A Oresteia, trilogia da qual o Agamémnon é a primeira tragédia, foi pela primeira vez representada em 458 a.C., no festival das Dionísias Urbanas, e ganhou o primeiro prémio.
Cena: Diante do palácio de Argos. A guerra longínqua dura há dez anos. O Coro, um grupo de anciãos, entra em cena. Caminham lentamente, apoiados em bastões. Apreensivos com o exército e o seu rei, Agamémnon, cantam sobre o sucedido à partida no mais longo trecho lírico, e um dos mais belos, de toda a tragédia clássica.
O exército grego reuniu-se em Áulis. Aguardam ventos favoráveis para poderem partir para Tróia. O tempo passa, devorando as provisões, trazendo o ócio, instigando ao motim. Uma estranha visão surge então aos reis: duas águias descem do céu diante deles e devoram uma lebre com a sua ninhada no ventre. O adivinho do exército interpreta a visão como um prodígio enviado pela deusa Ártemis. Isto é o que se segue (vv. 184-249):
Coro
ant. 3
E então o mais velho dos comandantes[1]
.....das naus dos Aqueus,
não recriminando adivinho algum,
conspirou com a sorte que o feria,
enquanto a demora devorava as provisões
.....e oprimia a multidão aqueia,
acampada defronte de Cálcis[2],
nas costas de Áulis, onde a rebentação ruge continuamente;
estr. 4
os ventos que do Estrímon[3] sopravam
um tédio nefasto, a fome, a má ancoragem,
o desvario dos homens, não poupando naus nem amarras,
tornavam a espera duplamente longa,
com o desgaste consumindo
.....a flor dos Argivos; e quando um outro
remédio mais pesado
do que a amarga tempestade o adivinho proferiu
aos primeiros do exército
.....declarando Ártemis responsável, então, batendo com os ceptros
.....no solo, os Atridas
.....não contiveram as lágrimas,
ant. 4
e o mais velho dos chefes ergueu a voz para falar:
«Sorte pesada é não obedecer,
pesada também se esquartejar a minha filha, jóia do meu lar,
manchando as mãos paternas
na corrente do sangue de uma donzela imolada
.....junto ao altar. Qual destas está isenta de mal?
Como me hei-de eu tornar um desertor das naus
falhando para com a aliança?
Pois o sacrifício
.....que acalme os ventos à custa do sangue de uma virgem desejam
.....com desejo extremo, mas proíbe-o
.....a Justiça. Oxalá tudo corra pelo melhor!»
estr. 5
Mas quando a si ajustou o jugo da necessidade,
do espírito soprando um vento de mudança ímpio,
impuro, sacrílego, então
mudou o curso do pensamento para a maior das audácias –
pois torna audazes os mortais a de vergonhosos conselhos,
a miserável demência, princípio da desgraça. E assim ousou
tornar-se o sacrificador
.....da filha como auxílio
.....a uma guerra vingadora de uma mulher
e sacrifício preliminar à partida das naus.
ant. 5
Das súplicas e apelos ao pai
não fizeram caso, nem da virginal idade,
os juízes enamorados pela guerra.
Aos servos o pai, depois da prece, ordenou
que, como uma cabra, sobre o altar
– à que em torno das suas vestes com todo o coração se lançava – inclinada para a frente
a erguessem
.....e que a bela proa da boca
.....selassem como vigia
contra alguma palavra de maldição para a casa
estr. 6
por meio da força de um freio e da violência emudecedora.
Quando já o seu vestido tingido de açafrão pendia para o solo,
de seus olhos lançava ainda a cada um dos sacrificadores um dardo
piedoso, destacando-se como numa pintura, desejando
chamá-los pelo nome, pois outrora muitas vezes
nos hospitaleiros banquetes de seu pai
havia para eles cantado, a virgem que com voz pura a libação
.....terceira[4] do pai
.....amado com um péan[5] amoravelmente honrava.
ant. 6
O que se seguiu não vi nem o vou contar,
mas as artes de Calcas não ficam por cumprir.
Notas:
[1] Agamémnon.
[2] A expedição grega reuniu-se em Áulis, na costa da Beócia. Diante de Áulis, do outro lado do Euripo, ficava a cidade de Cálcis.
[3] Rio da Trácia.
[4] A terceira libação dos banquetes era em honra de Zeus Sôtêr (Salvador), tratava-se de um ritual com o fim de afastar os males e atrair prosperidade.
[5] Em geral, o péan era um hino em louvor de um deus olímpico (normalmente Apolo).





Quem é Alberto de Lacerda?
Perguntarmos, nesta altura de crise geral, sobre a essência de um poeta maior, levar-nos-á a descobrir o que por aí sobra dos seus versos e depois ao salto inevitável até à plataforma segura mas desconhecida da sua singular obra. Não nos deteremos aqui no insípido tratamento em vida do autor, nem no igualmente tasteless tratamento da sua memória que muitos lhe conferiram. Basta dizer que a nossa intenção é puramente prática: neste momento Alberto de Lacerda é um livro. Porque, embora vários e importantes constem na sua bibliografia e outros se desenhem sobre o horizonte crescente, o certo é que o poeta vive hoje somente em dois livros, um deles uma importante evocação do escritor, por Luís Amorim de Sousa, em tudo relevante para o tema em apreço. Contudo, tentemos descobrir quem é agora Alberto de Lacerda a partir do outro livro publicado o ano passado, um volume de poesia original, intitulado O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio & Alvim, 2010).






