segunda-feira, 25 de junho de 2012
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Nota sobre o poeta Sebastião Penedo e 2 poemas
Sebastião Penedo (Alvito,1945 - Lisboa, 2002)
Apareceu morto nas águas o Tejo, há cerca de dez anos. Ninguém sabe se foi suicídio, se foi descuido. Parece o mesmo, bem vistas as coisas. Tinha um problema com o alcoól, com a solidão, com a vida. Nos últimos tempos parecia ter perdido o sentido de tudo. O funeral foi em Alvito, a aldeia manuelina onde nasceu em Novembro de 1945. Disseram-me que vei...o muita gente de Lisboa, amigos das letras, que não esquecem a simplicidade de um homem que não pediu nada e não esperava nada. E que, como se viu, não teve nada. Sobraram pelo menos quatro livros de versos [talvez mais, mas não encontro rasto deles], algumas dezenas de poemas de uma simplicidade por vezes arrebatadora, de um lirismo eólico.
Apenas lhe conheço quatro livrinhos de versos:
Livro de Versos [1969]
Claridade [1973]
Meu Silêncio Amigo [1977]
Sumo Natural [1979]
(Não se sabe se há mais obras publicadas ou a publicar, até ao momento)
Colaboração: NOVA 2 [Outomo, 1976]
MOVIMENTO SIMPLES
Não nos ficam mal estes sentimentos
de simplificar as coisas mais difíceis
descansar um pouco quando nos cansamos
ou mudar a roupa se os ombros pesam
Não nos fica mal uma brincadeira
o inteligente regresso à infância
correr e ladrar com o nosso cão
confiar nos ares dentro da cabeça.
Inventar os outros leves mais felizes
livres e serenos mesmo ao pé da gente
não nos ficam mal estes sentimentos
um pouco de humor - o amor contente.
***
RECOLHIMENTO
A água corria do poço
para os gamelões frescos.
Folha dormideira,
imitava os açudes,
o sossego murmurado da ribeira.
O pastor assobiava,
em cuidado, em sintonia
com os pássaros ajudas.
Embebidos, os animais bebiam.
Apareceu morto nas águas o Tejo, há cerca de dez anos. Ninguém sabe se foi suicídio, se foi descuido. Parece o mesmo, bem vistas as coisas. Tinha um problema com o alcoól, com a solidão, com a vida. Nos últimos tempos parecia ter perdido o sentido de tudo. O funeral foi em Alvito, a aldeia manuelina onde nasceu em Novembro de 1945. Disseram-me que vei...o muita gente de Lisboa, amigos das letras, que não esquecem a simplicidade de um homem que não pediu nada e não esperava nada. E que, como se viu, não teve nada. Sobraram pelo menos quatro livros de versos [talvez mais, mas não encontro rasto deles], algumas dezenas de poemas de uma simplicidade por vezes arrebatadora, de um lirismo eólico.
Apenas lhe conheço quatro livrinhos de versos:
Livro de Versos [1969]
Claridade [1973]
Meu Silêncio Amigo [1977]
Sumo Natural [1979]
(Não se sabe se há mais obras publicadas ou a publicar, até ao momento)
Colaboração: NOVA 2 [Outomo, 1976]
MOVIMENTO SIMPLES
Não nos ficam mal estes sentimentos
de simplificar as coisas mais difíceis
descansar um pouco quando nos cansamos
ou mudar a roupa se os ombros pesam
Não nos fica mal uma brincadeira
o inteligente regresso à infância
correr e ladrar com o nosso cão
confiar nos ares dentro da cabeça.
Inventar os outros leves mais felizes
livres e serenos mesmo ao pé da gente
não nos ficam mal estes sentimentos
um pouco de humor - o amor contente.
***
RECOLHIMENTO
A água corria do poço
para os gamelões frescos.
Folha dormideira,
imitava os açudes,
o sossego murmurado da ribeira.
O pastor assobiava,
em cuidado, em sintonia
com os pássaros ajudas.
Embebidos, os animais bebiam.
domingo, 10 de junho de 2012
Camões «O dia em que nasci moura e pereça»
10 de Junho - dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu!
Ó gente temerosa não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
LUÍS DE CAMÕES
O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu!
