sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Três poemas de Avelino de Sousa

3 Poemas


Sigo as tuas pegadas pela praia
em busca de teu corpo de azevinho.
És como um búzio onde se ouve o mar,
como a onda que alaga e se retrai,
como um vinho novo que se bebe.
Sigo tuas pegadas, mas não te encontro.
És como a rocha aonde a vaga cai
e rebenta numa maré de espuma.
Ou te sumiste ou não mereço ter-te.
Por isso, agora há só o grito das gaivotas
e a luz tardia desmaiada             :bruma

Avelino de Sousa, Poemas, 2005.






















Disseste-me em surdina ao meu ouvido
palavras que não ouso revelar.
Todo o segredo havido entre nós dois
só o partilharemos com o mar.
Disseste-me palavras nunca ouvidas,
palavras de desejo, ciciadas,
que só os amantes pronunciam
e se fundem no som alto das vagas.
O que me disseste e o que eu te disse
p'ra sempre o haveremos de calar.
A não ser que outros amantes as escutem
na rebentação larga do mar.
 Avelino de Sousa, In Poemas, 2005



Ias na proa da barca, singela.
Teu olhar vogava à flor das águas
e tua mão tocava-as, distraída.
Eu era teu barqueiro.
Fazia deslizar os remos, silencioso.
Mas já atearas em meu corpo
o rastilho do amor. E como a mariposa,
era atraído à tua chama intensa.
Só me falta arder no teu incêndio.

Avelino de Sousa, Poemas, Ed. de Autor, 2005

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Poema




Na minha língua fala a montanha
quando oliveiras amadurecem
os seus frutos negros, mediterrânicos
Quando a cor rósea das cerejas

maduras incendeia o horizonte 
Quando, no verão, estalam os cardos
sob os passos ligeiros dos amantes
que, à hora da sesta, se desnudam

em tufos de feno Na minha língua  
há ainda estes trilhos de cabras
pó e seixos rolando sob os pés
descalços duma criança que vive

e grita, o puro animal feliz,
em alegres correrias e jogos
despreocupados Na minha língua
moram as palavras dessa criança

quando a noite acorda e cobre
de infinito e estrelas ínfimas
e esperança os seus olhos muito
abertos e povoados de anjos

e de palavras a nenhum exército
ou senhor entregues Na minha língua
fala a montanha que há em mim
e me chama, retinta de verdade

Poema de P. M. Carregã

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Can't Help Falling In Love

Faria hoje 79 anos.

E L V I S


Paul Éluard

paul éluard / a morte o amor a vida



Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contacto sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula


  
paul éluard
algumas palavras (antologia)
tradução antónio ramos rosa e luiza neto jorge


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Um humanista português: Damião de Góis

Damião de Góis



Damião de Góis, Anónimo, Escola Flamenga


    Figura maior do humanismo europeu, Damião de Góis distinguiu-se como cronista e músico. Foi agente comercial e diplomata ao serviço de D. João III de Portugal, servindo a Coroa portuguesa com elevado sentido de patriotismo. Mas acima de tudo, foi um exemplo de tolerância religiosa, regendo-se por ideais de concórdia. No seu epitáfio tumular, escrito pelo próprio em 1560, podemos ler: 





“Deus Todo-Poderoso. Cavaleiro português outrora fui; em negócios peregrinei por toda a Europa; sofri vários trabalhos de Marte; as musas, os príncipes e os varões doutos amaram-me com razão. Agora em Alenquer, aonde nasci, estou sepultado nesta campa até que aquele temível dia acorde estas cinzas.”






    Damião de Góis nasceu em Alenquer, em 1502. Era filho do nobre Rui Dias de Góis, valido do Duque de Aveiro e da sua quarta esposa Isabel Gomes de Limi, de descendência flamenga. 



Erasmo de Roterdão, Hans Holbein, o Jovem, 1523

    Em 1511, então com 9 anos de idade, Damião entra para o Paço da Ribeira como pajem do rei D. Manuel I. Nesta qualidade recebe uma educação aprimorada. Entre 1523 e 1532 é escrivão da Feitoria Portuguesa da Flandres, em Antuérpia. Viaja por toda a Europa, tendo oportunidade de contactar com os grandes humanistas do seu tempo, como Erasmo de Roterdão, de quem se torna amigo. Conhece personalidades como Lutero ou Melanchton.

