virtude de um tomo e de um problema deste tipo. Há algo de pungente em observar a vida de um livro após a morte de um autor. O branco da capa desta edição da Assírio & Alvim toma assim um sabor oriental, a que até o pormenor do título a vermelho confere sensação. Indícios.

Alberto de Lacerda deixou-nos razoavelmente preparados para publicação alguns livros de poesia, de entre os quais este Pajem... é o primeiro a ser dado à estampa, bem como imensos dispersos (reputadamente mais mil poemas inéditos). Sentimo-nos algo descansados pelo facto de o espólio estar entregue a uma instituição de eleição, a Fundação Mário Soares, e pelo seu amigo Luís Amorim de Sousa a quem poderemos continuar a agradecer a organização de tão importante obra.

por n. fonseca
O Pajem Formidável dos Indícios
Alberto de Lacerda
Assírio & Alvim
2010

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Joana d'Arc faz 600 anos (1412-2012)


A guerreira que era orientada por vozes de santos, foi uma das mulheres mais fortes que o mundo já conheceu. Nasceu em 1412, na França. Ao completar 13 anos passou a ouvir vozes de santos. Com os conselhos das vozes santas decidiu que iria coroar o Rei. Em julho de 1429, Carlos recebeu a coroa de rei na Catedral de Notre-Dame de Reims. Com isso, Joana havia atingido seu objectivo maior, só que sua ambição militar falou mais alto. Partiu para Paris a fim de expulsar os ingleses, foi derrotada, seus soldados partiram em retirada, mas seu espírito guerreiro resistiu. Joana foi capturada, tentou escapar de ambas as prisões, mas não obteve êxito. Em 1430, foi levada a julgamento no tribunal inglês, sendo este conduzido pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Todas as acusações eram de ordem religiosa: bruxa, herege, idólatra, entre outras. O Martírio durou seis meses e sua sentença foi ser queimada viva.
Cumpriu-se então a sentença, Joana foi queimada viva em uma fogueira aos 19 anos de idade.
Foi canonizada no ano de 1920.
É um exemplo para todos, de coragem, determinação, inspiração divina, santidade e heroísmo. O nome desta rapariguinha que morreu aos 19 anos, perdurará para sempre.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012


SONNET #3


by: William Shakespeare



LOOK in thy glass, and tell the face thou viewest
Now is the time that face should form another,
... Whose fresh repair if now thou not renewest,
... Thou dost beguile the world, unbless some mother.
For where is she so fair whose uneared womb
Disdains the tillage of thy husbandry?
Or who is he so fond will be the tomb
Of his self-love, to stop posterity?
Thou art thy mother's glass, and she in thee
Calls back the lovely April of her prime;
So thou through windows of thine age shalt see,
Despite of wrinkles, this thy golden time.
But if thou live rememb'red not to be,
Die single, and thine image dies with thee.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Folhagem de Sombras"

Livro de poesia de um autor que preferiu resguardar-se sob um criptónimo.

"Folhagem de Sombras" é um livro constituído por duas partes, ambas com citações de Oscar Vladislas de Lubicz Milosz (poeta lituano de língua francesa) a introduzi-las.

Constata-se, pela leitura do livro, que o poeta usa de vários recursos estilísticos nesta obra ( seja no que se refere a métrica, a rima, a verso livre), e que os domina a todos com segurança.
O livro tem alguns poemas muito belos, outros um pouco mais artificiais. A linguagem pode ser simples ou rebuscada, conforme os casos. Mas trata-se, quase sempre, de uma poesia que vai directa ao coração, não demasiado popular, mas não esquecendo a lição dos poetas espontâneos, simultaneamente revelando, aqui e ali, a influência de grandes mestres (poetas) de várias eras e contextos culturais.

Aconselhamos a procura e a leitura deste livro de um poeta quase totalmente desconhecido, mas digno de ser lido.

O título "Folhagem de Sombras" é muito curioso. Não remete, como poderia parecer à primeira vista, para a sombra das folhas e folhagens de árvores ou de jardins. Aqui, as próprias sombras é que se ramificam, se interpenetram, como que compondo uma folhagem, um folio complexo, como se cada poema remetesse para todos os outros, todos entre todos se comunicando por meio dessa rede um pouco informe mas arborífera da folhagem que entre si todos compõem.