Ó gente temerosa não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!
LUÍS DE CAMÕES
Tindersticks, A marriage made in heaven
Tindersticks http://www.youtube.com/watch?v=XMhQIYlFxlM&feature=colike
terça-feira, 5 de junho de 2012
Cesare Pavese "Verrà la morte"
Virá a morte e terá os teus olhos
Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.
trad. de Jorge de Sena
Pirâmides da Bósnia
Pirâmides da Bósnia (site oficial)
a href="http://www.bosnian-pyramid.com" mce_href="http://www.bosnian-pyramid.com" target="_blank">
http://i38.tinypic.com/2njhipu.jpg" mce_src="http://i38.tinypic.com/2njhipu.jpg" alt='Bosnian-Pyramid.com!' border=0 />
a href="http://www.bosnian-pyramid.com" mce_href="http://www.bosnian-pyramid.com" target="_blank">
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Miguel de Castro - Poeta do corpo, do sexo e das mulheres“Escrevo à base de emoção”, confessa Miguel de Castro, o poeta que este sábado (6 de Abril) lança o livro “Os Sonetos”, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (17.30). O autor fixa textos que reflectem “experiências”, de toda uma vida de enamoramento e paixões. “Sou muito ligado à mulher, ao feminino, às coisas do amor e do sexo” , vai contando Miguel de Castro, enquanto despeja açúcar na chávena de café fumegante. A mulher, corrijo, as “mulheres” têm sido a cafeína de uma escrita torrente, desenfreada, por vezes, avassaladora. “Despertei para a poesia com as mulheres”, diz o autor, que encontrou nas "Folhas Caídas" de Almeida Garret o motor de arranque para as conquistas amorosas e abundante produção literária.
“Cada rapariga que namorava fazia-lhe um poema”
, conta, enquanto vai dissolvendo o açúcar na negra beberagem. É o lado
carnal que leva Miguel de Castro a passar para o papel as palavras e as frases
que vai construindo “de cabeça”. “Os Sonetos”, obra apresentada
por Viriato Soromenho Marques e António Cabrita, mantém-se fiel a um longo
percurso do “poeta pagão”, ou “poeta do corpo”
como gosta de se definir.
Miguel de Castro cedo se deu conta que a inspiração o
surpreendia nos momentos mais variados. “Um olhar, um cheiro, um
paladar, qualquer coisa pode desencadear um processo criativo”, relata
o autor. Sempre teve a “mania de ler”, talvez por isso, o pai
nunca se esquecesse de lhe trazer um “mimo” quando se ausentava
em viagem pelo país. Trazia-lhe sempre um “livro de contos, uma
novela”, que devorava com uma tremenda satisfação.
Aos poucos começou a dar-se conta de que as palavras, as frases
se juntavam na “cabeça” com uma facilidade e uma desenvoltura
inquietantes. Já adolescente, Miguel Castro deita o
“desassossego” no papel e, por intermédio de um amigo, é
apresentado a Sebastião da Gama. Já antes, os colegas de trabalho da EDP lhe
reconheciam o “jeito” para a escrita e demonstravam espanto
pela quantidade de poesias que escrevia em papéis avulso. Foi por isso que ficou
também apelidado de “poeta das dúzias”.
Era, na altura, uma “coisa tosca”, um
“campo a desbravar”, recorda.
Confrontado com os versos do poeta auto-didacta, Sebastião da
Gama de imediato atestou a qualidade da escrita – “Ele gostou muito dos
meus versos”, lembra. A partir daí, o poeta da Arrábida que
identificara uma “sensibilidade poética” em Miguel de Castro,
tornou-se um “guia de interesses” e foi “abrindo
portas”. Tornou-se um ritual diário a entrega de “um monte de
poemas” para que Sebastião da Gama orientasse a escrita
“torrencial”.
Em determinado dia havia de passar pela cabeça do autor
arranjar um pseudónimo para dar cara à poesia. Jasmim Rodrigues da Silva não lhe
parecia “nome de guerra”, daí que tenha sugerido a Sebastião da
Gama um nome invulgar - Jarosil Claus. O autor explica: “Já retirado a
Jasmin, Ro de Rodrigues e Sil emprestado a Silva”. Então como surge o
apelido Claus? O autor justifica-se dizendo que se tratava do nome de um
“sabonete que havia no Porto”. A proposta não passou no crivo
de Sebastião da Gama que logo lhe disse “o homem passou-se da
cabeça”. O mesmo Sebastião ditou que “Jarosil jamais, serás
Miguel de Castro”. E assim ficou!