     Propomos agora um momento musical, com uma das peças mais famosas da música renascentista – Propiñan de Melyor. A interpretação, de excelente qualidade, é acompanhada de belos exemplos da pintura do Renascimento. 



Propiñan de Melyor, Anónimo, Cancioneiro da Colombina



Lisboa, Braun & Hogenberg, 1572


   Em 1533, Damião de Góis é chamado a Lisboa para ocupar o cargo de tesoureiro da Casa da Índia; conseguindo escusar-se, parte em peregrinação para Santiago de Compostela.

     Durante a sua breve estadia em Lisboa, conhece o embaixador etíope, o bispo Zaga-Zabo, a quem convidou a redigir um tratado sobre os dogmas e práticas da cristandade na Etiópia.

     Já em 1534 inscreve-se na Universidade de Pádua, para completar os seus estudos humanísticos, publicando entretanto várias obras em latim.

     Estimulado por outros humanistas, toma a iniciativa de traduzir para o latim o relato do religioso africano Zaga-Zabo, que resulta na obra Fides, religio Moresque Aethiopum, publicada em 1540. 



Bet Giyorgis, igreja de Lalibela


    Os cristãos etíopes, muito embora rodeados por muçulmanos e isolados do resto da cristandade, são perseverantes na sua fé. Ainda no século XIII esculpiram na rocha vulcânica o santuário de Lalibela, como alternativa de peregrinação aos cristãos impedidos de visitar Jerusalém, que tinha sido conquistada pelos muçulmanos. Na prática cristã etíope convivem ritos cristãos com observâncias judaicas, como a circuncisão, ou a guarda do Sábado. Neste quadro, Damião de Góis defende que é essa coexistência de observâncias judaicas com a doutrina cristã, a chave para conseguir a integração dos Judeus na Europa Ocidental, em vez de os perseguir e queimar. Claro está que o Cardeal D. Henrique, que tutelava a Inquisição, proibiu a circulação de Fides em Portugal. 



Damião de Góis em desenho de Albrecht Dürer (detalhe)


   Em 1539, Damião de Góis casa com a flamenga Joana van Hargen e frequenta de novo a Universidade de Lovaina. Em 1542 participa na defesa da cidade, então sitiada por Francisco I de França; oferecendo-se como mediador entre defensores e sitiantes, acaba por ser feito prisioneiro. Resgatado dois anos depois por D. João III, é-lhe concedido brasão e armas pelo imperador Carlos V.

    Em 1545 regressa definitivamente com a família a Portugal. Nomeado por D. João III para mestre do príncipe D. João, Damião de Góis é indiciado pela Inquisição (ainda que sem sucesso desta vez) e o rei desiste da nomeação. 



Gravura contemporânea sobre o massacre de Lisboa, de 1506, Anónimo, Torre do Tombo


   Em 1548 é feito guarda-mor da Torre do Tombo, onde pôde encontrar condições favoráveis para escrever a Crónica do Príncipe Dom João e a Crónica do Felicíssimo Rei Dom Manuel (Lisboa, 1566-1567). É nesta última que Damião aborda a questão judaica sem rodeios. Referindo-se à passagem das famílias judias de Castela para Portugal (1492), e à matança dos cristãos-novos em Lisboa, em1506, não hesita em criticar os actos violentos cometidos. No primeiro caso, condenou os mestres das embarcações, que ao invés de garantirem o transporte de judeus para fora do reino, tiraram proveito da situação, explorando, violentando as mulheres, e humilhando todos; no segundo, classificou a acção da «turma de maos homens e dos frades» como «maldade com mor crueza», «feo e inhumano trato», elogiando o rei pelo castigo exemplar dos culpados.

