domingo, 15 de julho de 2012

Fica aqui a referência ao livro de Frances A. Yates, Giordano Bruno e a Tradição Hermética (trad. brasileira de Yolanda Toledo), ed. Cultrix, São Paulo e que pode ser encontrada aqui:
http://pt.scribd.com/doc/89398950/13/Giordano-Bruno-e-a-cabala#outer_page_6

Eis o portal dedicado a Giordano Bruno   (em italiano):
http://giordanobruno.filosofia.sns.it/index.php?id=716

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Благодать.mpg - maravilhosa simplicidade\

Nota sobre o poeta Sebastião Penedo e 2 poemas

Sebastião Penedo (Alvito,1945 - Lisboa, 2002)

Apareceu morto nas águas o Tejo, há cerca de dez anos. Ninguém sabe se foi suicídio, se foi descuido. Parece o mesmo, bem vistas as coisas. Tinha um problema com o alcoól, com a solidão, com a vida. Nos últimos tempos parecia ter perdido o sentido de tudo. O funeral foi em Alvito, a aldeia manuelina onde nasceu em Novembro de 1945. Disseram-me que vei...o muita gente de Lisboa, amigos das letras, que não esquecem a simplicidade de um homem que não pediu nada e não esperava nada. E que, como se viu, não teve nada. Sobraram pelo menos quatro livros de versos [talvez mais, mas não encontro rasto deles], algumas dezenas de poemas de uma simplicidade por vezes arrebatadora, de um lirismo eólico.

Apenas lhe conheço quatro livrinhos de versos:
Livro de Versos [1969]
Claridade [1973]
Meu Silêncio Amigo [1977]
Sumo Natural [1979]
(Não se sabe se há mais obras publicadas ou a publicar, até ao momento)
Colaboração: NOVA 2 [Outomo, 1976]

MOVIMENTO SIMPLES
Não nos ficam mal estes sentimentos
de simplificar as coisas mais difíceis
descansar um pouco quando nos cansamos
ou mudar a roupa se os ombros pesam

Não nos fica mal uma brincadeira
o inteligente regresso à infância
correr e ladrar com o nosso cão
confiar nos ares dentro da cabeça.

Inventar os outros leves mais felizes
livres e serenos mesmo ao pé da gente
não nos ficam mal estes sentimentos
um pouco de humor - o amor contente.

***

RECOLHIMENTO
A água corria do poço
para os gamelões frescos.

Folha dormideira,
imitava os açudes,
o sossego murmurado da ribeira.

O pastor assobiava,
em cuidado, em sintonia
com os pássaros ajudas.

Embebidos, os animais bebiam.

domingo, 10 de junho de 2012

                    Medjugorje - Milagre do Sol - maio de 2010 (1)


Camões «O dia em que nasci moura e pereça»

10 de Junho - dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas

O dia em que nasci moura e pereça,
Não o queira jamais o tempo dar;
Não torne mais ao mundo, e se tornar,
Eclipse nesse passo o Sol padeça.


A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
Mostre o mundo sinais de se acabar,
Nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
A mãe ao próprio filho não conheça.


As pessoas pasmadas, de ignorantes,
As lágrimas no rosto, a cor perdida,
Cuidem que o mundo já se destruiu!


Ó gente temerosa não te espantes,
Que este dia deitou ao mundo a vida
Mais desgraçada que jamais se viu!

                                                                 LUÍS DE CAMÕES
                               
                         

Tindersticks, A marriage made in heaven


                           Tindersticks  http://www.youtube.com/watch?v=XMhQIYlFxlM&feature=colike

terça-feira, 5 de junho de 2012

Cesare Pavese "Verrà la morte"


Virá a morte e terá os teus olhos
Virá a morte e terá os teus olhos
esta morte que nos acompanha
da manhã à noite, insone,
surda, como um velho remorso
ou um vício absurdo. Os teus olhos
serão uma palavra vã,
um grito emudecido, um silêncio.
Assim os vejo todas as manhãs
quando sobre ti te inclinas
ao espelho. Ó cara esperança,
nesse dia saberemos também nós,
que és a vida e és o nada.
Para todos a morte tem um olhar.
Virá a morte e terá os teus olhos.
Será como deixar um vício,
como ver no espelho
re-emergir um rosto morto,
como ouvir lábios cerrados.
Desceremos ao vórtice mudo.
 
   trad. de Jorge de Sena
 
 
 

Xancra (Cuba)

Uma descoberta arqueológica em Xancra, Cuba, Baixo Alentejo

Pirâmides da Bósnia

Pirâmides da Bósnia (site oficial)

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sexta-feira, 11 de maio de 2012

                                                      george scholz «cacti and semaphore»

Miguel de Castro - Poeta do corpo, do sexo e das mulheres



“Escrevo à base de emoção”, confessa Miguel de Castro, o poeta que este sábado (6 de Abril) lança o livro “Os Sonetos”, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (17.30). O autor fixa textos que reflectem “experiências”, de toda uma vida de enamoramento e paixões.

“Sou muito ligado à mulher, ao feminino, às coisas do amor e do sexo” , vai contando Miguel de Castro, enquanto despeja açúcar na chávena de café fumegante. A mulher, corrijo, as “mulheres” têm sido a cafeína de uma escrita torrente, desenfreada, por vezes, avassaladora. “Despertei para a poesia com as mulheres”, diz o autor, que encontrou nas "Folhas Caídas" de Almeida Garret o motor de arranque para as conquistas amorosas e abundante produção literária.
“Cada rapariga que namorava fazia-lhe um poema” , conta, enquanto vai dissolvendo o açúcar na negra beberagem. É o lado carnal que leva Miguel de Castro a passar para o papel as palavras e as frases que vai construindo “de cabeça”. “Os Sonetos”, obra apresentada por Viriato Soromenho Marques e António Cabrita, mantém-se fiel a um longo percurso do “poeta pagão”, ou “poeta do corpo” como gosta de se definir.
Miguel de Castro cedo se deu conta que a inspiração o surpreendia nos momentos mais variados. “Um olhar, um cheiro, um paladar, qualquer coisa pode desencadear um processo criativo”, relata o autor. Sempre teve a “mania de ler”, talvez por isso, o pai nunca se esquecesse de lhe trazer um “mimo” quando se ausentava em viagem pelo país. Trazia-lhe sempre um “livro de contos, uma novela”, que devorava com uma tremenda satisfação.
Aos poucos começou a dar-se conta de que as palavras, as frases se juntavam na “cabeça” com uma facilidade e uma desenvoltura inquietantes. Já adolescente, Miguel Castro deita o “desassossego” no papel e, por intermédio de um amigo, é apresentado a Sebastião da Gama. Já antes, os colegas de trabalho da EDP lhe reconheciam o “jeito” para a escrita e demonstravam espanto pela quantidade de poesias que escrevia em papéis avulso. Foi por isso que ficou também apelidado de “poeta das dúzias”.
Era, na altura, uma “coisa tosca”, um “campo a desbravar”, recorda.
Confrontado com os versos do poeta auto-didacta, Sebastião da Gama de imediato atestou a qualidade da escrita – “Ele gostou muito dos meus versos”, lembra. A partir daí, o poeta da Arrábida que identificara uma “sensibilidade poética” em Miguel de Castro, tornou-se um “guia de interesses” e foi “abrindo portas”. Tornou-se um ritual diário a entrega de “um monte de poemas” para que Sebastião da Gama orientasse a escrita “torrencial”.
Em determinado dia havia de passar pela cabeça do autor arranjar um pseudónimo para dar cara à poesia. Jasmim Rodrigues da Silva não lhe parecia “nome de guerra”, daí que tenha sugerido a Sebastião da Gama um nome invulgar - Jarosil Claus. O autor explica: “Já retirado a Jasmin, Ro de Rodrigues e Sil emprestado a Silva”. Então como surge o apelido Claus? O autor justifica-se dizendo que se tratava do nome de um “sabonete que havia no Porto”. A proposta não passou no crivo de Sebastião da Gama que logo lhe disse “o homem passou-se da cabeça”. O mesmo Sebastião ditou que “Jarosil jamais, serás Miguel de Castro”. E assim ficou!
Agora que do café sobra um contorno vago no bordo da chávena, e cristais de açúcar lá no fundo, Miguel de Castro reconhece que tudo começou como uma “brincadeira” mas havia de se consolidar. Na essência, continua a ser o mesmo “lamechas”, “pinga-amor”, “lacrimejante”, como todos os poetas. Falta acrescentar, “namoradeiro” das palavras e dos afectos que continua a prender em forma de verso ou de sonata – “Tenho-os todos na cabeça”, diz.
Todos, não acredito, disse de imediato, em tom de provocação. Miguel de Castro afasta o boné, alisa o cabelo grisalho e destapa a memória – “Este escrevi tinha 19 anos: Hoje é sábado / Tenho dinheiro, cigarros e alegria / Tenho sonhos orgíacos e delírios! / Não há ninguém mais feliz do que eu / Tenho vinho, música, mulheres, / Céus, astros e luas. / Hoje vou deambular pelas ruas, / Cantar serenatas, / Arriscar a vida por nada / Morrer, sem glória, em qualquer luta! / Ou, então, quando vier a madrugada, / Dar o braço a uma prostituta, / E bêbado, / Aos tombos, / A granel, / Dormir um sono profundo, / No bordel”.
Livros editados
Fruto Verde, 1950
Mansarda, 1953
Terral, 1990
A Sinfonia do Cú, 1990
Os Sonetos, 2002
Ricardo Nunes - 05-04-2002http://www.setubalnarede.pt/content/index.php?action=articlesDetailFo&rec=3119