                                                                                                           Marta Lacerda

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012


Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

RUMI

Greek Orthodox Christian Byzantine Music in AgSofia Kabarnos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Oração

                                                      Rembrandt, O filósofo em meditação

"O homem, orando de pé, contemplando o lugar remoto e infinitamente próximo onde imagina Deus, é como um candelabro, entendendo por candelabro o suporte e a vela acesa. Com efeito, no Livro do Esplendor (Zohar), ele é comparado a uma chama, pela correspondência do seu corpo com o combustível; da alma do sangue com a luz azulada e turva na parte inferior da chama, alma em hebraico se diz nephesh; da própria chama em ascese adente com o que, no mesmo hebraico, se designa por ruah, palavra para sopro ou espírito com sede no centro ígneo das emoções. Há, porém, à volta da chama, uma atmosfera luminosa imperceptível para quem não a procurar ver: aqui a correspondência no Zohar é com neshamah, a ponta suprema da alma e sua irradiação puríssima, a flor do intelecto." (António Telmo, Viagem a Granada, p. 32)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 5



"Um homem que opõe a Razão à Fé é tão estúpido quanto um cavaleiro que não dê de comer a seu cavalo. Ora, sabeis que esse é o nível mental atual, não só dos descrentes como da maioria dos católicos. Ficar-vos-ia reconhecido se me dissésseis como poderei fazer para não desprezar tudo isso."

"Julgo que nunca houve época tão desprovida de interesse. Desesperante uniformidade da baixeza e da porcaria, atestada pelas secreções do jornalismo."

"Chegamos a esse momento formidável e absolutamente estranho em que, Deus tendo sido expulso de toda a parte, nenhum homem saberá mais onde ir..."
"Já agora, o idiota é dono do mundo. É ele que é necessário, é ele que é procurado. Só ele é capaz de representar, de legislar, de presidir! A experiência está feita. Se há alguma coisa impossível é imaginar um homem, não digo superior, mas apenas dotado de uma inteligência rudimentar, podendo ser considerado digno de fazer leis ou de exercer uma função pública. O cretinismo é rigorosamente exigido."

"Dez mil manifestantes, bandeiras vermelhas e negras. Sindicalistas de um lado, agentes e soldados de outro. 250 feridos, ao que se diz. Seria necessário um novo Pentecostes para fazer compreender a esses pobres operários libertários, dominados e martirizados por alguns pândegos, quanto eles são imbecis!"

"Sabeis o que foi dito na Salette. O mundo moderno está entregue a Satanás, por decreto, de há um século, e a grande fortaleza, a Igreja, foi atingida. Pareceis esperar não sei que retorno dos povos a Deus, percebi isso em vosso livro. Não o espero, eu. O passado está bem para trás, bem abolido. Sem dúvida, é forçoso que Deus triunfe, no fim. Mas, depois de que terríveis trevas!"

"Outrora, havia a Glória que viva sem rumor e sem magnificência, e que, ainda que fosse a grande soberana, não vestia jamais outra púrpura senão a do seu próprio sangue, quando o derramava para se tornar imortal. Hoje que essa imortal está morta, a infame folgazona que a destronou, a Opinião pública, nada em esplendores, pois seu concubino preferido é o mais incontinente dos cegos rigos e se chama o Sucesso."

"É verdade que o mundo não é muito difícil de ficar espantado. É tão medíocre e tão baixo, esse apanágio de Satanás, que uma aparência de força ou de grandeza basta, comumente. Foi o que muitas vezes se viu nos nossos dias quando políticos ou escritores, capazes no máximo de aguilhoar carne ou de filar jantares, puderam se fazer admirar por multidões".

"Onde estão, hoje, as almas heróicas? Sei bem que o heroísmo pode ser encontrado, pelo menos em estado rudimentar, entre os nossos combatentes, mas o heroísmo integral, sem costura nem emenda, onde está ele? É o do cristão completo que tudo deu por amor de Deus antes de dar alguma coisa à pátria, e deve ser extremamente raro".