Agora que do café sobra um contorno vago no bordo da chávena, e
cristais de açúcar lá no fundo, Miguel de Castro reconhece que tudo começou como
uma “brincadeira” mas havia de se consolidar. Na essência,
continua a ser o mesmo “lamechas”, “pinga-amor”, “lacrimejante”,
como todos os poetas. Falta acrescentar, “namoradeiro”
das palavras e dos afectos que continua a prender em forma de verso ou de sonata
– “Tenho-os todos na cabeça”, diz.
Todos, não acredito, disse de imediato, em tom de provocação.
Miguel de Castro afasta o boné, alisa o cabelo grisalho e destapa a memória –
“Este escrevi tinha 19 anos: Hoje é sábado / Tenho dinheiro, cigarros e
alegria / Tenho sonhos orgíacos e delírios! / Não há ninguém mais feliz do que
eu / Tenho vinho, música, mulheres, / Céus, astros e luas. / Hoje vou deambular
pelas ruas, / Cantar serenatas, / Arriscar a vida por nada / Morrer, sem glória,
em qualquer luta! / Ou, então, quando vier a madrugada, / Dar o braço a uma
prostituta, / E bêbado, / Aos tombos, / A granel, / Dormir um sono profundo, /
No bordel”.
Livros editados
Fruto Verde, 1950
Mansarda, 1953 Terral, 1990 A Sinfonia do Cú, 1990 Os Sonetos, 2002 |
| Ricardo Nunes - 05-04-2002http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=3119 |
segunda-feira, 7 de maio de 2012
Iniciação
Fernando Pessoa
Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
... E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
... E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.
The Tiger - de William Blake
Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
... Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?
What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
------------------------------ ------------------
"O tigre"
(Tradução de Adriano Nunes)
Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?
Em quais abismos ou céus
Queima o fogo d'olhos teus?
Com que asas ousou se alçar?
Que mão tal fogo ousou pegar?
E qual ombro, & quais artes
Torceram do teu peito as partes?
E ao bater do coração,
Que terríveis pé ou mão?
Que martelo? Que corrente?
Que forno fez tua mente?
Que bigorna? Impulso qual
Forjou teu horror letal?
Quand' astros lançam raios seus,
Cobrindo de pranto os céus,
Sorriu por tal obra ver?
Quem te fez, a ovelha fez viver?
Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?
Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
... Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?
What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?
------------------------------
"O tigre"
(Tradução de Adriano Nunes)
Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?
Em quais abismos ou céus
Queima o fogo d'olhos teus?
Com que asas ousou se alçar?
Que mão tal fogo ousou pegar?
E qual ombro, & quais artes
Torceram do teu peito as partes?
E ao bater do coração,
Que terríveis pé ou mão?
Que martelo? Que corrente?
Que forno fez tua mente?
Que bigorna? Impulso qual
Forjou teu horror letal?
Quand' astros lançam raios seus,
Cobrindo de pranto os céus,
Sorriu por tal obra ver?
Quem te fez, a ovelha fez viver?
Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?
quinta-feira, 5 de abril de 2012
ÉSQUILO "Oresteia" a morte de Ifigénia
Agamémnon: a morte de Ifigénia
A Oresteia, trilogia da qual o Agamémnon é a primeira tragédia, foi pela primeira vez representada em 458 a.C., no festival das Dionísias Urbanas, e ganhou o primeiro prémio.
A Oresteia, trilogia da qual o Agamémnon é a primeira tragédia, foi pela primeira vez representada em 458 a.C., no festival das Dionísias Urbanas, e ganhou o primeiro prémio.
Cena: Diante do palácio de Argos. A guerra longínqua dura há dez anos. O Coro, um grupo de anciãos, entra em cena. Caminham lentamente, apoiados em bastões. Apreensivos com o exército e o seu rei, Agamémnon, cantam sobre o sucedido à partida no mais longo trecho lírico, e um dos mais belos, de toda a tragédia clássica.