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Iniciação

Fernando Pessoa      

Não dormes sob os ciprestes,
Pois não há sono no mundo.
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
... E a sombra acabou sem ser.
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
Neófito, não há morte.
The Tiger - de William Blake

Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
... Could frame thy fearful symmetry?
In what distant deeps or skies
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand dare seize the fire?
And what shoulder, and what art,
Could twist the sinews of thy heart?
When thy heart began to beat,
What dread hand forged thy dread feet?
What the hammer? What the chain?
In what furnace was thy brain?
What the anvil? What dread grasp
Dared its deadly terrors clasp?
When the stars threw down their spears
And watered heaven with their tears,
Did He smile his work to see?
Did He who made the lamb make thee?
Tiger, tiger, burning bright,
In the forest of the night,
What immortal hand or eye
Dare frame thy fearful symmetry?

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"O tigre"
(Tradução de Adriano Nunes)

Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?

Em quais abismos ou céus
Queima o fogo d'olhos teus?
Com que asas ousou se alçar?
Que mão tal fogo ousou pegar?

E qual ombro, & quais artes
Torceram do teu peito as partes?
E ao bater do coração,
Que terríveis pé ou mão?

Que martelo? Que corrente?
Que forno fez tua mente?
Que bigorna? Impulso qual
Forjou teu horror letal?

Quand' astros lançam raios seus,
Cobrindo de pranto os céus,
Sorriu por tal obra ver?
Quem te fez, a ovelha fez viver?

Tigre! Tigre! Grã clarão
Nas selvas da escuridão,
Qu' olho ou mão imortal v'ria
Criar tua horrível simetria?

Life on mars? Mars Rover Opportunity finds some of the necessary conditions once existed

Life on mars? Mars Rover Opportunity finds some of the necessary conditions once existed

quinta-feira, 5 de abril de 2012

ÉSQUILO "Oresteia" a morte de Ifigénia

Agamémnon: a morte de Ifigénia

A Oresteia, trilogia da qual o Agamémnon é a primeira tragédia, foi pela primeira vez representada em 458 a.C., no festival das Dionísias Urbanas, e ganhou o primeiro prémio.
Cena: Diante do palácio de Argos. A guerra longínqua dura há dez anos. O Coro, um grupo de anciãos, entra em cena. Caminham lentamente, apoiados em bastões. Apreensivos com o exército e o seu rei, Agamémnon, cantam sobre o sucedido à partida no mais longo trecho lírico, e um dos mais belos, de toda a tragédia clássica.
O exército grego reuniu-se em Áulis. Aguardam ventos favoráveis para poderem partir para Tróia. O tempo passa, devorando as provisões, trazendo o ócio, instigando ao motim. Uma estranha visão surge então aos reis: duas águias descem do céu diante deles e devoram uma lebre com a sua ninhada no ventre. O adivinho do exército interpreta a visão como um prodígio enviado pela deusa Ártemis. Isto é o que se segue (vv. 184-249):

Coro
ant. 3
E então o mais velho dos comandantes[1]
.....das naus dos Aqueus,
não recriminando adivinho algum,
conspirou com a sorte que o feria,
enquanto a demora devorava as provisões
.....e oprimia a multidão aqueia,
acampada defronte de Cálcis[2],
nas costas de Áulis, onde a rebentação ruge continuamente;

estr. 4
os ventos que do Estrímon[3] sopravam
um tédio nefasto, a fome, a má ancoragem,
o desvario dos homens, não poupando naus nem amarras,
tornavam a espera duplamente longa,
com o desgaste consumindo
.....a flor dos Argivos; e quando um outro
remédio mais pesado
do que a amarga tempestade o adivinho proferiu
aos primeiros do exército
.....declarando Ártemis responsável, então, batendo com os ceptros
.....no solo, os Atridas
.....não contiveram as lágrimas,

ant. 4
e o mais velho dos chefes ergueu a voz para falar:
«Sorte pesada é não obedecer,
pesada também se esquartejar a minha filha, jóia do meu lar,
manchando as mãos paternas
na corrente do sangue de uma donzela imolada
.....junto ao altar. Qual destas está isenta de mal?
Como me hei-de eu tornar um desertor das naus
falhando para com a aliança?
Pois o sacrifício
.....que acalme os ventos à custa do sangue de uma virgem desejam
.....com desejo extremo, mas proíbe-o
.....a Justiça. Oxalá tudo corra pelo melhor!»

estr. 5
Mas quando a si ajustou o jugo da necessidade,
do espírito soprando um vento de mudança ímpio,
impuro, sacrílego, então
mudou o curso do pensamento para a maior das audácias –
pois torna audazes os mortais a de vergonhosos conselhos,
a miserável demência, princípio da desgraça. E assim ousou
tornar-se o sacrificador
.....da filha como auxílio
.....a uma guerra vingadora de uma mulher
e sacrifício preliminar à partida das naus.

ant. 5
Das súplicas e apelos ao pai
não fizeram caso, nem da virginal idade,
os juízes enamorados pela guerra.
Aos servos o pai, depois da prece, ordenou
que, como uma cabra, sobre o altar
– à que em torno das suas vestes com todo o coração se lançava – inclinada para a frente
a erguessem
.....e que a bela proa da boca
.....selassem como vigia
contra alguma palavra de maldição para a casa

estr. 6
por meio da força de um freio e da violência emudecedora.
Quando já o seu vestido tingido de açafrão pendia para o solo,
de seus olhos lançava ainda a cada um dos sacrificadores um dardo
piedoso, destacando-se como numa pintura, desejando
chamá-los pelo nome, pois outrora muitas vezes
nos hospitaleiros banquetes de seu pai
havia para eles cantado, a virgem que com voz pura a libação
.....terceira[4] do pai
.....amado com um péan[5] amoravelmente honrava.

ant. 6
O que se seguiu não vi nem o vou contar,
mas as artes de Calcas não ficam por cumprir.