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 4

"Quantas almas realmente vivas [existem] nesse fervilhar de seres humanos? Uma por cem mil, talvez. Ou, por cem milhões. Não se sabe. Há seres superiores, homens de gênio mesmo, talvez, cuja alma não foi vivificada e que morrem sem ter vivido. Um coração simples dirá cada dia, chorando de angústia: "Em que pé estou com o Espírito Santo? Sou verdadeiramente um vivo ou um morto que se devia enterrar?" É terrificante pensar que se subsiste no meio de uma multidão de mortos que se acredita vivos e que o amigo, o companheiro, o irmão que se viu de manhã e que se vai tornar a ver à noite, só tem vida orgânica, uma aparência de vida, uma caricatura de existência. E que, na verdade, é apenas diferente daqueles que já se estão desfazendo nos túmulos. É intolerável, por exemplo, pensar que se nasceu de pai e mãe que não existiam. E que esse padre, presente no altar, talvez não seja muito diverso de um outro já falecido e que o Fármaco de imortalidade, o Pão que ele consagrou para vos transmitir a Vida eterna, ele o vai estender com mão de cadáver, proferindo com voz defunta as santas palavras da liturgia! Funcionam, no entanto, todos esses fantasmas, com uma perfeita regularidade. A missa daquele padre é tão válida quanto a de um santo. Certa, a absolvição que administra aos pecadores. A força de seu ministério sobrenatural perdura enquanto a morte não triunfou definitivamente dele. E assim sucede com todos os semi-trespassados que nos rodeiam e que somos forçados a chamar, por antecipação: mortos. Continua-se a agir e mesmo a pensar mecanicamente, com uma alma destituída de vida"

                                                                                                 LÉON BLOY

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 3

Se Deus existe...
Deus existe ou Deus não existe. Se se lhe concede a existência, é preciso concedê-la efetiva, supondo uma infinita continuidade da Criação, o que implica a onipotência absoluta no conhecido e no desconhecido, no visível e no invisível. Se o Ato criador se interrompesse, no mesmo instante o mais duro granito e todos os metais se reduziriam a poeira, e essa própria poeira não subsistiria. Não haveria mais nada. A natureza inteira se dissolveria no ininteligível vazio. Se esse postulado não for admitido, é-se forçosamente um ateu ou um imbecil, o que é, aliás, equivalente, do pondo de vista estético.

O verdadeiro bem aos outros

Falais em melhorar a condição dos que sofrem. Como podeis acreditar nessa possibilidade, se não tendes em vista senão o bem-estar material? E sois forçados a só ter isto em vista, posto que não tendes absolutamente nada a dar a suas almas. Ninguém fez tanto por eles, materialmente, quanto os homens de grande fé que a Igreja chama os Santos. Mas os santos sabiam que o corpo humano não é senão a aparência do homem e trabalhavam sobretudo por suas almas, as quais não morrem. Sabiam, também, que o Sofrimento é bom, sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não sofre ou não quer sofrer, é um filho deserdado do Filho de Deus que esposou a Dor, pois somente aquele que aceita sofrer, pode entrever o preço de sua alma.

O Ato único

Então Deus, que conhece a miséria de suas criaturas, confere misteriosamente a alguns que escolheu por testemunhos a suprema graça de um desprezo sem limites, no qual não subsiste nada mais senão Ele mesmo em suas Três Pessoas inefáveis e nos milagres de seus Santos. Quando o padre eleva o cálice para receber o Sangue do Cristo, pode-se imaginar o enorme silêncio de toda a terra que o adorador supõe cheia de pavor em presença do Ato indizível que torna semelhantes a nada todos os outros atos, logo assimiláveis a vãs gesticuçações em trevas. A mais hedionda e a mais cruel das injustiças, a opressão dos fracos, a perseguição dos cativos, o próprio sacrilégio e o consecutivo desencadeamento das luxúrias infernais, todas essas coisas, nesse momento, parecem não mais existir, não mais ter sentido em comparação com o Ato Único. O que subsiste é, somente, o apetite dos sofrimentos e a efusão das magníficas lágrimas do grande Amor, antegoso de beatitude para os alunos do Espírito Santo que estabeleceram sua morada no tabernáculo do Desprezo real por todas as aparências deste mundo.