     O humanista Damião de Góis acreditava que todos, independentemente da sua confissão religiosa, tinham direito à sua dignidade; bateu-se, sobretudo, pelo ideal de que os cristãos deviam reger a sua vida pelos valores evangélicos. Em 1571 foi preso pelo Tribunal do Santo Ofício, sob a acusação de heresia, e condenado a prisão perpétua. Veio a falecer na sua casa de Alenquer em 1574, ao que parece assassinado.



Tentação de Santo Antão, Jerónimo Bosch (c.1500), MNAA


    Sabe-se que Damião de Góis adquiriu algumas pinturas de Jerónimo Bosch, estando duas referenciadas - as Tentações de Job e as Tentações de Santo Antão. De resto, Damião de Góis apresentou como um dos argumentos de defesa contra a acusação de heresia que lhe foi movida pela Inquisição, o facto ter comprado e oferecido pinturas de Bosch; isto pela aceitação e apreço de personalidades insuspeitas, como o catolicíssimo Filipe de Espanha, que coleccionava obras daquele pintor.

     No romance “A Sala das Perguntas”, dedicado a Damião de Góis, Fernando Campos leva-nos a uma viagem pelo interior do mundo fantástico do Tríptico de Santo Antão, de Jerónimo Bosch, que o escritor ilustra com versos de Gil Vicente. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Judeus Ilustres de Portugal


Judeus Ilustres de Portugal 
de Miriam Assor


Judeus Ilustres de Portugal de Miriam Assor, chega às livrarias ainda este mês. Uma extraordinária viagem do século XV ao século XX é dada a conhecer as vidas de 14 homens e mulheres ilustres da nossa História. Judeus ilustres, nas mais diversas área. Tais como a Ciência, Medicina, Literatura, Liderança comunitária em que a sua contribuição para dignificar e honrar o nosso país, marcando o universo histórico-nacional e fora do país. Entre eles estão o célebre médico Amato Lusitano, a destemida empresária Dona Grácia Naci, o famoso naturalista Garcia de Orta, o pensador Isaac Cardoso, o cientista Pedro Nunes, o rabino Isaac Aboab da Fonseca e Alfredo Bensaúde, fundador do Instituto Superior Técnico, em Lisboa.

Promete ser um livro excecional, escrito sobre a alma judia. Numa temática bem investigada onde a verdade predomina e nos emociona.


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Os portugueses chegaram à Austrália antes dos ingleses?




Será que os portugueses chegaram à Austrália antes dos ingleses? Já sabíamos que os nossos navegadores eram uns patrões do mar, mas não assim tanto. E será que olharam para aquilo e disseram: “Bah, este bocado de deserto nunca vai valer nada! Vamos desenhar aquela vaca saltitona e tentar chegar a casa a tempo de ver a bola!”

A questão foi levantada quando alguém encontrou este canguru desenhado num livro litúrgico português, datado do final do século XVI (o livro, não o canguru). Como nessa época ainda não existia o National Geographic (excepto em casa de Jose Sócrates, como contará no seu próximo comentário televisivo), a conclusão logica seria que os portugueses chegaram antes dos ingleses à terra dos cangurus, e portanto, dizem alguns, a Historia deve ser reescrita. 

Outros dizem que é um equivoco e aquilo não é um canguru mas outro bicho asiático. Eu voto no Panda do Kung Fu.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mais a norte na nossa Sefarad!



A lei de Moisés em Trás-os-Montes



Foto de Nick – Trás-os-Montes


Sobre os judeus de Trás os Montes muito se tem dito e até fantasiado, parecendo-me mais correcto dar crédito aos estudos bem documentados e alguma tradição oral que chegou até ao século XX.

É do senso comum que Carção, no conselho de Vimioso, é terra de descendentes judeus. A este pequeno polo de comércio podem juntar-se mais três aldeias transmontanas. Duas no concelho de Vinhais, Moimenta e Rebordelo. E Lebução no concelho de Valpaços. A origem judaica de muitos dos seus habitantes foi descoberta durante a segunda Grande Guerra Mundial, de que já estariam marcadas no mapa para extermínio por Hitler, caso invadisse Portugal. Embora Torre de Moncorvo fosse um centro importante, aquelas três alfeias, tal como Carção, são terras de negócio, quer de comércio tradicional, quer de produtos agrícolas.