 
Notas:
[1] Agamémnon.
[2] A expedição grega reuniu-se em Áulis, na costa da Beócia. Diante de Áulis, do outro lado do Euripo, ficava a cidade de Cálcis.
[3] Rio da Trácia.
[4] A terceira libação dos banquetes era em honra de Zeus Sôtêr (Salvador), tratava-se de um ritual com o fim de afastar os males e atrair prosperidade.
 
 
 
[5] Em geral, o péan era um hino em louvor de um deus olímpico (normalmente Apolo).

PEDRA - Charles Simic

Charles Simic
                                                         Michiel Sweerts, Rapaz de Turbante

PEDRA
Entrar dentro de uma pedra
Seria esse o meu caminho.
Deixar outrem tornar-se pombo
Ou rilhar com dentes de tigre.
Sou feliz por ser uma pedra.

Por fora, a pedra é um enigma:
Ninguém sabe como o desvendar.
Dentro, porém, deve ser fresca e silenciosa
Mesmo que uma vaca a calque com todo o seu volume,
Mesmo que uma criança a atire para um rio;
A pedra afunda-se, lenta, imperturbavelmente
Até ao fundo do leito
Onde os peixes vêm bater na pedra
E escutar.

Eu vi as faíscas voando
Quando duas pedras são friccionadas,
Talvez então não seja escuro, apesar de tudo, lá dentro;
Talvez exista uma lua brilhando
Desde algures, como se por trás de uma colina –
Apenas a luz suficiente para distinguir
Os estranhos escritos, as cartas astrais
Nas paredes de dentro.

(1971)

quinta-feira, 15 de março de 2012

pequena biografia + poema de Carlos Queirós



                                                             Carlos Queirós


Nasceu em 1907, em Paris.

Poeta, ensaísta, crítico literário e de arte, estudou Direito na Universidade de Coimbra, tornando-se funcionário da Emissora Nacional, onde organizou programas culturais. Assíduo colaborador da Presença e de outras publicações literárias, foi considerado um elo de ligação entre a geração presencista e a de Orpheu.

Considerado um discípulo directo de Fernando Pessoa, a sua poesia caracteriza-se pela perfeição formal, pelo equilíbrio e sobriedade e pela sugestão musical. Denuncia alguma herança romântica e certa aproximação ao simbolismo.
Morreu em 1949, em Paris.
Algumas obras:

Poesia


Desaparecido (1935)

Breve Tratado da Não-Versificação (1948)

Desaparecido e outros Poemas (1957)

ProsaHomenagem a Fernando Pessoa (1936)



APELO À POESIA

Porque vieste? - Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta...)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança...
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar...
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento...
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!







Óssip Mandelstam - Epigrama de Stalin

Este poema anti-stalinista levou à prisão do autor em 1934.

Mandelstam Stalin Epigram-c.jpg

Nós vivemos, mas não sentimos a terra com os pés
Dez passos andando e não podemos ouvir,

E quando há dois suficientes para metade de um diálogo
Eles se lembram do alpinista do Kremlin.

Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,
E suas palavras são absolutos, como medidas de merceiros.

Suas antenas de barata estão rindo,
E sua bota nova brilha.

E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto -
Ele brinca com os serviços de meio-homem.

Quem gorjeia, mia ou geme,
Ele sozinho empurra e pica.

Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto
Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho.

Quando há uma execução, há tratamento especial,
E o peito ossétio se infla.

Novembro de 1933

Silvae de João Queiroz e frase de Valéry Larbaud



"A arte é ainda a única forma suportável da vida; é o maior prazer, e o que se esgota menos depressa."
Valéry Larbaud

sexta-feira, 2 de março de 2012

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

in: http://www.orgialiteraria.org/2011/04/o-pajem-formidavel-dos-indicios-alberto_19.html
 
Quem é Alberto de Lacerda?

Por vezes devíamos falar dos poetas num eterno presente. Não por motivos de canhestra apresentação ocular, ou sequer por uma redutora explanação para informação dos aflitos, mas porque há sensibilidades e vozes que exigem a própria existência para lá das dificuldades lineares do Tempo.

Perguntarmos, nesta altura de crise geral, sobre a essência de um poeta maior, levar-nos-á a descobrir o que por aí sobra dos seus versos e depois ao salto inevitável até à plataforma segura mas desconhecida da sua singular obra. Não nos deteremos aqui no insípido tratamento em vida do autor, nem no igualmente tasteless tratamento da sua memória que muitos lhe conferiram. Basta dizer que a nossa intenção é puramente prática: neste momento Alberto de Lacerda é um livro. Porque, embora vários e importantes constem na sua bibliografia e outros se desenhem sobre o horizonte crescente, o certo é que o poeta vive hoje somente em dois livros, um deles uma importante evocação do escritor, por Luís Amorim de Sousa, em tudo relevante para o tema em apreço. Contudo, tentemos descobrir quem é agora Alberto de Lacerda a partir do outro livro publicado o ano passado, um volume de poesia original, intitulado O Pajem Formidável dos Indícios (Assírio & Alvim, 2010).

Esta edição de um primeiro volume do que se anuncia como uma das mais vibrantes colectâneas de originais post mortem das últimas décadas da poesia portuguesa é obra de um poeta em sentido lato, algo que irá das suas vivências entre Boston e Londres, dos caminhos felizes que esta escrita fisicamente percorreu Londres-Lisboa aos que temporalmente viveram entre os idos 1995 e 1997 até aos leitores de hoje.
São poemas que não escondem nada mas apontam muito, no sentido mais zen que se possa pensar quanto ao gesto. A partir das palavras e versos que os compõem, chega-se a um lugar novo se olharmos com os cegos olhos de dentro.

Põe-se a pergunta de se a "secura substantiva" de Alberto de Lacerda em O Pajem… será decorrente da sua condição de exilado (geográfico, político, social, económico, sexual, etc.), da paixão sempre confessada e exercida pela pintura, da longa vivência entre anglófonos ou, no caso deste livro em concreto, de uma plácida aceitação da velhice. E a resposta dá-se em parte lendo toda a obra, para a qual alegremente vai quem ler esta obra póstuma, o que me parece ser a mais nobre virtude de um tomo e de um problema deste tipo. Há algo de pungente em observar a vida de um livro após a morte de um autor. O branco da capa desta edição da Assírio & Alvim toma assim um sabor oriental, a que até o pormenor do título a vermelho confere sensação. Indícios.