..............

Deus vos quer santo. Não digo virtuoso, nem honrado, o que basta aos burgueses. Mas, SANTO. E, a isso saberá vos obrigar, nem que seja à custa de terríveis dores.

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 2

Simples observação. Ninguém, mesmo entre os melhores cristãos, parece procurar Deus, ou mesmo, pensar nele. Vai-se para a mesa como cães, e para a cama como porcos. Impossível conseguir a menor atenção quande se fala de Deus."
 
"Penso frequentemente na afirmação de Ana Catarina Emmerich: "Não há mais cristãos no verdadeiro sentido da palavra".
 
"Os amigos de Jesus vêem à sua volta os cristãos modernos e é assim que podem conceber o inferno".
"Simão o Cirenaico ajuda Jesus a carregar a sua Cruz. Os cristãos modernos põem suas cruzes nas costas de Jesus".
"Tive muito frequentemente a ocasião de falar da tolice de nossos católicos, prodígio enorme, demonstrativo, por si só, da divindade de uma religião capaz de resistir-lhe".
 
"Tens perfeitamente razão de dizer que esse indivíduo jamais poderá me compreender. É um católico que permaneceu protestante - conheço o caso."
 
"Preocupam-se muito os russos com a comemoração de um centenário de 1912. A esse respeito, Raoux me escreve e me fala o grande Exército morto de frio. Respondo-lhe que o grande exército sem vitórias dos nossos católicos modernos morrerá, este ano talvez, do frio que está nele mesmo..."
 
"Há duas causas para este ostracismo de meus escritos no mundo católico: a extraordinária ininteligência dos cristãos modernos e sua profunda aversão do Belo. Entre uma página escrita com esplendor e uma outra página exprimindo as mesmas idéias chãmente, a escolha deles não é nunca duvidosa: vão, por instinto, à mediocridade. Tivestes mil ocasiões de ver isso e o vereis cada vez mais, pois o nível baixa todos os dias."
 
"O que se vê por toda a parte, e cada vez mais, é, por parte dos cristãos, o ateísmo prático, pelo menos na maior parte deles."
 
"Perguntais se esta guerra não esclareceu os católicos a meu respeito, se não pôs o clero a meus pés, etc. Eis a minha resposta. Nada poderá mudar esses católicos de que falais. A guerra, longe de esclarecê-los, aumenta sua cegueira e, mais do que nunca, sou seu pesadelo, tendo cometido o imperdoável crime de levar a sério a lei divina, de ser um católico absoluto - o único entre todos os que falam ou escrevem. Isso nunca me será perdoado. O castigo é fácil. Proibição de comprar meus livros, de lê-los e de deles falar. Sabe-se que o autor é pobre. Que vitória se se pudesse matá-lo pela miséria! A conspiração do silêncio. É uma imensa honra para mim ser tratado exatamente como Nossa Senhora da Salette, a quem é recomendado não dar a menor atenção. O efeito do castigo é, naturalmente, a miséria, sobretudo nos dias de hoje..."
 
"Os católicos desonram o seu Deus, como jamais os judeus e os mais fanáticos anticristãos foram capazes de o desonrar"
                                                                             LÉON BLOY
                                   

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 1

"É o rebanho dos pequenos de Deus. "Quem quer que receba em meu nome um desses pequenos" disse Jesus, "é a mim mesmo que recebe". O que pensar daquele que os degola, que os mutila, ou que inflige às suas almas puras uma tristeza mais negra do que a morte? (...) A maldição de uma multidão de crianças, é um cataclisma, um prodígio de terror, uma cadeia de montanhas sombrias no céu, com uma cavalgada de raios e trovões em seus cimos. É o infinito dos gritos de todos os abismos, é um não sei o que de altamente poderoso que não perdoa e que extingue a esperança de qualquer perdão."

Léon Bloy In FARIA, Octávio. Léon Bloy.