O exército grego reuniu-se em Áulis. Aguardam ventos favoráveis para poderem partir para Tróia. O tempo passa, devorando as provisões, trazendo o ócio, instigando ao motim. Uma estranha visão surge então aos reis: duas águias descem do céu diante deles e devoram uma lebre com a sua ninhada no ventre. O adivinho do exército interpreta a visão como um prodígio enviado pela deusa Ártemis. Isto é o que se segue (vv. 184-249):
Coro
ant. 3
E então o mais velho dos comandantes[1]
.....das naus dos Aqueus,
não recriminando adivinho algum,
conspirou com a sorte que o feria,
enquanto a demora devorava as provisões
.....e oprimia a multidão aqueia,
acampada defronte de Cálcis[2],
nas costas de Áulis, onde a rebentação ruge continuamente;
estr. 4
os ventos que do Estrímon[3] sopravam
um tédio nefasto, a fome, a má ancoragem,
o desvario dos homens, não poupando naus nem amarras,
tornavam a espera duplamente longa,
com o desgaste consumindo
.....a flor dos Argivos; e quando um outro
remédio mais pesado
do que a amarga tempestade o adivinho proferiu
aos primeiros do exército
.....declarando Ártemis responsável, então, batendo com os ceptros
.....no solo, os Atridas
.....não contiveram as lágrimas,
ant. 4
e o mais velho dos chefes ergueu a voz para falar:
«Sorte pesada é não obedecer,
pesada também se esquartejar a minha filha, jóia do meu lar,
manchando as mãos paternas
na corrente do sangue de uma donzela imolada
.....junto ao altar. Qual destas está isenta de mal?
Como me hei-de eu tornar um desertor das naus
falhando para com a aliança?
Pois o sacrifício
.....que acalme os ventos à custa do sangue de uma virgem desejam
.....com desejo extremo, mas proíbe-o
.....a Justiça. Oxalá tudo corra pelo melhor!»
estr. 5
Mas quando a si ajustou o jugo da necessidade,
do espírito soprando um vento de mudança ímpio,
impuro, sacrílego, então
mudou o curso do pensamento para a maior das audácias –
pois torna audazes os mortais a de vergonhosos conselhos,
a miserável demência, princípio da desgraça. E assim ousou
tornar-se o sacrificador
.....da filha como auxílio
.....a uma guerra vingadora de uma mulher
e sacrifício preliminar à partida das naus.
ant. 5
Das súplicas e apelos ao pai
não fizeram caso, nem da virginal idade,
os juízes enamorados pela guerra.
Aos servos o pai, depois da prece, ordenou
que, como uma cabra, sobre o altar
– à que em torno das suas vestes com todo o coração se lançava – inclinada para a frente
a erguessem
.....e que a bela proa da boca
.....selassem como vigia
contra alguma palavra de maldição para a casa
estr. 6
por meio da força de um freio e da violência emudecedora.
Quando já o seu vestido tingido de açafrão pendia para o solo,
de seus olhos lançava ainda a cada um dos sacrificadores um dardo
piedoso, destacando-se como numa pintura, desejando
chamá-los pelo nome, pois outrora muitas vezes
nos hospitaleiros banquetes de seu pai
havia para eles cantado, a virgem que com voz pura a libação
.....terceira[4] do pai
.....amado com um péan[5] amoravelmente honrava.
ant. 6
O que se seguiu não vi nem o vou contar,
mas as artes de Calcas não ficam por cumprir.
Notas:
[1] Agamémnon.
[2] A expedição grega reuniu-se em Áulis, na costa da Beócia. Diante de Áulis, do outro lado do Euripo, ficava a cidade de Cálcis.
[3] Rio da Trácia.
[4] A terceira libação dos banquetes era em honra de Zeus Sôtêr (Salvador), tratava-se de um ritual com o fim de afastar os males e atrair prosperidade.
[5] Em geral, o péan era um hino em louvor de um deus olímpico (normalmente Apolo).
PEDRA - Charles Simic
Charles Simic
Michiel Sweerts, Rapaz de Turbante
PEDRA
Entrar dentro de uma pedra
Seria esse o meu caminho.