Alberto de Lacerda deixou-nos razoavelmente preparados para publicação alguns livros de poesia, de entre os quais este Pajem... é o primeiro a ser dado à estampa, bem como imensos dispersos (reputadamente mais mil poemas inéditos). Sentimo-nos algo descansados pelo facto de o espólio estar entregue a uma instituição de eleição, a Fundação Mário Soares, e pelo seu amigo Luís Amorim de Sousa a quem poderemos continuar a agradecer a organização de tão importante obra.

por n. fonseca
O Pajem Formidável dos Indícios
Alberto de Lacerda
Assírio & Alvim
2010

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Joana d'Arc faz 600 anos (1412-2012)


A guerreira que era orientada por vozes de santos, foi uma das mulheres mais fortes que o mundo já conheceu. Nasceu em 1412, na França. Ao completar 13 anos passou a ouvir vozes de santos. Com os conselhos das vozes santas decidiu que iria coroar o Rei. Em julho de 1429, Carlos recebeu a coroa de rei na Catedral de Notre-Dame de Reims. Com isso, Joana havia atingido seu objectivo maior, só que sua ambição militar falou mais alto. Partiu para Paris a fim de expulsar os ingleses, foi derrotada, seus soldados partiram em retirada, mas seu espírito guerreiro resistiu. Joana foi capturada, tentou escapar de ambas as prisões, mas não obteve êxito. Em 1430, foi levada a julgamento no tribunal inglês, sendo este conduzido pelo bispo de Beauvais, Pierre Cauchon. Todas as acusações eram de ordem religiosa: bruxa, herege, idólatra, entre outras. O Martírio durou seis meses e sua sentença foi ser queimada viva.
Cumpriu-se então a sentença, Joana foi queimada viva em uma fogueira aos 19 anos de idade.
Foi canonizada no ano de 1920.
É um exemplo para todos, de coragem, determinação, inspiração divina, santidade e heroísmo. O nome desta rapariguinha que morreu aos 19 anos, perdurará para sempre.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012


SONNET #3


by: William Shakespeare



LOOK in thy glass, and tell the face thou viewest
Now is the time that face should form another,
... Whose fresh repair if now thou not renewest,
... Thou dost beguile the world, unbless some mother.
For where is she so fair whose uneared womb
Disdains the tillage of thy husbandry?
Or who is he so fond will be the tomb
Of his self-love, to stop posterity?
Thou art thy mother's glass, and she in thee
Calls back the lovely April of her prime;
So thou through windows of thine age shalt see,
Despite of wrinkles, this thy golden time.
But if thou live rememb'red not to be,
Die single, and thine image dies with thee.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

"Folhagem de Sombras"

Livro de poesia de um autor que preferiu resguardar-se sob um criptónimo.

"Folhagem de Sombras" é um livro constituído por duas partes, ambas com citações de Oscar Vladislas de Lubicz Milosz (poeta lituano de língua francesa) a introduzi-las.

Constata-se, pela leitura do livro, que o poeta usa de vários recursos estilísticos nesta obra ( seja no que se refere a métrica, a rima, a verso livre), e que os domina a todos com segurança.
O livro tem alguns poemas muito belos, outros um pouco mais artificiais. A linguagem pode ser simples ou rebuscada, conforme os casos. Mas trata-se, quase sempre, de uma poesia que vai directa ao coração, não demasiado popular, mas não esquecendo a lição dos poetas espontâneos, simultaneamente revelando, aqui e ali, a influência de grandes mestres (poetas) de várias eras e contextos culturais.

Aconselhamos a procura e a leitura deste livro de um poeta quase totalmente desconhecido, mas digno de ser lido.

O título "Folhagem de Sombras" é muito curioso. Não remete, como poderia parecer à primeira vista, para a sombra das folhas e folhagens de árvores ou de jardins. Aqui, as próprias sombras é que se ramificam, se interpenetram, como que compondo uma folhagem, um folio complexo, como se cada poema remetesse para todos os outros, todos entre todos se comunicando por meio dessa rede um pouco informe mas arborífera da folhagem que entre si todos compõem.


                                                                                                           Marta Lacerda

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012


Desde que chegaste ao mundo do ser,
uma escada foi posta diante de ti, para que escapasses.
Primeiro, foste mineral;
depois, te tornaste planta,
e mais tarde, animal.
Como pode isto ser segredo para ti?

Finalmente, foste feito homem,
com conhecimento, razão e fé.
Contempla teu corpo - um punhado de pó -
vê quão perfeito se tornou!

Quando tiveres cumprido tua jornada,
decerto hás de regressar como anjo;
depois disso, terás terminado de vez com a terra,
e tua estação há de ser o céu.

RUMI

Greek Orthodox Christian Byzantine Music in AgSofia Kabarnos

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Oração

                                                      Rembrandt, O filósofo em meditação

"O homem, orando de pé, contemplando o lugar remoto e infinitamente próximo onde imagina Deus, é como um candelabro, entendendo por candelabro o suporte e a vela acesa. Com efeito, no Livro do Esplendor (Zohar), ele é comparado a uma chama, pela correspondência do seu corpo com o combustível; da alma do sangue com a luz azulada e turva na parte inferior da chama, alma em hebraico se diz nephesh; da própria chama em ascese adente com o que, no mesmo hebraico, se designa por ruah, palavra para sopro ou espírito com sede no centro ígneo das emoções. Há, porém, à volta da chama, uma atmosfera luminosa imperceptível para quem não a procurar ver: aqui a correspondência no Zohar é com neshamah, a ponta suprema da alma e sua irradiação puríssima, a flor do intelecto." (António Telmo, Viagem a Granada, p. 32)

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 5



"Um homem que opõe a Razão à Fé é tão estúpido quanto um cavaleiro que não dê de comer a seu cavalo. Ora, sabeis que esse é o nível mental atual, não só dos descrentes como da maioria dos católicos. Ficar-vos-ia reconhecido se me dissésseis como poderei fazer para não desprezar tudo isso."

"Julgo que nunca houve época tão desprovida de interesse. Desesperante uniformidade da baixeza e da porcaria, atestada pelas secreções do jornalismo."

"Chegamos a esse momento formidável e absolutamente estranho em que, Deus tendo sido expulso de toda a parte, nenhum homem saberá mais onde ir..."
"Já agora, o idiota é dono do mundo. É ele que é necessário, é ele que é procurado. Só ele é capaz de representar, de legislar, de presidir! A experiência está feita. Se há alguma coisa impossível é imaginar um homem, não digo superior, mas apenas dotado de uma inteligência rudimentar, podendo ser considerado digno de fazer leis ou de exercer uma função pública. O cretinismo é rigorosamente exigido."

"Dez mil manifestantes, bandeiras vermelhas e negras. Sindicalistas de um lado, agentes e soldados de outro. 250 feridos, ao que se diz. Seria necessário um novo Pentecostes para fazer compreender a esses pobres operários libertários, dominados e martirizados por alguns pândegos, quanto eles são imbecis!"

"Sabeis o que foi dito na Salette. O mundo moderno está entregue a Satanás, por decreto, de há um século, e a grande fortaleza, a Igreja, foi atingida. Pareceis esperar não sei que retorno dos povos a Deus, percebi isso em vosso livro. Não o espero, eu. O passado está bem para trás, bem abolido. Sem dúvida, é forçoso que Deus triunfe, no fim. Mas, depois de que terríveis trevas!"

"Outrora, havia a Glória que viva sem rumor e sem magnificência, e que, ainda que fosse a grande soberana, não vestia jamais outra púrpura senão a do seu próprio sangue, quando o derramava para se tornar imortal. Hoje que essa imortal está morta, a infame folgazona que a destronou, a Opinião pública, nada em esplendores, pois seu concubino preferido é o mais incontinente dos cegos rigos e se chama o Sucesso."

"É verdade que o mundo não é muito difícil de ficar espantado. É tão medíocre e tão baixo, esse apanágio de Satanás, que uma aparência de força ou de grandeza basta, comumente. Foi o que muitas vezes se viu nos nossos dias quando políticos ou escritores, capazes no máximo de aguilhoar carne ou de filar jantares, puderam se fazer admirar por multidões".

"Onde estão, hoje, as almas heróicas? Sei bem que o heroísmo pode ser encontrado, pelo menos em estado rudimentar, entre os nossos combatentes, mas o heroísmo integral, sem costura nem emenda, onde está ele? É o do cristão completo que tudo deu por amor de Deus antes de dar alguma coisa à pátria, e deve ser extremamente raro".