Depois de ler este relato visceral do Léon Bloy, como não pensar na terrível situação que vivenciamos hoje em que milhares são os infantes que morrem por dia, por hora, por minutos... no mundo? A estes sequer é dado o direito de nascer e, novamente, pelo seu grito impedido eles clamam justiça Àquele que já havia dito: "É a Mim que o fazeis..." Que terrível, que terrível!



"Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro,

tardarás a fazer justiça,

vingando nosso sangue

contra os habitantes da terra?"

(Ap 6,10)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

tradutore/tradittore

mapa de judeus sefardis

Gracia Nasi - biografia




Nascida no seio de uma rica família de marranos em Portugal em 1510, Gracia era conhecida por seu nome cristão, Beatriz de Luna. O nome de sua irmã era Reina, batizada Brianda. Seu irmão Agostinho Miguel Nasi , era médico da corte e catedrático de medicina da Universidade de Lisboa, morreu em 1525 e Gracia assume a responsabilidade de criar os filhos de seu irmão, João (José) e Agostinho (Samuel).


Possuidora de um vasto e complexo império comercial e financeiro na Europa, administrou-o, preservando- -o e ampliando a sua fortuna, apesar dos esforços de reis e outros dirigentes para afastá-la de seu património.

Señora Gracia salvou centenas de marranos da morte e das perseguições. Apesar de seus esforços para estabilizar a economia e a política da comunidade judaica, fracassou. Mesmo assim, foi uma mulher à frente de seu tempo. Tentou agir contra o anti-semitismo, impondo um boicote económico. Tentou construir uma pátria judaica na Palestina, tendo Tiberíades como base.

A señora, a dama, Ha-geveret – em hebraico – marcou de uma maneira indelével a cultura judaica. Sua lembrança foi perpetuada através das inúmeras sinagogas que têm o seu nome, entre elas, uma em Esmirna, El Kal de la Señora, sinagoga que foi muito freqüentada até 1970, sendo gradativamente abandonada até se tornar um galinheiro.

Assim como os outros marranos os Nasi viviam como cristãos devotos em público e praticavam secretamente o judaísmo.

Com 18 anos de idade, Gracia contraiu nupcias com Francisco Mendes, marrano e próspero banqueiro.

Ele e seu irmão Diego, que administrava os negócios em Antuérpia, ajudavam marranos perseguidos pela inquisição a escapar utilizando-se de suas empresas e império financeiro.

Quando a inquisição chegou a Portugal em 1536, Francisco se preparou para unir-se a seu irmão em Antuérpia, porém ficou doente e morreu antes de poder realizar seu plano.

Gracia Nasi Mendes, tinha então 26 anos quando juntamente com sua filha pequena, Reina a jovem, enterrou o seu esposo como cristão e abandonou Lisboa.

Embarcaram além de Gracia e sua filha, sua irmã Reina seus sobrinhos José e Samuel em um dos navios mercantis dos Mendes rumo a Londres, levando a bordo todos os seus pertences.

De Londres a família viajou para os Países Baixos atravessando as rotas ideais para os marranos. Chegaram a salvo em Antuérpia, onde Gracia se uniu com seu cunhado Diego como sócia plena nos negócios, enquanto que sua irmã Reina tornou-se sua esposa. Reina e Diego tiveram uma filha a quem chamaram Gracia a Jovem, pois Gracia e Francisco haviam dado a sua filha o nome Reina a Jovem, em honra a tia.

Durante seis anos, Gracia participou da sociedade aristocrática e do mundo de negócios de Antuérpia e com seu cunhado continuaram ajudando marranos a fugir de Portugal.

Em 1544, quando Reina, a formosa e abastada filha de Gracia tinha 14 anos, foi pedida em casamento pelo ancião Don Francisco de Aragão, nobre católico e membro da realeza. Gracia estava decidida que sua filha se casaria com um judeu.

Em Veneza, Gracia foi denunciada como judaizante por sua irmã Reina, que esperava obter o controle da riqueza da família. Gracia foi sumariamente detida e enviada a prisão, e suas propriedades foram embargadas. Reina também foi denunciada por um agente francês da empresa dos Mendes a quem ela havia subornado, e as jovens Reina e Gracia, foram enviadas a um convento. Uma vez mais, José empregou suas notáveis habilidades diplomáticas para conseguir que o sultão turco exigisse a libertação de Gracia.