2-Edifício onde se irá situar o museu judaico de Carção - Foto de Nick
3- Moimenta, Vinhais - Foto de Raul Coelho



4- Rebordelo - Marco de propriedade com a Estrela de David - Rebordelo, Trás-os-Montes - Foto de Rafael Baptista


Conforme refiro em “Memória de Maria Castanha”, Rebordelo, nas décadas de setenta e oitenta tinha os três maiores e mais temidos “peleiros da castanha” ou armazenistas/ajuntadores. 



5 e 6- Lebução - Edifício identificado como sinagoga clandestina e
marca cruciforme - Foto de Rafael Baptista


A este propósito, o contista moimentano, Jorge Tuela (pseudónimo de Isaque barreira), passou a conto o dito “bem-aventurados são os que não têm contas com os de Moimenta, Rebordelo e Lebução”. Nesta última localidade, na primeira metade do Séc. XX havia um dos maiores negociantes de cavalos de Trás-os-Montes, o Messias, amigo do meu avô materno, Manuel Deimãos. Hoje os estudos e congressos judaicos estão na moda porque respinga a dinheiro nos projectos de rotas das judiarias e das sinagogas.

Ainda bem que assim é, pois vimos dinheiro tão mal empregue, que este pelo menos visa em ensinar-nos quem fomos, para melhor sabermos quem somos, Investir na nossa história e cultura, é dinheiro muito bem aplicado. ZD

Mirandela não pode ficar de fora, havendo alguma tradição de judeus nesta cidade, e mais em Carvalhais e na Torre Dona Chama.



Mirandela - Aguarela de Julio F. Rodrigues


Numa viagem que realizei à cidade de Mirandela no ano de 2010, recebi do posto de turismo local a indicação da possível localização da antiga Judiaria da cidade.
A Judiaria ficaria situada no que é actualmente as Ruas do Toural e do Rosário, incluindo a Travessa do Quebra- Costas. ZD

Eis as fotos das respectivas ruas:





A Judiaria ficaria muito próxima da actual Câmara Municipal de Mirandela 
Fotografias de Carlos Baptista


Mirandela tem uma das sete maravilhas da gastronomia nacional, a alheira, que a nossa tradição cola, de forma não sustentável, a sua criação aos judeus. Haja audácia para na nossa região se produzirem produtos kosher (produtos produzidos segundo o preceito judaico) tais como este popular enchido, o azeite, o queijo e o vinho.


 As alheiras de Mirandela não são kosher por lhe terem sido adicionada carne de porco e por serem produzidas também por outras carnes e produtos que não obedecem aos preceitos judaicos. 


O mesmo se aplica aos outros produtos aqui mencionados, a menos que sejam vendidos numa loja da especialidade, ou numa outra com um espaço próprio para os mesmos e todos eles terão que ser identificados com o respectivo selo, ou marca confirmando a sua origem. 



Bragança na criação de infra estruturas culturais e artísticas, passa por Mirandela à velocidade de um comboio pendular, enquanto nós não vamos muito além dos movidos a carvão. E assim, Bragança que aplaudimos, já está a construir um “Centro de interpretação Judaico”, com o projecto do arquitecto Souto Moura. Sobre a história dos judeus em Trás-os-Montes temos como grande especialista o moncorvense, António Júlio de Andrade. 

Arquitecto vai projectar espaço que ficará num edifício contíguo ao Centro de Arte Contemporânea Graça de Morais, da sua autoria.



Será este o espaço dedicado à cultura sefardita e ficará junto ao Centro de Arte 
Contemporânea Graça Morais.


Sobre a palavra “marrano”, o Capitão Barros Basto, autor da obra “Resgate” dia que a sua etimologia está na língua hebraica: “mar” que significa “amargamente” e “anuss” que significa “forçado”. Ou seja, os judeus são um “povo amargamente forçado” a errar pelo mundo, desde que o Templo de Salomão foi arrasado pelos romanos. Na Idade Média sempre que o número de judeus superava a dezena (minyam, ZD) era criada uma comuna ou aljama com uma sinagoga.




Por: Jorge Iage
In:jornal.netbila.net