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 4

"Quantas almas realmente vivas [existem] nesse fervilhar de seres humanos? Uma por cem mil, talvez. Ou, por cem milhões. Não se sabe. Há seres superiores, homens de gênio mesmo, talvez, cuja alma não foi vivificada e que morrem sem ter vivido. Um coração simples dirá cada dia, chorando de angústia: "Em que pé estou com o Espírito Santo? Sou verdadeiramente um vivo ou um morto que se devia enterrar?" É terrificante pensar que se subsiste no meio de uma multidão de mortos que se acredita vivos e que o amigo, o companheiro, o irmão que se viu de manhã e que se vai tornar a ver à noite, só tem vida orgânica, uma aparência de vida, uma caricatura de existência. E que, na verdade, é apenas diferente daqueles que já se estão desfazendo nos túmulos. É intolerável, por exemplo, pensar que se nasceu de pai e mãe que não existiam. E que esse padre, presente no altar, talvez não seja muito diverso de um outro já falecido e que o Fármaco de imortalidade, o Pão que ele consagrou para vos transmitir a Vida eterna, ele o vai estender com mão de cadáver, proferindo com voz defunta as santas palavras da liturgia! Funcionam, no entanto, todos esses fantasmas, com uma perfeita regularidade. A missa daquele padre é tão válida quanto a de um santo. Certa, a absolvição que administra aos pecadores. A força de seu ministério sobrenatural perdura enquanto a morte não triunfou definitivamente dele. E assim sucede com todos os semi-trespassados que nos rodeiam e que somos forçados a chamar, por antecipação: mortos. Continua-se a agir e mesmo a pensar mecanicamente, com uma alma destituída de vida"

                                                                                                 LÉON BLOY

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 3

Se Deus existe...
Deus existe ou Deus não existe. Se se lhe concede a existência, é preciso concedê-la efetiva, supondo uma infinita continuidade da Criação, o que implica a onipotência absoluta no conhecido e no desconhecido, no visível e no invisível. Se o Ato criador se interrompesse, no mesmo instante o mais duro granito e todos os metais se reduziriam a poeira, e essa própria poeira não subsistiria. Não haveria mais nada. A natureza inteira se dissolveria no ininteligível vazio. Se esse postulado não for admitido, é-se forçosamente um ateu ou um imbecil, o que é, aliás, equivalente, do pondo de vista estético.

O verdadeiro bem aos outros

Falais em melhorar a condição dos que sofrem. Como podeis acreditar nessa possibilidade, se não tendes em vista senão o bem-estar material? E sois forçados a só ter isto em vista, posto que não tendes absolutamente nada a dar a suas almas. Ninguém fez tanto por eles, materialmente, quanto os homens de grande fé que a Igreja chama os Santos. Mas os santos sabiam que o corpo humano não é senão a aparência do homem e trabalhavam sobretudo por suas almas, as quais não morrem. Sabiam, também, que o Sofrimento é bom, sobrenaturalmente, para todos. E que o homem que não sofre ou não quer sofrer, é um filho deserdado do Filho de Deus que esposou a Dor, pois somente aquele que aceita sofrer, pode entrever o preço de sua alma.

O Ato único

Então Deus, que conhece a miséria de suas criaturas, confere misteriosamente a alguns que escolheu por testemunhos a suprema graça de um desprezo sem limites, no qual não subsiste nada mais senão Ele mesmo em suas Três Pessoas inefáveis e nos milagres de seus Santos. Quando o padre eleva o cálice para receber o Sangue do Cristo, pode-se imaginar o enorme silêncio de toda a terra que o adorador supõe cheia de pavor em presença do Ato indizível que torna semelhantes a nada todos os outros atos, logo assimiláveis a vãs gesticuçações em trevas. A mais hedionda e a mais cruel das injustiças, a opressão dos fracos, a perseguição dos cativos, o próprio sacrilégio e o consecutivo desencadeamento das luxúrias infernais, todas essas coisas, nesse momento, parecem não mais existir, não mais ter sentido em comparação com o Ato Único. O que subsiste é, somente, o apetite dos sofrimentos e a efusão das magníficas lágrimas do grande Amor, antegoso de beatitude para os alunos do Espírito Santo que estabeleceram sua morada no tabernáculo do Desprezo real por todas as aparências deste mundo.

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Deus vos quer santo. Não digo virtuoso, nem honrado, o que basta aos burgueses. Mas, SANTO. E, a isso saberá vos obrigar, nem que seja à custa de terríveis dores.

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 2

Simples observação. Ninguém, mesmo entre os melhores cristãos, parece procurar Deus, ou mesmo, pensar nele. Vai-se para a mesa como cães, e para a cama como porcos. Impossível conseguir a menor atenção quande se fala de Deus."
 
"Penso frequentemente na afirmação de Ana Catarina Emmerich: "Não há mais cristãos no verdadeiro sentido da palavra".
 
"Os amigos de Jesus vêem à sua volta os cristãos modernos e é assim que podem conceber o inferno".
"Simão o Cirenaico ajuda Jesus a carregar a sua Cruz. Os cristãos modernos põem suas cruzes nas costas de Jesus".
"Tive muito frequentemente a ocasião de falar da tolice de nossos católicos, prodígio enorme, demonstrativo, por si só, da divindade de uma religião capaz de resistir-lhe".
 
"Tens perfeitamente razão de dizer que esse indivíduo jamais poderá me compreender. É um católico que permaneceu protestante - conheço o caso."
 
"Preocupam-se muito os russos com a comemoração de um centenário de 1912. A esse respeito, Raoux me escreve e me fala o grande Exército morto de frio. Respondo-lhe que o grande exército sem vitórias dos nossos católicos modernos morrerá, este ano talvez, do frio que está nele mesmo..."
 
"Há duas causas para este ostracismo de meus escritos no mundo católico: a extraordinária ininteligência dos cristãos modernos e sua profunda aversão do Belo. Entre uma página escrita com esplendor e uma outra página exprimindo as mesmas idéias chãmente, a escolha deles não é nunca duvidosa: vão, por instinto, à mediocridade. Tivestes mil ocasiões de ver isso e o vereis cada vez mais, pois o nível baixa todos os dias."
 
"O que se vê por toda a parte, e cada vez mais, é, por parte dos cristãos, o ateísmo prático, pelo menos na maior parte deles."
 
"Perguntais se esta guerra não esclareceu os católicos a meu respeito, se não pôs o clero a meus pés, etc. Eis a minha resposta. Nada poderá mudar esses católicos de que falais. A guerra, longe de esclarecê-los, aumenta sua cegueira e, mais do que nunca, sou seu pesadelo, tendo cometido o imperdoável crime de levar a sério a lei divina, de ser um católico absoluto - o único entre todos os que falam ou escrevem. Isso nunca me será perdoado. O castigo é fácil. Proibição de comprar meus livros, de lê-los e de deles falar. Sabe-se que o autor é pobre. Que vitória se se pudesse matá-lo pela miséria! A conspiração do silêncio. É uma imensa honra para mim ser tratado exatamente como Nossa Senhora da Salette, a quem é recomendado não dar a menor atenção. O efeito do castigo é, naturalmente, a miséria, sobretudo nos dias de hoje..."
 
"Os católicos desonram o seu Deus, como jamais os judeus e os mais fanáticos anticristãos foram capazes de o desonrar"
                                                                             LÉON BLOY
                                   

A mensagem actualíssima de Léon Bloy - 1

"É o rebanho dos pequenos de Deus. "Quem quer que receba em meu nome um desses pequenos" disse Jesus, "é a mim mesmo que recebe". O que pensar daquele que os degola, que os mutila, ou que inflige às suas almas puras uma tristeza mais negra do que a morte? (...) A maldição de uma multidão de crianças, é um cataclisma, um prodígio de terror, uma cadeia de montanhas sombrias no céu, com uma cavalgada de raios e trovões em seus cimos. É o infinito dos gritos de todos os abismos, é um não sei o que de altamente poderoso que não perdoa e que extingue a esperança de qualquer perdão."