Reconciliada com sua irmã e com suas filhas novamente sob sua custódia, a família se mudou para Ferrara. Nesta cidade em 1550, Gracia se despojou de sua identidade cristã e confessou abertamente seu judaísmo. A partir desse momento foi conhecida como Dona Gracia Nasi, em vez de Beatriz de Luna, e intensificou sua ajuda aos emigrantes marranos.

Financiou a publicação da primeira tradução da Bíblia hebraica para o espanhol, assim como outras obras em hebraico, espanhol e português, e participou intensamente dos assuntos da comunidade judaica.

No entanto, o clima de intolerância cristã na Europa se intensificava; além disso, os judeus poderosos eram muito melhor recebidos pelo sultão turco Suleiman, a quem Gracia Nasi lhe era muito grata. Em 1553 transladou-se com sua família e fortuna para Constantinopla, capital do Império Otomano.. As comunidades judaica e marrana da cidade lhe fizeram uma majestosa recepção, pois para esses havia se tornado uma lenda.

Estabeleceu-se em uma imponente mansão nos subúrbios, onde celebrava luxuosas festas, desenvolvia uma ampla actividade beneficente e oferecia comidas grátis a 80 pobres diariamente. O comércio de lã, grãos, especiarias e têxteis no Império turco prosperou tal como havia acontecido na Europa cristã e assim conseguiu continuar suas boas obras como patrona de sábios, academias e sinagogas em Cosntantinopla, Salónica e outros lugares.

Uma das primeiras promessas que cumpriu na Turquia foi a que tinha feito a seu falecido marido: enterrá-lo na Terra de israel. Como a Palestina se encontrava sob o domínio otomano, conseguiu que os restos mortais de seu esposo fossem transportados secretamente de Lisboa e enterrados de novo ao pé do Monte das Oliveiras.

Em 1554, a inquisição alcançou o porto italiano de Ancona, um centro de comércio internacional. Dezenas de marranos, muitos deles mercadores e alguns agentes ou amigos pessoais da família Nasi, foram detidos e torturados. Com a intervenção do sultão, Dona Gracia conseguiu que alguns deles fossem libertados por serem súbditos turcos, mas a maioria permaneceu encarcerada até confessarem seu erro. Vinte e quatro prisioneiros que se recusaram a renegar sua fé morreram na fogueira.

Como represália, Dona Gracia intercedeu por um boicote geral do porto de Ancona por parte da comunidade financeira judaica do Império Otomano, sob pena de excomunhão.

Mesmo tendo muitos rabinos e líderes de comunidade apoiado sua proposta, esta foi rechaçada devido à oposição de Josué Soncino, rabino da Grande Sinagoga de Constantinopla.

Dona Gracia Nasi dirigiu então suas energias a Terra Santa. Havendo passado sua vida transladando-se de um refúgio inseguro a outro, resolveu iniciar a reconstrução do verdadeiro lugar do povo judeu.

Em 1560, com a ajuda de seu sobrinho José, propôs às autoridades de Constantinopla que lhe fosse vendida a concessão de Tiberíades e sete ald~eias adjacentes em troca da receita de impostos além de uma quota anual de mil ducados.

Don José Nasi foi nomeado governador de Tiberíades; seu auxiliar José ibn Adret foi enviado a supervisar a reconstrução da cidade e seus muros. Dona Gracia estabeleceu uma academia que atraiu eruditos e construiu um palacio para si mesma cerca das fontes térmicas de Tiberíades.

José importou ovelhas e amoreiras a fim de produzir lã e criar XXXXX(gusanos) de seda e assim estabelecer a base para uma rentável indústria têxtil na cidade.

Intensamente envolvida em seus numerosos interesses e ocupações, Dona Gracia postergou sua mudança de Cosntantinopla a Tiberíades.

Quando faleceu em 1569 com 59 anos de idade, sua morte causou uma onda de pesar nas comunidades judaicas da Europa e do Império Otomano.