Deixar outrem tornar-se pombo
Ou rilhar com dentes de tigre.
Sou feliz por ser uma pedra.
Por fora, a pedra é um enigma:
Ninguém sabe como o desvendar.
Dentro, porém, deve ser fresca e silenciosa
Mesmo que uma vaca a calque com todo o seu volume,
Mesmo que uma criança a atire para um rio;
A pedra afunda-se, lenta, imperturbavelmente
Até ao fundo do leito
Onde os peixes vêm bater na pedra
E escutar.
Eu vi as faíscas voando
Quando duas pedras são friccionadas,
Talvez então não seja escuro, apesar de tudo, lá dentro;
Talvez exista uma lua brilhando
Desde algures, como se por trás de uma colina –
Apenas a luz suficiente para distinguir
Os estranhos escritos, as cartas astrais
Nas paredes de dentro.
(1971)
Michiel Sweerts, Rapaz de Turbante
PEDRA
Entrar dentro de uma pedra
Seria esse o meu caminho.
Deixar outrem tornar-se pombo
Ou rilhar com dentes de tigre.
Sou feliz por ser uma pedra.
Por fora, a pedra é um enigma:
Ninguém sabe como o desvendar.
Dentro, porém, deve ser fresca e silenciosa
Mesmo que uma vaca a calque com todo o seu volume,
Mesmo que uma criança a atire para um rio;
A pedra afunda-se, lenta, imperturbavelmente
Até ao fundo do leito
Onde os peixes vêm bater na pedra
E escutar.
Eu vi as faíscas voando
Quando duas pedras são friccionadas,
Talvez então não seja escuro, apesar de tudo, lá dentro;
Talvez exista uma lua brilhando
Desde algures, como se por trás de uma colina –
Apenas a luz suficiente para distinguir
Os estranhos escritos, as cartas astrais
Nas paredes de dentro.
(1971)
quinta-feira, 15 de março de 2012
pequena biografia + poema de Carlos Queirós
Carlos Queirós
Nasceu em 1907, em Paris.
Poeta, ensaísta, crítico literário e de arte, estudou Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se funcionário da Emissora Nacional, onde organizou programas culturais. Assíduo colaborador da Presença e de outras publicações literárias, foi considerado um elo de ligação entre a geração presencista e a de Orpheu.
Considerado um discípulo directo de Fernando Pessoa, a sua poesia caracteriza-se pela perfeição formal, pelo equilíbrio e sobriedade e pela sugestão musical. Denuncia alguma herança romântica e certa aproximação ao simbolismo.
Morreu em 1949, em Paris.Algumas obras:
Desaparecido (1935)
Breve Tratado da Não-Versificação (1948)
Desaparecido e outros Poemas (1957)
ProsaHomenagem a Fernando Pessoa (1936)
APELO À POESIA
Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!
Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!
É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!
De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!
Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento...
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!
Óssip Mandelstam - Epigrama de Stalin
Este poema anti-stalinista levou à prisão do autor em 1934.
Nós vivemos, mas não sentimos a terra com os pés
Dez passos andando e não podemos ouvir,
E quando há dois suficientes para metade de um diálogo
Eles se lembram do alpinista do Kremlin.
Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,
E suas palavras são absolutos, como medidas de merceiros.
Suas antenas de barata estão rindo,
E sua bota nova brilha.
E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto -
Ele brinca com os serviços de meio-homem.
Quem gorjeia, mia ou geme,
Ele sozinho empurra e pica.
Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto
Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho.
Quando há uma execução, há tratamento especial,
E o peito ossétio se infla.
Dez passos andando e não podemos ouvir,
E quando há dois suficientes para metade de um diálogo
Eles se lembram do alpinista do Kremlin.
Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,
E suas palavras são absolutos, como medidas de merceiros.
Suas antenas de barata estão rindo,
E sua bota nova brilha.
E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto -
Ele brinca com os serviços de meio-homem.
Quem gorjeia, mia ou geme,
Ele sozinho empurra e pica.
Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto
Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho.
Quando há uma execução, há tratamento especial,
E o peito ossétio se infla.
- Novembro de 1933
Subscrever:
Mensagens (Atom)


.jpg)