Léon Bloy In FARIA, Octávio. Léon Bloy.

Depois de ler este relato visceral do Léon Bloy, como não pensar na terrível situação que vivenciamos hoje em que milhares são os infantes que morrem por dia, por hora, por minutos... no mundo? A estes sequer é dado o direito de nascer e, novamente, pelo seu grito impedido eles clamam justiça Àquele que já havia dito: "É a Mim que o fazeis..." Que terrível, que terrível!



"Até quando, ó Senhor santo e verdadeiro,

tardarás a fazer justiça,

vingando nosso sangue

contra os habitantes da terra?"

(Ap 6,10)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

tradutore/tradittore

mapa de judeus sefardis

Gracia Nasi - biografia




Nascida no seio de uma rica família de marranos em Portugal em 1510, Gracia era conhecida por seu nome cristão, Beatriz de Luna. O nome de sua irmã era Reina, batizada Brianda. Seu irmão Agostinho Miguel Nasi , era médico da corte e catedrático de medicina da Universidade de Lisboa, morreu em 1525 e Gracia assume a responsabilidade de criar os filhos de seu irmão, João (José) e Agostinho (Samuel).


Possuidora de um vasto e complexo império comercial e financeiro na Europa, administrou-o, preservando- -o e ampliando a sua fortuna, apesar dos esforços de reis e outros dirigentes para afastá-la de seu património.

Señora Gracia salvou centenas de marranos da morte e das perseguições. Apesar de seus esforços para estabilizar a economia e a política da comunidade judaica, fracassou. Mesmo assim, foi uma mulher à frente de seu tempo. Tentou agir contra o anti-semitismo, impondo um boicote económico. Tentou construir uma pátria judaica na Palestina, tendo Tiberíades como base.

A señora, a dama, Ha-geveret – em hebraico – marcou de uma maneira indelével a cultura judaica. Sua lembrança foi perpetuada através das inúmeras sinagogas que têm o seu nome, entre elas, uma em Esmirna, El Kal de la Señora, sinagoga que foi muito freqüentada até 1970, sendo gradativamente abandonada até se tornar um galinheiro.

Assim como os outros marranos os Nasi viviam como cristãos devotos em público e praticavam secretamente o judaísmo.

Com 18 anos de idade, Gracia contraiu nupcias com Francisco Mendes, marrano e próspero banqueiro.

Ele e seu irmão Diego, que administrava os negócios em Antuérpia, ajudavam marranos perseguidos pela inquisição a escapar utilizando-se de suas empresas e império financeiro.

Quando a inquisição chegou a Portugal em 1536, Francisco se preparou para unir-se a seu irmão em Antuérpia, porém ficou doente e morreu antes de poder realizar seu plano.

Gracia Nasi Mendes, tinha então 26 anos quando juntamente com sua filha pequena, Reina a jovem, enterrou o seu esposo como cristão e abandonou Lisboa.

Embarcaram além de Gracia e sua filha, sua irmã Reina seus sobrinhos José e Samuel em um dos navios mercantis dos Mendes rumo a Londres, levando a bordo todos os seus pertences.

De Londres a família viajou para os Países Baixos atravessando as rotas ideais para os marranos. Chegaram a salvo em Antuérpia, onde Gracia se uniu com seu cunhado Diego como sócia plena nos negócios, enquanto que sua irmã Reina tornou-se sua esposa. Reina e Diego tiveram uma filha a quem chamaram Gracia a Jovem, pois Gracia e Francisco haviam dado a sua filha o nome Reina a Jovem, em honra a tia.

Durante seis anos, Gracia participou da sociedade aristocrática e do mundo de negócios de Antuérpia e com seu cunhado continuaram ajudando marranos a fugir de Portugal.

Em 1544, quando Reina, a formosa e abastada filha de Gracia tinha 14 anos, foi pedida em casamento pelo ancião Don Francisco de Aragão, nobre católico e membro da realeza. Gracia estava decidida que sua filha se casaria com um judeu.

Em Veneza, Gracia foi denunciada como judaizante por sua irmã Reina, que esperava obter o controle da riqueza da família. Gracia foi sumariamente detida e enviada a prisão, e suas propriedades foram embargadas. Reina também foi denunciada por um agente francês da empresa dos Mendes a quem ela havia subornado, e as jovens Reina e Gracia, foram enviadas a um convento. Uma vez mais, José empregou suas notáveis habilidades diplomáticas para conseguir que o sultão turco exigisse a libertação de Gracia.

Reconciliada com sua irmã e com suas filhas novamente sob sua custódia, a família se mudou para Ferrara. Nesta cidade em 1550, Gracia se despojou de sua identidade cristã e confessou abertamente seu judaísmo. A partir desse momento foi conhecida como Dona Gracia Nasi, em vez de Beatriz de Luna, e intensificou sua ajuda aos emigrantes marranos.

Financiou a publicação da primeira tradução da Bíblia hebraica para o espanhol, assim como outras obras em hebraico, espanhol e português, e participou intensamente dos assuntos da comunidade judaica.

No entanto, o clima de intolerância cristã na Europa se intensificava; além disso, os judeus poderosos eram muito melhor recebidos pelo sultão turco Suleiman, a quem Gracia Nasi lhe era muito grata. Em 1553 transladou-se com sua família e fortuna para Constantinopla, capital do Império Otomano.. As comunidades judaica e marrana da cidade lhe fizeram uma majestosa recepção, pois para esses havia se tornado uma lenda.

Estabeleceu-se em uma imponente mansão nos subúrbios, onde celebrava luxuosas festas, desenvolvia uma ampla actividade beneficente e oferecia comidas grátis a 80 pobres diariamente. O comércio de lã, grãos, especiarias e têxteis no Império turco prosperou tal como havia acontecido na Europa cristã e assim conseguiu continuar suas boas obras como patrona de sábios, academias e sinagogas em Cosntantinopla, Salónica e outros lugares.

Uma das primeiras promessas que cumpriu na Turquia foi a que tinha feito a seu falecido marido: enterrá-lo na Terra de israel. Como a Palestina se encontrava sob o domínio otomano, conseguiu que os restos mortais de seu esposo fossem transportados secretamente de Lisboa e enterrados de novo ao pé do Monte das Oliveiras.

Em 1554, a inquisição alcançou o porto italiano de Ancona, um centro de comércio internacional. Dezenas de marranos, muitos deles mercadores e alguns agentes ou amigos pessoais da família Nasi, foram detidos e torturados. Com a intervenção do sultão, Dona Gracia conseguiu que alguns deles fossem libertados por serem súbditos turcos, mas a maioria permaneceu encarcerada até confessarem seu erro. Vinte e quatro prisioneiros que se recusaram a renegar sua fé morreram na fogueira.

Como represália, Dona Gracia intercedeu por um boicote geral do porto de Ancona por parte da comunidade financeira judaica do Império Otomano, sob pena de excomunhão.

Mesmo tendo muitos rabinos e líderes de comunidade apoiado sua proposta, esta foi rechaçada devido à oposição de Josué Soncino, rabino da Grande Sinagoga de Constantinopla.

Dona Gracia Nasi dirigiu então suas energias a Terra Santa. Havendo passado sua vida transladando-se de um refúgio inseguro a outro, resolveu iniciar a reconstrução do verdadeiro lugar do povo judeu.