Sua memória está perpetuada em publicações eruditas e foi louvada nas sinagogas, sendo comparada com as grandes heroínas bíblicas. Dona Gracia Nasi "a coroa da glória das mulheres virtuosas" e "o coração de seu povo", é lembrada como a mulher judia mais destacada de sua geração.
Extraído: “Entre Mujeres –Ajdut”

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ave Maria em aramaico

http://youtu.be/XdOPW2FjAPk

Mar Português de Fernando Pessoa

Presunção e água benta… por Pedro Martins



Pedro Martins

Há uns meses, disse a alguém – creio que ao António Carlos Carvalho – que não se me dava em fazer uma aposta: o anunciado Dicionário de Luís de Camões seria olímpico na desconsideração de António Telmo. À imagem do que sucedera com o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português.

Fiz mal em não apostar. Saído a lume no final do ano que passou, o Dicionário não dedica ao filósofo uma só linha das muitas entradas que o compõem. Vítor Aguiar e Silva, que coordenou o pesado volume, comete assim, em última análise, a proeza de ignorar o mais lúcido, audaz e original hermeneuta do príncipe dos poetas portugueses, a quem Telmo, desde a História Secreta de Portugal, consagrou uma parte importante do seu labor especulativo.

Como não é de crer que um tão eminente camonólogo, académico informado e atento, possa desconhecer títulos fundamentais do pensamento filosófico português (e – note-se –da bibliografia passiva camonina) como o Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Filosofia e Kabbalah, Congeminações de um Neopitagórico ou A Aventura Maçónica – Viagens À Volta de um Tapete, Seguido de: Autobiografia e Sobrenatural em Luís de Camões: Onde se revelam alguns segredos guardados n'Os Lusíadas, obra já póstuma, sou forçado a concluir que Aguiar e Silva fez vista grossa a algo que aborrece, não compreende ou simplesmente rejeita. Não por acaso, Sampaio Bruno e Agostinho da Silva, que com Telmo quase definem uma linhagem espiritual e uma tradição interpretativa, são também postos de lado, e Fiama Hasse Pais Brandão, que nos desvelou o cabalismo do Camões cripto-judaico, mal é referida, nos cerca de duzentos artigos do Dicionário.

Certo que Aguiar e Silva não era obrigado a apreciar ou a entender tudo quanto de relevante respeitasse ao poeta. Mas não lhe podia ignorar a existência, devendo dá-lo de empreitada a quem, de alguma sorte, pudesse suprir a sua própria incapacidade. Ou será que as sucessivas, espantosas demonstrações operadas no Desembarque, ou as perplexidades e hipóteses inscritas e anotadas na Autobiografia e Sobrenatural, não são, de todo, importantes, e, por isso, credoras de um módico de atenção dos camonologistas?

Não creio, claro está, que Aguiar e Silva houvesse, para o efeito, de recorrer ao auxílio prestimoso de um seu homólogo tão avisado como António Cândido Franco, universitário arguto, sumamente sensível à subtil insinuação da anagogia, e que, num estudo publicado no terceiro volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, justamente põe a nu a debilidade interpretativa de que enferma o camonismo do professor de Coimbra.

Mas semelhante imperativo deveria sempre ser cumprido, posto que o fosse com o propósito antipático, e que se me antolha baldado, de refutar a poderosa leitura télmica de Luís de Camões. Só assim não seria enganosa a publicidade da Editorial Caminho, que, a propósito, nos promete “um vasto e rico The­saurus da camonís­tica con­tem­porânea”, cujos arti­gos, “da auto­ria dos mais rep­uta­dos camonistas nacionais e estrangeiros, pro­por­cionam ao leitor uma infor­mação abun­dante, rigorosa e atu­al­izada sobre a biografia, a obra lírica, épica, dra­matúr­gica e epis­to­lar de Camões, sobre a sua con­tex­tu­al­iza­ção histórico-literária, sobre os seus prob­le­mas filológi­cos, sobre a influên­cia e a crítica camo­ni­anas nos diver­sos perío­dos da lit­er­atura por­tuguesa e, numa per­spetiva com­para­tista, sobre a receção de Camões nas prin­ci­pais lit­er­at­uras mundi­ais, desde a espan­hola à brasileira e à norte-americana”.

Presunção e água-benta…