Em 1560, com a ajuda de seu sobrinho José, propôs às autoridades de Constantinopla que lhe fosse vendida a concessão de Tiberíades e sete ald~eias adjacentes em troca da receita de impostos além de uma quota anual de mil ducados.

Don José Nasi foi nomeado governador de Tiberíades; seu auxiliar José ibn Adret foi enviado a supervisar a reconstrução da cidade e seus muros. Dona Gracia estabeleceu uma academia que atraiu eruditos e construiu um palacio para si mesma cerca das fontes térmicas de Tiberíades.

José importou ovelhas e amoreiras a fim de produzir lã e criar XXXXX(gusanos) de seda e assim estabelecer a base para uma rentável indústria têxtil na cidade.

Intensamente envolvida em seus numerosos interesses e ocupações, Dona Gracia postergou sua mudança de Cosntantinopla a Tiberíades.

Quando faleceu em 1569 com 59 anos de idade, sua morte causou uma onda de pesar nas comunidades judaicas da Europa e do Império Otomano.

Sua memória está perpetuada em publicações eruditas e foi louvada nas sinagogas, sendo comparada com as grandes heroínas bíblicas. Dona Gracia Nasi "a coroa da glória das mulheres virtuosas" e "o coração de seu povo", é lembrada como a mulher judia mais destacada de sua geração.
Extraído: “Entre Mujeres –Ajdut”

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ave Maria em aramaico

http://youtu.be/XdOPW2FjAPk

Mar Português de Fernando Pessoa

Presunção e água benta… por Pedro Martins



Pedro Martins

Há uns meses, disse a alguém – creio que ao António Carlos Carvalho – que não se me dava em fazer uma aposta: o anunciado Dicionário de Luís de Camões seria olímpico na desconsideração de António Telmo. À imagem do que sucedera com o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português.

Fiz mal em não apostar. Saído a lume no final do ano que passou, o Dicionário não dedica ao filósofo uma só linha das muitas entradas que o compõem. Vítor Aguiar e Silva, que coordenou o pesado volume, comete assim, em última análise, a proeza de ignorar o mais lúcido, audaz e original hermeneuta do príncipe dos poetas portugueses, a quem Telmo, desde a História Secreta de Portugal, consagrou uma parte importante do seu labor especulativo.

Como não é de crer que um tão eminente camonólogo, académico informado e atento, possa desconhecer títulos fundamentais do pensamento filosófico português (e – note-se –da bibliografia passiva camonina) como o Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, Filosofia e Kabbalah, Congeminações de um Neopitagórico ou A Aventura Maçónica – Viagens À Volta de um Tapete, Seguido de: Autobiografia e Sobrenatural em Luís de Camões: Onde se revelam alguns segredos guardados n'Os Lusíadas, obra já póstuma, sou forçado a concluir que Aguiar e Silva fez vista grossa a algo que aborrece, não compreende ou simplesmente rejeita. Não por acaso, Sampaio Bruno e Agostinho da Silva, que com Telmo quase definem uma linhagem espiritual e uma tradição interpretativa, são também postos de lado, e Fiama Hasse Pais Brandão, que nos desvelou o cabalismo do Camões cripto-judaico, mal é referida, nos cerca de duzentos artigos do Dicionário.

Certo que Aguiar e Silva não era obrigado a apreciar ou a entender tudo quanto de relevante respeitasse ao poeta. Mas não lhe podia ignorar a existência, devendo dá-lo de empreitada a quem, de alguma sorte, pudesse suprir a sua própria incapacidade. Ou será que as sucessivas, espantosas demonstrações operadas no Desembarque, ou as perplexidades e hipóteses inscritas e anotadas na Autobiografia e Sobrenatural, não são, de todo, importantes, e, por isso, credoras de um módico de atenção dos camonologistas?

Não creio, claro está, que Aguiar e Silva houvesse, para o efeito, de recorrer ao auxílio prestimoso de um seu homólogo tão avisado como António Cândido Franco, universitário arguto, sumamente sensível à subtil insinuação da anagogia, e que, num estudo publicado no terceiro volume dos Cadernos de Filosofia Extravagante, justamente põe a nu a debilidade interpretativa de que enferma o camonismo do professor de Coimbra.

Mas semelhante imperativo deveria sempre ser cumprido, posto que o fosse com o propósito antipático, e que se me antolha baldado, de refutar a poderosa leitura télmica de Luís de Camões. Só assim não seria enganosa a publicidade da Editorial Caminho, que, a propósito, nos promete “um vasto e rico The­saurus da camonís­tica con­tem­porânea”, cujos arti­gos, “da auto­ria dos mais rep­uta­dos camonistas nacionais e estrangeiros, pro­por­cionam ao leitor uma infor­mação abun­dante, rigorosa e atu­al­izada sobre a biografia, a obra lírica, épica, dra­matúr­gica e epis­to­lar de Camões, sobre a sua con­tex­tu­al­iza­ção histórico-literária, sobre os seus prob­le­mas filológi­cos, sobre a influên­cia e a crítica camo­ni­anas nos diver­sos perío­dos da lit­er­atura por­tuguesa e, numa per­spetiva com­para­tista, sobre a receção de Camões nas prin­ci­pais lit­er­at­uras mundi­ais, desde a espan­hola à brasileira e à norte-americana”.

Presunção e água-benta…

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"Os Mistérios de Jerusalém" (Reedição) de Marek Halter


Autor: Marek Halter

P.V.P.: 15,00 € (aqui)

Data 1ª Edição: 2011
Nº de Edição: 4ª
ISBN: 978-972-53-0053
Nº de Páginas: 400
Dimensões: - x - mm
Colecção: -
Editora: Editorial Bizâncio

Sobre a obra:
Romance policial, de aventuras e de cultura. Em Nova Iorque, Paris, Moscovo, e mesmo nas margens do Mar Morto, um manuscrito com mais de dois mil anos faz correr muito sangue. Desvenda um dos 64 enigmas que ainda hoje protegem o tesouro do Templo de Jerusalém. Para além da cobiça do ouro, eruditos, mafiosos e terroristas tentam obter esse manuscrito milenar porque ele poderá também ajudar a esclarecer o mistério dos mistérios: porquê Jerusalém? Porque foi escolhida por Deus — para aí construir a sua morada — uma aldeia situada nos flancos áridos dos montes da Judeia? A resposta encontra-se nas próprias fontes da história desse lugar, onde desde o princípio dos tempos se têm cruzado todas as esperanças e todas as violências. Revelar os mistérios de Jerusalém fará o mundo tremer.

Sobre autor:
Marek Halter nasceu na Polónia em 1936. Durante a Segunda Guerra Mundial, ele e os seus pais tornar-se-íam nuns exilados. O pai era um impressor, descendente de uma longa linhagem de impressores judeus. A mãe era poetisa. Após algum tempo passado na Rússia e no Uzbequistão, emigraram para França em 1950. Aqui, Halter estudou com Marcel Marceau e embarcou numa carreira de pintor, que o levou a fazer um largo número de exposições internacionais. Em 1967, fundou o Comité Internacional para a Negociação de um Acordo de Paz no Médio Oriente e desempenhou um papel crucial na organização oficial dos primeiros encontros entre Palestinianos e Israelitas.
Nos anos 70, Marek Halter virou-se para a escrita.
O seu primeiro livro foi que foi premiado com o prémio Aujourd’hui em 1976.
É também autor de diversos romances históricos, que rapidamente se transformaram em verdadeiros besteselleres, como é o caso de O Messias, Os Mistérios de Jerusalém entre outros.


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A Rainha de Sabá
Hoje Acordei Furioso!
Lila - A Bíblia no Feminino Vol III
Maria
O Messias
O Vento dos Khazares
Os Mistérios de Jerusalém - Reedição
Sara - A Bíblia no Feminino vol I
Séfora - A Bíblia no Feminino Vol II
Trilogia As Mulheres da Bíblia

O Cabalista de Praga - Marek Halter


Está de parabéns a Bizâncio pela divulgação deste grande escritor francês, ainda não totalmente reconhecido pelos leitores portugueses.
Praga, “a Jerusalém dos novos tempos”, finais do século XVI. Na capital da cultura hebraica daquele tempo, David Gans é um discípulo entusiasmado e fiel do grão-rabi Loew, o MaHaRaL. Com ele aprenderá os segredos da Cabala, afinal de contas, a grande porta do saber segundo a tradição hebraica. A Cabala é o reino da Palavra; é o mistério que se esconde por detrás dos signos; é a arte de descobrir o significado da Palavra.
A narração é feita pelo próprio David Gans, em pleno século XX. A sua “fala” enquanto morto dá à obra um tom que reforça o enquadramento místico da narrativa.
Mas bem mais palpável que esse encanto místico que rodeia o pensamento hebraico é a terrível realidade: nem Praga escapa às perseguições aos judeus, após um período de paz devido à protecção pelo Imperador do Sacro Império. Os judeus eram considerados culpados da peste que matava aos milhares. Ironicamente eram os judeus que mais próximos estavam de compreender a doença e tratá-la, ou pelo menos preveni-la. Mas essa capacidade de escapar à maleita, em vez de ser encarada como uma fonte de informação era vista como fruto de artes de magia e, por isso, mais um motivo para o ódio.
Mas nem tudo é negro neste livro.
David Gans leva-nos ao encontro das maravilhas do Renascimento, em que os progressos científicos surgem como oásis no meio da ignorância e da superstição. É nesses oásis que Gans nos apresenta Tycho Brahe, o brilhante astrónomo, o grande matemático Kepler e o revolucionário mas silenciado Galileu.
Rodolfo, o Imperador do Sacro Império é uma espécie de mecenas que protege o oásis. No entanto, a sua ambição de poder cega-o e só protege os judeus enquanto tem a ganhar com isso. Depressa se transforma em mais um impávido espectador da brutalidade com que os judeus eram tratados pelos cristãos. E neste aspecto, ao contrário do que por vezes se pensa, os protestantes luteranos não eram menos cruéis e supersticiosos do que os católicos. Também eles encaravam os judeus como origem de todos os males.
Há algum tempo escrevi neste blogue, a propósito de O Último Cabalista de Lisboa, de Richard Zimler, que nós, portugueses temos razões para nos envergonharmos do nosso passado pelos crimes que cometemos contra o povo judeu. Mas parece-me que não fomos os únicos. Quase toda a Europa, esta Europa que se arvora de ser a pátria da civilização, viveu encandeada por este ódio, por esta onda criminosa que vitimou milhões de inocentes. O anti-semitismo é a vergonha desta “civilização”.
Na parte final deste magnífico livro deparamos com uma espécie de fábula cheia de significado: os judeus de Praga conseguem finalmente encontrar um meio de responder à letra” aos cristãos que os massacravam. No entanto, foi este “Golem” que acabou por provocar a discórdia entre eles, trazendo mais uma semente de violência. Triste lição para a alma humana…
No final, um verdadeiro e belo hino ao poder da Palavra! No fundo é esse o espírito da Cabala – a força da palavra, capaz de fazer nascer um novo Homem! Mesmo na maior das desgraças, há sempre uma semente de fé e esperança!
Avaliação Pessoal: 9/10
(Comentário publicado no Blogue Destante, no âmbito da parceria com a Editorial Bizâncio).

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

bom 2012

Constellation

Projecto Constellation Cancelado pela Administração Obama!

É o fim dos sonhos de regressar à Lua até 2020, que já eram possibilidades remotas, para ser totalmente honesto. A administração do Presidente Obama pretende agora investir em sistemas de lançamento privados para alcançar a Estação Espacial Internacional, e dirigir esforços para a exploração do resto do Sistema Solar.

Na minha muito modesta opinião, isto é o fim da NASA. O último lançamento do Space Shuttle está agendado para Setembro deste ano, e não há, neste momento, nenhuma alternativa viável de colocar astronautas norte-americanos no Espaço, na Estação Espacial Internacional ou onde quer que seja. O sector privado é ainda um sonho, e só Deus sabe quanto tempo demorará a empresas privadas conseguir colocar, fiávelmente e em segurança, astronautas em órbita!

Fonte: Email da CBS Space News

António Telmo* por Pedro Sinde



António Telmo (1927-2010). Em Estremoz, onde escolheu viver desde 1976, todos o conheciam por Professor Telmo. Os alunos que passaram por ele nunca se esqueceram das suas aulas. Assisti a muitos destes reencontros, enquanto passeávamos no largo de S. João (como insistia em chamar, à antiga, ao largo do Rossio), quando algum desses alunos se cruzava casualmente com ele, saudando-o carinhosamente e relembrando algum dos episódios invulgares que enchem a sua vida; como aquele, por exemplo, de ter desafiado para um “torneio de fisga” um aluno indisciplinado: “quem ganhar, manda na sala”, disse ao aluno. E o Professor ao mesmo tempo que ganhou o “torneio” conquistou o respeito do aluno. Tinha uma pontaria magnífica; por causa disso, em novo chamavam-lhe Guilherme Telmo.
Foi um jogador de bilhar e um caçador exímio; nos últimos anos, porém, sobre a caça, exclamava muitas vezes “como é que eu fui capaz?!…”. Agora, deleitava-se a contemplar nesse mesmo largo os pombos no seu voo circular, “para os fazer viver e já não para os matar”, como me disse numa carta.
Quem o visse no Águias d’Ouro estaria talvez longe de imaginar que escrevia um dos muitos livros que o tornariam famoso: a sua História Secreta de Portugal ou o Desembarque dos Maniqueus na Ilha de Camões, a Filosofia e Kabbalah, mais recentemente, a Viagem a Granada ou ainda as Congeminações de um Neopitagórico. O Águias não deixará seguramente de assinalar este facto.
Foi um dos melhores amigos de Agostinho da Silva, que o levou para Brasília com o fim de leccionar na Universidade nascente. António Telmo recordava saudoso esse tempo em que Agostinho da Silva, nos passeios que davam juntos, se punha a sonhar, contemplando um lugar no mato: “aqui ficará um monge cristão, ali um sufi e ali um monge zen”.
António Telmo é um dos expoentes da escola da filosofia portuguesa. Discípulo de Álvaro Ribeiro e José Marinho, imprimiu a este movimento uma originalidade magistral. A direcção do seu ensino ia no sentido de acentuar a ideia de que o pensamento deve fecundar e transformar a vida; a isso chamou, logo no seu primeiro livro Arte Poética, “filosofia operativa”. As tertúlias que orientou tinham sempre esta componente “operativa”, o pensamento tinha como corolário o aperfeiçoamento do comportamento ético, artístico, iniciático.
Outro ponto a destacar do seu ensino é o seu amor a Portugal. Reconhecendo a situação calamitosa que vive Portugal presentemente, nunca deixou, no entanto, de o amar e defender em todos os seus livros: estudou magnanimemente a sua arquitectura, a sua história, a literatura, a filosofia e até a língua.
Sempre procurou, como se pode ler numa nota biográfica que acompanha alguns dos seus livros, “estar de pé sobre a extensa planície, a toda a volta, com a sua sugestão de liberdade e de infinito.”
Morreu um homem livre.